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Com policiais ‘cigarreiros’ presos, Federal realiza maior apreensão de cigarros de MS em 9 anos

PF apreendeu 11 carretas de cigarros, com prejuízo de R$ 33 milhões para contrabandistas

Exatamente um mês após uma operação desmantelar parte da ‘Máfia dos Cigarreiros’, em 16 de maio, continuam as apreensões que revelam a dimensão do esquema criminoso operando em Mato Grosso do Sul. Nesta sexta-feira (15), a Polícia Federal apreendeu 11 carretas carregadas com cigarros contrabandeados do Paraguai em Ivinhema, a 288 quilômetros de Campo Grande.

É a maior apreensão em volume dos últimos 9 anos. Segundo a Polícia Federal, a estimativa é que a apreensão tenha provocado prejuízo de aproximadamente R$ 33 milhões para os contrabandistas.

As carretas foram aprendidas na área urbana da cidade. Nove pessoas, sendo todos motoristas, foram presas. Dois conseguiram escapar.

O comboio com as 11 carretas escoltadas por viaturas da PF chegou em Naviraí por volta das 18h15m e seguiu direto para a Delegacia da Polícia Federal.

Esta é a segunda maior apreensão de cigarros feita pela Policia Federal de Naviraí. A primeira foi em agosto de 2009, quando a PF de Naviraí apreendeu 15 carretas que transportavam caixas de cigarros, em uma rodovia do município de Bataguassu. A apreensão de 2009 foi a maior do país.

Desde que 21 policiais militares de Mato Grosso do Sul foram presos em 16 de maio, suspeitos de integrarem a chamada ‘Mafia dos Cigarreiros’, aumentaram as apreensões em todas as regiões de MS. O golpe que desmantelou a suposta quadrilha foi desferido pela própria Corregedoria da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), do MP-MS.

Não é de hoje que esquemas criminosos exploram a fronteira e oferecem atrativos ganhos ilícitos para policiais em Mato Grosso do Sul.

Café, açúcar, soja, e drogas…

Nos anos 80 era o descaminho de açúcar, soja e café. Desde os anos 90 é o narcotráfico e, na última década, ganhou força o contrabando de cigarros produzidos no Paraguai. Eles são vendidos muito barato no Brasil porque entram sem pagar a pesada carga tributária do setor.

Para entrar pelo Paraguai, ou pela Bolívia, e chegar aos maiores centros consumidores, como Rio, São Paulo e Minas Gerais, ou seguir em rotas internacionais, os produtos precisam passar pelo território de Mato Grosso do Sul. E aí é que entra a corrupção policial.

Propina milionária

Segundo policiais que atuaram na PRE (Polícia Rodoviária Estadual) e foram ‘removidos’, conforme afirmam, em represália por não entrarem no esquema, por mês os ganhos dos ‘grupos’ que atendem ao contrabando de cigarro atingem cifras milionárias.

“Tem guarnição que levava 30 mil por mês para garantir um túnel quando estava de plantão, e um chefão uma vez cobrou R$ 300 mil para assegurar um comboio”, revela. O ‘tunel’ ao qual o policial se refere é como chamam a rota livre aberta para os produtos ilícitos por uma rede de estradas e rodovias estaduais.

Em abril, a Polícia Federal já havia deflagrado uma operação contra o contrabando de cigarros. A ação foi batizada de “Homônimo”, e atingiu São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo. Em Mato Grosso do Sul foram cumpridos mandados em Naviraí e Iguatemi.

Na época, foram 35 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária, 45 mandados de busca e apreensão e 32 de bloqueios de bens. A investigação teve início em agosto de 2017, e apontou que a quadrilha sonegava mais de R$ 14 milhões em impostos e faturava R$ 2 milhões com a venda da mercadoria ilegal.

‘Máfia do Cigarro’ e policiais ‘cigarreiros’

Corregedoria ‘cortou na própria carne’: 21 PMs presos (Foto: Marcos Ermínio)

Com o tamanho do lucro, a rota nunca foi abandonada. Em fevereiro deste ano, a PRF (Polícia Rodoviária Federal) apreendeu carga com 700 mil maços de cigarros contrabandeados em Coxim, a 260 quilômetros de Campo Grande. A carga foi avaliada em R$ 3,5 milhões. O motorista informou que pegou o carregamento no Paraguai e levaria para a cidade de Goiânia (GO), onde receberia o pagamento pelo transporte.

Em dezembro de 2017 no Estado, sete policiais militares foram presos por envolvimento na chamada “Máfia do Cigarro”. O esquema envolvia suposta cobrança de propina por policiais de Mato Grosso do Sul para permitir a ação contrabandistas de cigarros. Na data, o grupo era suspeito da cobrança de R$ 150 mil para a “liberação” de um caminhão com carga de cigarros contrabandeados do Paraguai.

O esquema acabou consolidando um grupo que envolveria ainda mais policiais conhecidos dentro da corporação como ‘cigarreiros’. O nome da operação, inclusive, é uma alusão ao ‘bicho-cigarreiro’, que usa bitucas para construir cestos.

Ameaças e transferências

“São rotas conhecidas que o pessoal usa, e todos na Polícia sabem quais são os postos estratégicos. Por último, tinha equipe atuando até como batedor para alguns carregamentos até deixarem a divisa de MS com outros estados”, conta o policial.

Segundo ele, ir contra o esquema é quase impossível. “Eu fiz uma apreensão de uma carreta com cigarro, e fui advertido. Me disseram para não mexer mais com os caras, senão nunca mais seria promovido”, revela.

Com mais de 20 anos de carreira, poucos meses depois, ele foi removido e teve de se submeter a uma escala que alguns policiais consideram menos vantajosa. “Foi a melhor coisa, porque estou fazendo meu trabalho sem ter de compactuar com o que não concordo”, explica mostrando os diários oficiais que registram o episódio.

‘Não é cortar na própria carne’

Mas, não é só quem enfrentou no cotidiano a fúria da chamada Máfia dos Cigarreiros que comemora. Uma oficial com 15 anos de PM resumiu para a reportagem o sentimento da maioria. “A primeira reação da gente é de tristeza. Ver colegas sucumbindo à corrupção expõe a todos e nem todo mundo sabe separar as laranjas podres do cesto todo”, diz.

“Mas, é bom a Polícia Militar de MS assumir essa posição firme. Eu nem digo que é cortar na própria carne, porque não considero estes militares como parte da família policial. Então, temos de extirpar quem não nasceu para ser polícia de nosso meio”, completa a graduada.

BMW de R$ 200 mil

Tenente-Coronel que chefiava a PM em Jardim e foi preso suspeito de integrar a ‘Máfia dos Cigarreiros’: “Oficiais implicados pela primeira vez” (Foto: Henrique Kawaminami)

Em Campo Grande, um tenente-coronel diz que a Operação Oiketikus é um alerta para todo mundo que aceita o desafio de usar a farda. “Para o policial de verdade, que vive só de seu soldo, é revoltante ver uns caras desses comprando fazendas e andando de BMW de R$ 200 mil”, conta.

“Eu tenho salário de tenente-coronel e sou consciente de que ganho bem comparado com a maioria da população. Mas, mesmo assim, sei que não poderia manter o padrão de vida que esses caras mantêm”, analisa.

Já entre os praças, mais motivo para comemorar. “Os praças estão tristes por ver o nome da gloriosa Polícia Militar atingido, mas felizes porque, desta vez, a Corregedoria colocou os graduados implicados também na ‘roda’. Não caíram só os mais fracos do esquema, como cabo, soldado ou sargento”, pondera.

“E, se forem a fundo nas investigações agora com as provas que obtiveram em celulares, documentos e computadores, ainda tem mais gente graúda para cair. Mas, já é um bom começo. Desta vez, eu falo que a Corregedoria está de parabéns”, diz.

21 policiais afastados

Todos os 21 policiais foram afastados e substituídos. De acordo com Comando Geral da Polícia Militar, as denúncias já eram investigadas pelas corregedorias da Polícia Militar, Civil e Federal. Concluídas, as investigações serão enviadas para o Ministério Público Estadual, Auditoria Militar Estadual ou Ministério Público Federal.

Foram presos durante a operação Admilson Cristaldo Barbosa, Luciano Espíndola da Silva, Ricardo Campos Figueiredo, Anderson Gonçalves de Souza, Angelucio Recaldi Paniagua, Aparecido Cristiano Fialho, Claudomiro de Goez Souza, Clayton de Azevedo, Elvio Barbosa Romeiro, Ivan da Silva, Van Edemilson Cabanhe, Jhondenei Aguilera, Lisberto Sevastião de Lima, Marcelo de Souza Lopes, Nazario da Silva, Nestor Bogado Filho, Nilson Procedônio Espíndola, Roni Lima Rios e Valdson Gomes de Pinho.

Vale lembrar que todos são, por enquanto, apenas investigados. Alguns casos possuem bastante indícios de envolvimento, e haveria situações de flagrante enriquecimento ilícito, mas o rumo das suspeitas ainda depende do trabalho investigativo que está sendo realizado pela Corregedoria e pelo Gaeco.

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