‘Parecia um príncipe encantado’, diz família de Maxelline sobre guarda que a assassinou

Somente nos dois primeiros meses de 2020, Mato Grosso do Sul registrou 6 feminicídios

Assassinada aos 28 anos de idade pelo ex-namorado, o guarda municipal Valtenir Pereira da Silva, 35 anos, Maxelline Santos foi mais uma vítima da violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul. Somente em dois meses de 2020 já foram registrados seis feminicídios no estado. O número é duas vezes maior em comparação ao ano passado, que registrou três casos.

“Parecia um príncipe encantado”

O relato é de uma prima de Maxelline, assassinada com um tiro na cabeça, no último sábado (29). Pelo Facebook, a prima expressa a indignação pelo crime e pede que as mulheres não permitam um relacionamento abusivo. “Se bateu uma vez, vai bater de novo”, diz.

Conforme o relato, Maxelline já havia demonstrado várias vezes que não queria manter mais o relacionamento com Valtenir, porém, tinha receio por ele andar armado. “Todas as vezes que tentava terminar, ele não deixava, apelava para o lado emocional”, descreve a prima. Mesmo a família notando um comportamento estranho do guarda, ele era bem acolhido. “Convivia conosco. Tratamos ele bem por causa dela, porque ela gostava dele”, diz.

'Parecia um príncipe encantado', diz família de Maxelline sobre guarda que a assassinou
Valtenir foi preso nesta sexta-feira

Ainda, conforme o desabafo na rede social, Maxelline teria descoberto mentiras a respeito de Valtenir. “Ele mentiu a idade, mentiu a quantidade de filhos. Na época ele tinha dito que tinha 30 anos, mas na verdade ele tinha 34, falou também que tinha apenas um filho, mas aos pouco ela foi investigando a vida dele e descobriu que ele tinha 5 filhos”.

Valtenir reclamava do short curto e até do interesse da jovem em estudar. “Ele dizia: pra que? Só tem homem nesse curso”. Ao descobrir as mentiras, Maxelline decidiu terminar o relacionamento. No entanto, Valtenir a procurava e agia normalmente, como se estivessem juntos. No relato também é descrito que Valtenir não gostava das amigas de Maxelline, principalmente da que foi ferida por ele com um tiro.

“Não existe só a violência física, existe a violência psicológica, sexual, patrimonial e uma série de outras coisas como essas. Homens que leram até aqui, respeite quando uma mulher disser não”, finalizou.

Valtenir foi preso e arma usada no crime foi apreendida. Entenda o caso clicando aqui.

Seis feminicídios em MS

Somente nos dois primeiros meses de 2020 já foram registrados seis feminicídios em Mato Grosso do Sul. O número é duas vezes maior se comparado ao ano passado, quando foram registrados três casos.

No dia 8 de janeiro, Keila Varanda de Souza, 32 anos, morreu na Santa Casa de Campo Grande devido a uma pedrada que levou do marido de 42 anos. O crime ocorreu em Corumbá, cidade a 426 quilômetros da Capital. Keila morreu 59 dias após ser atingida pela pedrada.

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Florista foi morta por ex que não aceitava fim da relação.(Reprodução Facebook)

No dia 18 de janeiro, a florista Regiane Fernandes de Farias, 39 anos, foi assassinada a tiros em frente a seu local de trabalho, no Carandá Bosque, em Campo Grande. O autor não aceitava o fim do relacionamento e na manhã do dia 18 foi até o local de trabalho de Regiane e a esperou, quando a florista chegou ele cometeu o crime, em seguida atirou contra a própria cabeça.

No dia 19 de janeiro, a adolescente de 17 anos Nicole Teixeira Amorim foi assassinada com dois tiros que atingiram a sua cabeça e o peito. O marido dela, um rapaz de 19 anos, teria usado a arma do sogro que estava na casa para efetuar os disparos. O crime aconteceu em São Gabriel do Oeste, cerca de 133 quilômetros de Campo Grande.

Na manhã do dia 24 de fevereiro, Rosenilda dos Santos Além, 38 anos, foi morta a facadas, em uma residência localizada no Jardim Olenka, em Sidrolândia, a 70 quilômetros da Capital. O principal suspeito é o marido Emerson Claudio Favero, 42 anos, que tentou suicídio após o feminicídio.

Mulher não é propriedade!

Os crimes de violência contra a mulher geralmente são cometidos por companheiros ou ex, que não aceitam o fim do relacionamento, o conhecido “sentimento de posse”. No entanto, mulher não é propriedade.

“A relação de posse é um fator que a gente vê basicamente em todas as situações de violência, porque o agressor se sente dono daquela pessoa. O machismo faz com que o agressor entenda que a mulher pertence a ele. Ela é vista como patrimônio, não pode ser independente, não pode querer mais”, explica o psicólogo Rodrigo Batista Torraca.

“Ele não quer a companheira envolvida com qualquer outra coisa, mesmo que seja para crescimento pessoal. As vezes é um medo porque com o crescimento se cria independência e essa mulher independente vai buscar outros caminhos, abrir os olhos para o que está acontecendo dentro do relacionamento. Mas o agressor não quer isso, quanto menos sua parceira se desenvolva, melhor para ele”, destaca o profissional.

Segundo Rodrigo, ciúmes não se torna problema em uma relação, o que interfere é o exagero dele. Também destaca que não existe um perfil. “Não há um padrão, o agressor pode ter qualquer idade ou estar em qualquer fase do relacionamento”, diz. No entanto, o psicólogo destaca que, quanto mais a demora para colocar um fim nessa relação, a mulher acaba não conseguindo se desvencilhar da situação. “Ela se colocou em uma situação que não vê outra saída, porque isso foi inserido no ambiente que ela vive. É tão prejudicial que muitas vezes ela não tem perspectiva de mudança e permanece nesse relacionamento até que aconteça algo muito mais sério, como agressões físicas, psicológicas e até a morte”, finaliza.

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