Consórcio admite acesso antecipado ao edital para ‘aprimoramentos’, mas nega fraude

O ex-prefeito de Campo Grande Nelsinho Trad afirma que o processo licitatório ocorreu de acordo com o que determina a lei

O Consórcio Guaicurus rebateu as informações reveladas pelo advogado Sacha Reck, em delação premiada ao Ministério Público do Paraná e divulgada com exclusividade pelo Jornal Midiamax, de que o grupo de empresas que controlam o transporte coletivo em Campo Grande teria cometido irregularidades para vencer a licitação de 2012, quando manteve o monopólio do setor por mais 20 anos.

No entanto, em nota divulgada pelo advogado André Borges, que atua na defesa do Consórcio, há a confirmação de que o edital foi divulgado antecipadamente, “visando aprimoramentos”. Além disso, declara que Sacha Reck, à época, tinha “enorme conceito” no setor de transportes e que a delação deve ser “compreendida com enormes temperamentos”.

“Nada de errado houve na licitação, chancelada quanto à validade por importantes órgãos de controle. Edital foi divulgado com antecedência, visando aprimoramentos. Delação é algo que merece ser compreendida com enormes temperamentos, ainda mais quando pode ter partido de advogado à época com enorme conceito no setor”, diz a nota encaminhada à reportagem nesta quarta-feira (31).

“Consórcio está e sempre esteve à disposição dos órgãos públicos, para esclarecer o que for necessário. Investigação de Guarapuava vem sendo acompanhada tecnicamente, sequer havendo especificamente apuração quanto à licitação de Campo Grande”, finaliza.

‘Tudo dentro da legislação’

Ao Jornal Midiamax, o ex-prefeito Nelsinho Trad (PSD), que comandava o Paço Municipal no ano em que houve a licitação, também negou qualquer irregularidade, dizendo que o “processo foi legítimo, foi legal, e todos os trâmites obedeceram a lei”.

Sobre um vazamento antecipado do edital para favorecer o Consórcio Guaicurus, Nelsinho diz não considerar esta hipótese. “O edital foi publicado na internet. Essa questão foi tratada com um grupo técnico e me lembro que esse edital tinha sido publicado com várias participações, foi discutido no conselho do transporte público, e ele foi público”.

A respeito da exigência de que deveria haver mais empresas, além do Consórcio, na disputa do certame, o ex-chefe do Executivo afirma que “isso jamais ocorreu”.

“O processo, ele seguiu seu curso normal obedecendo a legislação. Com certeza absoluta não [ocorreu irregularidade], até porque nunca foi questionado isso aí. Já se passaram quanto tempo? “, indaga Nelsinho Trad.

Informado sobre as investigações do Ministério Público do Paraná sobre uma organização criminosa, da qual Sacha Reck faz parte, que utilizava um esquema em diversas cidades do país para fraudar licitações dos serviços de ônibus, o agora senador da República demonstrou não ter conhecimento destas apurações.

“Se está judicializado lá, eles que tem a prerrogativa de investigar isso aí. Em relação a Campo Grande, eu posso te dizer que foi tudo dentro da legislação”, concluiu Nelsinho.

A delação

Em acordo de colaboração premiada no Ministério Público do Paraná, o advogado Sacha Reck afirmou que a licitação que entregou o contrato milionário do transporte coletivo urbano de Campo Grande foi direcionada para o Consórcio Guaicurus vencer. A fraude foi detalhada pelo advogado que ajudou os empresários a vencer o certame em 2012. A delação foi obtida com exclusividade pelo Jornal Midiamax.

Um dos responsáveis pela formação do Consórcio Guaicurus, o advogado paranaense confirmou que houve direcionamento na licitação do contrato dos ônibus de Campo Grande, realizada em 2012, no final da gestão de Nelson Trad Filho (PSD) como prefeito.

Na delação, Reck relata que atuou, na capital de Mato Grosso do Sul, com o mesmo esquema utilizado em diversas cidades do país para fraudar licitações dos serviços de ônibus em cidades brasileiras. Fora de MS as investigações caminharam e Sacha já foi condenado por improbidade no Distrito Federal.

De acordo com investigações do Ministério Público do Paraná, o esquema funcionava de modo que tudo era combinado entre empresários, advogados e funcionários públicos. Eles definiam em conjunto como seria o texto dos editais de licitação para garantir a vitória das empresas que faziam parte da fraude.

Mais notícias