Geraldo é investigado por suposta propina de R$ 150 mil para votar em Cunha

Secretário estadual de Saúde era deputado federal na época a qual a delação se refere e recebeu R$ 150 mil da JBS em doação de campanha

Um procedimento aberto pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, investiga o suposto envolvimento de 18 pessoas, entre elas dois ex-deputados federais sul-mato-grossenses, em esquema que envolveu o pagamento de R$ 30 milhões em troca de votos para reeleger Eduardo Cunha como presidente da Câmara Federal.

Entre os envolvidos estão o atual secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, e o deputado estadual Marçal Filho, ambos do PSDB, mas que na época eram do MDB e atuavam em Brasília (DF) como deputados federais. Geraldo teria recebido R$ 150 mil, segundo delação feita pelo lobista Ricardo Saud.

O inquérito apura a prática de corrupção passiva e ativa delatada por Ricardo Saud, que seria o responsável por persuadir os congressistas a aceitarem o acordo e receber a propina de Joesley Batista, dono da JBS, através de doação da empresa.

Além da Saud e Batista, o esquema contaria ainda com a participação de Lúcio Funaro. Os autos apontam ainda que Geraldo Resende e Marçal Filho, na época congressistas pelo MDB, estariam na lista de políticos que receberam valores para favorecer Cunha.

Entre as 103 folhas já existentes, consta ainda o indicativo feito por Saud que Geraldo, tratado pelo segundo sobrenome, Pereira, teria recebido R$ 150 mil para votar em Cunha, considerado o “melhor nome para fazer contraponto à presidente Dilma”, conforme afirmou Saud em delação ao STF.

“Estive com mais de 200 deputados de novembro de 2014 a janeiro de 2015”, conta Saud, dizendo ainda que “Eduardo Cunha com certeza destinou recursos” para 11 citados, entre eles Geraldo Resende, atualmente chefe da SES (Secretário Estadual de Saúde).

Como alguns dos citados já não possuem mais o foro privilegiado, caso de Resende e Marçal, Fachin determinou que os arquivos fossem remetidos ao TRF1 (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, que dará prosseguimento ao caso.

Ex-parlamentares federais reagem com surpresa e tranquilidade

O apoio em questão foi para a reeleição de Cunha para a presidência da Câmara Federal, em 2015. A votação aconteceu em fevereiro daquele ano, quando Marçal já não era mais deputado federal, por ter perdido a disputa em outubro do ano anterior.

“Eu fiquei surpreso, muito surpreso [com a citação de Saud e abertura de inquérito]. Para eu poder ter votado no Cunha eu precisa ser deputado. Para alguém pedir meu voto, eu precisava ser eleitor. Como seria procurado para votar? Eu perdi em outubro e a eleição foi depois, em fevereiro”, se defende Marçal.

Atualmente deputado estadual e em outro partido, o PSDB, ele diz acreditar que houve alguma confusão que deve ser corrijida pelo STF. “Não faz o menor sentido, eu ser envolvido em compra de votos sendo que não fui reeleito. O mais absurdo disso tudo é ser investigado por uma coisa que não tinha como participar”.

Já Resende afirmou em nota enviada à imprensa estar “bastante tranquilo” em relação às acusações, dizendo ainda que denúncias não condizem com a realidade, “já que nunca, em época alguma, discutiu apoio às suas campanhas eleitorais com a JBS”.

Quanto à abertura de investigações, Geraldo afirma respeitar a decisão do ministro, pois as mesmas “inserem-se em suas prerrogativas como membro do STF”. Em seguida, ele ainda crava que no fim “será comprovado que o financiamento da campanha eleitoral de 2014 não tem nenhuma relação com a escolha de membros da direção daquela Casa”.

Financiamento da campanha de 2014

Até 2014, as campanhas eleitorais ainda podiam receber recursos de empresas – agora, o dinheiro deve ser doado apenas por pessoas físicas, ficando as jurídicas vetadas. Geraldo afirma que recebeu apenas doações de seu partido à época, o MDB.

Entretanto, conforme consta no sistema próprio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de prestação de contas, ele recebeu diretamente da JBS justamente o valor de R$ 150 mil, o mesmo indicado por Saud em sua delação. Ele também recebeu indiretamente outros R$ 300 mil da JBS, oriundos da direção nacional e do comitê de Simone Tebet.

Já Marçal, frisa não ter recebido doação direta da JBS. “Meus doadores foram o Nelsinho, Simone e a direção nacional e estadual do MDB. Não recebi nada direto de ninguém e não conheço ninguém da JBS”.

De fato, ele não recebeu doação direta da JBS. Em contraponto, ele recebeu R$ 403 mil indiretamente do frigorífico pertencente aos irmãos Joesley e Wesley Batista. Desses valores, R$ 253 mil foram repassados via comitê do então candidato a governador Nelsinho Trad e outros R$ 150 mil chegaram através da direção nacional.

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