Vídeo revela coação eleitoral de Puccinelli sobre servidores para eleger Giroto

Em reunião sobre campanha de Giroto, governador impôs candidatos a vereadores aos servidores, obrigados a declarar voto em público, para que fossem conferidos um a um

A Democracia plena, com “D” maiúsculo, e livre direito de voto, conquistada depois de anos seguidos de luta contra a ditadura militar, parece não ter chegado, plenamente, ao Mato Grosso do Sul.


Ao menos é o que se vê em vídeo remetido, anonimamente, para o Midiamax, e gravado no último dia 10 de agosto na sede do PMDB de Campo Grande. Na ocasião, o governador André Puccinelli comandou reunião com servidores públicos estaduais da Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas) para discutir a campanha de Giroto à prefeitura.


No vídeo é possível ver, em bom som, o governador chamando funcionários de alto escalão a partir de uma lista onde constavam o nome, sua intenção de voto e de propaganda política. O auditório do PMDB, na Avenida Mato Grosso, estava lotado.


Não era para menos, como disse logo no início do vídeo uma servidora assustada com a possibilidade de a amiga perder o cargo:


– Já te chamou e você ficou com falta!”


– Fiquei nada…tô aqui”


– Diz que ia ser exonerado quem não veio”


Funcionários exonerados poderiam ser aqueles de cargo de confiança (nomeados) que não viessem à reunião com o governador para definir a composição da “dobradinha” de Giroto e com os vereadores aprovados por Puccinelli.


A Constituição e a Lei Eleitoral dizem que é crime obrigar o servidor com ou sem cargo de confiança a votar no candidato escolhido por governador, porque o fato configura “abuso de poder econômico.”


Na gravação a que Midiamax teve acesso é possível notar, com clareza, que várias vezes o governador mudou o voto dos servidores. Também houve orientações sobre a forma de fazer propaganda, e uma servidora chega até a dar satisfação pessoal sobre isso.


Puccinelli leu o nome dos servidores a partir da lista pré-elaborada, fato que indica que o esquema já estava se desenrolando. E se são cargos mais altos, é possível considerar que há uma suposta pressão sobre subalternos nos locais de trabalho.


Na reunião, Puccinelli chamava os servidores nominalmente e conferia seus votos:


Puccinelli – Graziela da Silva Tenório?


Servidora – Giroto e Otávio Trad.


Puccinelli – Você era Edil, agora mudou para Otávio Trad


Funcionário comenta – “Vixe, que lei dura…” (todos riem da “linha dura”). Na próxima chamada, a funcionária se mostra visivelmente constrangida, e dá satisfação ao governador:


Puccinelli  – Cássila Andreá Alves


Servidora – Giroto e Pastora Marta


Puccinelli  – “Fala pra pastora Marta que ela colocou Giroto no microscópico…eu tenho que comprar uma luneta pra enxergar .


Servidora- (preocupada) – “Mas no meu carro tá grande”


Puccinelli  – Se ela não colocar grande no carro dela, eu vou “girotear” a Marta.


Servidora – O meu tá no carro com emblema grande!


Puccinelli – Então fala pra ela que eu disse…“O do Giroto tem que ser daquele fechado no vidro traseiro do carro”. Não tem que dar mole pra vereador!


Puccinelli  – José Carlos Lopes Silva?


Servidor – Edil e Giroto.


Puccinelli  – Nós vamos por pra votar pra Carla aqui, tá bom?


Servidor – Tá bom.


Puccinelli  – Agora mudou, tá bom?


Servidor – Tudo bem.



Crime eleitoral

A prática comprovada pelo vídeo da reunião de Puccinelli com funcionários havia sido denunciada na Assembleia Legislativa pelo deputado Pedro Kemp (PT), e na Câmara de Vereadores de Campo Grande pelo vereador Athayde Nery (PPS).


A própria Constituição Federal de 1988, em seu artigo 14, estabelece: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: § 9º – Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta”.


Em linguagem popular, no entanto, aquilo que reza a lei tem leitura mais simples – voto de cabresto. Segundo definição do Wikipédia, o voto de cabresto é “um sistema tradicional de controle de poder político através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública”.