Preso pela PF, dono da PSG seria ‘emissário’ de políticos de MS na JBS

Entregas foram realizadas em um posto de gasolina na 'Cidade Maravilhosa'

Reinaldo recebeu doação de empresário citado por delator (Foto: Marcos Ermínio)

Com datas de entregas, cópias de passagens aéreas e até recibo de aluguel de carros na cidade do Rio de Janeiro, o ex-conselheiro fiscal da JBS, Florisvaldo Caetano de Oliveira, complementou as informações do dono da empresa, Wesley Batista, sobre supostas entregas de propinas feitasa políticos ou seus ‘emissários’, entre eles o empresário Antônio Celso Cortez, dono da PSG – Tecnologia Aplicada Ltda, preso nesta quarta-feira (12) pela Polícia Federal no âmbito da Operação Vostok, e que foi doador de campanha do governador Reinaldo Azambuja (PSDB) em 2014.

Em um novo depoimento encaminhado ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), ao qual o Jornal Midiamax teve acesso, Wesley contou que a partir do começo de 2015, até o final de R$ 2016, repassou R$ 53 milhões em propina a Reinaldo (outros R$ 17 milhões foram antecipados na campanha de 2014, totalizando R$ 70 milhões), sendo R$ 33 milhões por meio das notas fiscais fraudulentas, e outros R$ 20 milhões entregues em espécie por Florisvaldo a um emissário de Azambuja, com alguns destes encontros acontecendo, supostamente, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Em seu depoimento, Florisvaldo elenca oito entregas em 2015 que tinham como destinatário ‘o Mato Grosso do Sul’. Apontado como ‘homem da mala’ da JBS, o ex-funcionário, além de integrar o conselho fiscal da multinacional, tinha um escritório de contabilidade na Avenida Brigadeiro Faria Lima, Jardim Paulistano, próximo ao Centro de São Paulo, onde também realizava entrega de dinheiro a políticos.

Oliveira detalha quatro entregas em 2015 em seu escritório que tiveram como destino ‘o Mato Grosso do Sul’, de R$ 1,5 milhão no dia 19 de janeiro, mais R$ 1 milhão no final de fevereiro (no dia 20), e duas em abril daquele ano, uma de R$ 1 milhão no dia 7 e mais R$ 2,1 milhões no dia 16.

Mais quatro entregas aconteceram no Rio de Janeiro, sendo a primeira no dia 5 de março de 2015, de R$ 2 milhões, e as demais “no posto Shell na Estrada da Agua Branca (…)nos seguintes valores e datas aproximados:  em 14/5/2015, R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais); em 18/6/2015, R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais); em 10/7/2015, R$ 3.530.000,00 (três milhões e quinhentos e trinta miI reais)”, aponta trecho do depoimento.

Todas as entregas feitas, que totalizam R$ 18,1 milhões, tiveram como destinatário o empresário Antônio Celso Cortez, que Florisvaldo alega que já conhecia desde 2010, quando começou a fazer os pagamentos de propinas a políticos sul-mato-grossenses, conforme orientação de Demilton de Castro (outro funcionário da empresa e também delator).

As entregas de dinheiro, detalhou o delator, seguiram sempre o mesmo mecanismo a todos os políticos citados na delação da JBS. Demilton levava o dinheiro a Florisvaldo com informações sobre destinatário e uma senha que o somente o ‘emissário’ do destinatário da propina tinha conhecimento.

Além de Reinaldo, o dinheiro da propina, segundo os delatores, tiveram como destinatários os ex-governadores André Puccinelli (MDB) e Zeca do PT. Também listados como operadores do esquema, o pecuarista Ivanildo Miranda e o empresário João Baird, que teriam recebido dinheiro a ser entregue ao emedebista. Florisvaldo contou que o petista foi pessoalmente buscar o dinheiro, mas não soube detalhar datas e valores.

 

Provas foram anexadas à delação da JBS

Milhões em recursos

Apesar de figurar nas investigações da Operação Lama Asfáltica como supostamente ligado ao empresário João Baird, a empresa de Antônio Celso, a PSG – Tecnologia Aplicada Ltda, já recebeu do governo Azambuja pouco mais de R$ 205 milhões, de janeiro de 2015 até o começo do último mês de agosto, conforme dados do Portal de Transparência do Governo do Estado.

Cortez doou, em 2014, pouco mais de R$ 1 milhão naquela campanha. O maior beneficiário das doações do empresário foi então candidato do PSDB, Reinaldo Azambuja, que recebeu R$ 300 mil.

Outros quatro parlamentares eleitos em Mato Grosso do Sul, na chapa que elegeu o tucano governador, também receberam dinheiro do empresário.

O deputado federal Elizeu Dionizio, eleito pelo SD, mas que recentemente trocou o PSDB pelo PSB, levou R$ 157 mil, os deputados estaduais do PSDB, Onevan de Matos, com doação de R$ 50 mil, Enelvo Felini, com R$ 20 mil e Herculano Borges (SD), com R$ 30 mil, também figuram como recebedores de Cortez.

Negativas

Os três políticos que já governaram o Estado negam que tenha recebido propina da JBS. Azambuja acusou os empresários Joesley e Wesley Batista de serem chefes de uma ‘organização criminosa’, além de ‘mentirosos’. O governador ainda não se posicionou sobre a operação Vostok.

O advogado Carlos Amaro, que retornou os contatos em nome do empresário Antônio Celso Cortez, afirmou que seu cliente desconhece os fatos citados. Ele negou que o dono da PSG tenha captado propinas da JBS, e revelou que Cortez sequer foi citado na ação.

O deputado estadual Enelvo Felini afirmou que nunca solicitou doação de Antônio Celso, e que todos os valores arrecadados em sua campanha foram ‘devidamente declaradas à Justiça Eleitoral’.

Já Onevan de Matos afirmou ‘sequer conhecer’ o empresário. “Em havendo alegações de envolvimento do mencionado doador com atividades ilícitas, devem ser objeto de apuração nas esferas competentes”, declarou o deputado.

Herculano Borges afirmou apenas, por meio de sua assessoria, que não sabia da doação e recebeu a informação com ‘estranheza’.

A reportagem também encaminhou solicitação de respostas ao deputado Elizeu Dionizio, que não respondeu os questionamentos até a publicação da matéria.

Todo conteúdo da delação, bem como novas provas anexadas aos autos, estão sob relatoria do ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), que remeteu as informações acerca do governador Reinaldo para o STJ (Superior Tribunal de Justiça), ao ministro Félix Fisher, responsável pelo inquérito sigiloso 1.190, a quem compete, receber ou não, as denúncias envolvendo o Chefe do Executivo Estadual.

Vostok

Nesta quarta-feira (12), a Polícia Federal divulgou que aproximadamente 220 policiais federais cumprem 41 mandados de busca e apreensão e 14 mandados de prisão temporária, no âmbito da Operação Vostok, em Campo Grande, Aquidauana, Dourados, Maracaju, Guia Lopes de Laguna, e no município de Trairão, no Estado do Pará.

Além destes, também foram cumpridos outros três mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Estadual do Mato Grosso do Sul, pedidos pelo MP-MS (Ministério Público Estadual), de ações, que segundo a PF, têm o mesmo objeto ligado aos fatos investigados em âmbito federal.

A Operação tem o objetivo de combater um esquema de pagamento de propina a representantes da cúpula do Poder Executivo Estadual.

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