Homenagem para ‘pai’ do ET Bilú vira drama de novela na Câmara dos Vereadores

Autor da homenagem diz que cedeu vaga para colega e este afirma que nem conhecia as polêmicas em torno de Urandir

Virou drama de novela a mais nova indicação do empresário Urandir Fernandes de Oliveira – figura polêmica que ficou famosa em 2010 ao mostrar em rede nacional o ‘ET Bilu’ – para uma honraria. Ele será um dos homenageados que receberá, na próxima quarta-feira (21), o título de Cidadão Campo-grandense, pelas mãos do vereador Antônio Cruz (PSDB).

Urandir já foi agraciado, em outubro de 2018, com o título de Cidadão Sul-Mato-Grossense, concedido pelos então deputados Junior Mochi (MDB) e por Paulo Siufi (MDB), na Assembleia Legislativa. A homenagem gerou controvérsias, principalmente porque Urandir é terraplanista: ou seja, não acredita que a Terra seja redonda.

Daí entra em cena o pesquisador Ademar José Gevaerd, referência internacional em ufologia, que  divulgou nesta terça-feira (20) nota endereçada ao vereador Antônio Cruz na qual critica a concessão do título a Urandir.

Na carta de Gevaerd, endereçada também a toda a imprensa de Mato Grosso do Sul, o ufólogo destaca indignação e confronta o vereador. Ele detalha, por exemplo, episódio envolvendo Siufi e Mochi, que após a homenagem admitiram que nem sabiam das polêmicas envolvendo o “pai” do ET Bilú.

Na nota, Gevaerd confronta Antonio Cruz, que homenageia Urandir | Foto: Arquivo Midiamax

“Bem, o senhor não terá direito a este mesmo tipo de afirmação, ou desculpa, posterior quando a imprensa e a população de Campo Grande, além da Comunidade Ufológica Brasileira, lhe fizerem a mesma justa cobrança. Porque o senhor teve o exemplo a ser seguido, de cautela e precaução, e se continuar em frente com seu plano arruinará a imagem do político probo que sempre levantou e da cidade que há tantos anos o mantém em seu posto”, traz trecho da carta aberta.

O ufólogo ainda põe em cheque o que realmente teria motivado a honraria e aponta que Urandir poderia até ter pago o vereador para tanto ou, simplesmente, que a designação foi ocasionada por desconhecimento.

“Se for a segunda situação – a de que se trata apenas de ignorância pura e simples do eminente vereador –, a população de Campo Grande merece e deve receber do senhor um pedido de desculpas público”.

Reviravolta

É quando acontece a primeira reviravolta na trama: na justificativa do vereador para o nome de Urandir, que integra o decreto legislativo com os nomes dos homenageados com o título de Cidadão Campo Grandense, Cruz destaca a relevância do Projeto Dakila a Campo Grande e também porque Urandir beneficiaria a cidade.

A reportagem procurou o vereador para comentar a carta de Gevaerd. Pela assessoria, veio a revelação de que Cruz apenas cedeu uma das três vagas que cada parlamentar tem direito para outro vereador, no caso, Wilson Sami (MDB). O gabinete prepara uma nota de esclarecimento sobre o caso.

Imagem de como seria o planeta Terra, segundo Urandir (reprodução Dakila Pesquisas)

Também procurado pela reportagem, Sami colocou a situação em panos quentes: ele comentou que a escolha do homenageado também foi em atendimento a um pedido de um terceiro e que desconhecia as polêmicas envolvendo Urandir.

“Era uma vaga dele [Antônio Cruz], e ele cedeu a vaga. Eu desconheço essa parte [polêmicas envolvendo Urandir]. Quando você apresenta o currículo para ser homenageado, é feita a pesquisa de antecedentes criminais. Não apareceu nada disso, tanto é que não passaria pelo crivo. Na verdade, foi um pedido do Eli [Souza], da revista ImpactoMS. Amigo da gente, que a gente conhece. Não vi maldade em nada disso aí. Ele [Urandir] tem a sua teoria, eu não comungo dessa teoria”, destaca o vereador.

“Eu penso que cada ser humano tem sua teoria, a sua tendência. Cada um é livre para pensar de como a sua vida é filosoficamente. Quem somos nós para julgarmos os outros. Não posso impor aquilo que penso para os outros. Cada um tem seu jeito de ser”, complementa.

Difícil dizer se já uma cena final para o dramalhão – mais uma trama novelesca envolvendo parlamentares do Estado e Urandir. Conforme apurado pela reportagem, há possibilidade de que o comunicado do vereador Antônio Cruz mencione, por exemplo, o desejo do vereador de voltar atrás com a nomeação. Estas, porém, são cenas do próximo capítulo.

Quem é Urandir?

Urandir é o responsável pela empresa Dakila Pesquisas, e lançou em março do ano passado “Terra Convexa: O Documentário”, que ele diz ser resultado de sete anos de investigações com experimentos realizados pelo projeto, junto ao CTZ (Centro Tecnológico Zigurats). O filme aponta que a terra não esférica, mas convexa.

Urandir recebendo a homenagem dos deputados (Foto: Luciana Nassar/ALMS)

As polêmicas fazem parte da vida do empresário. Em 2009, Urandir chegou a ter problemas com a polícia, sob suspeitas de curandeirismo, charlatanismo, estelionato e falsidade ideológica.

Desde os anos 90, ele mantém no município sul-mato-grossense de Corguinho o Projeto Portal, onde diz que são realizadas pesquisas sobre extraterrestres e também supostos contatos com vida fora da Terra. A estrutura de Urandir é reconhecidamente uma fonte de renda na cidade, para onde atrai turistas de todo o mundo e movimenta o setor de serviços e comércio.

Porém, é pelo episódio envolvendo o célebre ET Bilú que Urandir foi para os holofotes nacionais, em 2010. Na reportagem veiculada na Rede Record, Urandir conduz contato imediato com um ser extraterreste que se identifica como Bilú, que deixa até mensagem à humanidade: “Apenas que… busquem conhecimento”.

O vídeo foi desmentido por diversas equipes de perícia, que disseram que o ET era, na verdade, uma pessoa disfarçada. Confira-o abaixo: