‘Patrão da polícia em PJC’: repórter morto na fronteira investigava corrupção na polícia e no MP

Prints de conversas revelam que Leo Veras investigava ligação entre facções e polícia de Pedro Juan Caballero

Enquanto as investigações caminham para deixar apenas na conta de ‘facções que atuam na fronteira’ a morte do jornalista brasileiro Leo Veras, executado dentro de casa com 12 tiros no último dia 12 de fevereiro, autoridades paraguaias de Pedro Juan Caballero foram citadas pelo próprio repórter como motivo de preocupação para a segurança dele, pouco antes da execução.

Prints de conversas exclusivas do repórter com colegas brasileiros revelam que Veras investigava indícios da corrupção dentro da polícia paraguaia e até o envolvimento de membros do Ministério Público Paraguaio na região norte do Paraguai com esquemas lucrativos, como o narcotráfico e contrabando de cigarros, pneus e agrotóxicos para o Brasil através da fronteira seca de Mato Grosso do Sul.

Segundo revelado por Leo Veras em trocas de mensagens, haveria indícios de que um ‘novo chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital), na região de Pedro Juan Caballero’, seria o novo ‘patrão’ da polícia paraguaia local. Segundo ele, no entanto, a corrupção seria sistêmica entre membros das forças de segurança paraguaia, que receberiam dinheiro tanto do PCC, quanto da facção adversária CV (Comando Vermelho).

Ambas são organizações criminosas brasileiras que brigam pelo controle das operações na região de fronteira seca com Mato Grosso do Sul, considerada estratégica devido à facilidade para entrar no Brasil pelo estado. Operações policiais recentes apreenderam dezenas de policiais sul-mato-grossenses implicados na facilitação do contrabando de cigarros pelas estradas de MS.

Os chamados ‘cigarreiros’, policiais corruptos que recebem para abrir ‘túneis’ sem vigilância para cargas de cigarro paraguaio e outros produtos ilícitos, seriam um dos motivos que tornam MS visado entre as facções criminosas que lucram milhões com narcotráfico e contrabando.

Mas, as implicações de corrupções não paravam na polícia, já que uma autoridade da Justiça estaria implicada também nas denúncias, que Leo Veras apurava.

‘Os cara são brabo aki’

Em conversas pelo aplicativo WhatsApp, Leo chegou a pedir para que a publicação fosse feita pelo Jornal Midiamax para que ele pudesse replicar a denúncia em seu site de notícias, já que estava sozinho na fronteira, sendo assim uma forma de não se expor muito e diminuir os riscos.

Não deu tempo. Enquanto as apurações jornalísticas necessárias estavam em andamento, Veras foi assassinado.

Em um dos trechos das conversas, o jornalista diz que a polícia paraguaia estaria vendida e que não teria coragem de agir contra os líderes do CV e do PCC, já que recebiam dinheiro das facções. Em outro trecho ele revela o grau de intimidação que enfrentava, “Doido para escrever, mas não posso. Os cara são brabo aki (sic)”.

Em mais um trecho, Leo fala sobre indícios da implicação de promotor de Justiça do Paraguai com o acobertamento da corrupção dentro da polícia paraguaia.

‘Amordaçado’

O jornalista que foi ‘amordaçado’, logo depois de ser executado com 12 tiros e todos pelas costas, em uma menção por ter falado demais tentava descobrir valores e o total de agentes da segurança, que recebiam propina das facções criminosas para ‘fechar os olhos’ para atuação na fronteira do PCC e do CV.

A polícia paraguaia afirmou que a morte de Leo Veras teria sido obra de membros de facção criminosa por causa de matérias publicadas pelo jornalista sobre o narcotráfico na região.

No entanto, policiais e narcotraficantes da região de fronteira comentam nos bastidores que a ligação de autoridades paraguaias é mais provável. Uma das facções criminosas que atua na região chegou a emitir um comunicado negando envolvimento com a mentoria do crime.

O Governo Paraguaio enviou para o local força-tarefa com promotores de Assunção para acompanhar as investigações e prometeu levar a fundo a apuração. Logo após a morte de Veras, no entanto, a polícia paraguaia removeu computadores e documentos na casa do jornalista, onde ele foi executado quando jantava com a família.

A execução

Ao menos quatro pessoas teriam participado do homicídio. Leo estava em casa, jantando com a família, quando o grupo invadiu o local, na noite de quarta-feira (12). Um dos autores ficou no veículo modelo Jeep Grand Cherokee usado no transporte, e outros três realizaram o ataque. Logo ao levar os primeiros tiros, Léo correu para os fundos da residência, uma área escura, na tentativa de se proteger, mas foi perseguido.

Lá, os criminosos os terminaram de matá-lo com o total de 12 disparos. Em seguida o amordaçaram. Vídeos do local do crime divulgados logo após o assassinato mostram um pano branco, ensanguentado, que foi usado para tapar a boca do jornalista. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) acompanha o caso e divulgou nota oficial afirmando que não aceitará que o crime fique impune.

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