‘Ódio organizado’: Facebook remove campanha eleitoral de Trump com símbolo nazista

Republicano se apropriou do "triângulo invertido" nazista, usado para identificar prisioneiros políticos em campos de concentração durante o Holocausto

O Facebook removeu uma publicação da campanha de reeleição do presidente americano, , nessa quinta-feira, por entender que o uso do símbolo nazista conhecido como “triângulo invertido” viola a sua “política contra o ódio organizado”.

O movimento vem em um momento em que a rede social está cada vez mais pressionadas por líderes dos Direitos Civis, políticos democratas e os funcionários do próprio Facebook a adotar uma abordagem mais enérgica contra a retórica de ódio que o presidente americano espalha nas plataformas digitais.

A publicação removida trazia a imagem de um triângulo invertido com uma borda preta, acompanhada da mensagem: “manifestantes perigosos de grupos da extrema-esquerda estão correndo por nossas ruas e causando caos. Eles estão DESTRUINDO nossas cidades e se rebelando – é uma loucura absoluta. Por favor, assine IMEDIATAMENTE para apoiar seu presidente e sua decisão de declarar a ANTIFA uma organização criminosa”.

O triângulo invertido foi usado pelos nazistas, na Europa, para identificar prisioneiros políticos em campos de concentração durante o Holocausto.

A organização judia Bend the Arc, criticou o presidente, na esteira do ocorrido: “O presidente dos Estados Unidos está fazendo campanha para a reeleição usando um símbolo de campos de concentração… Trump e o Partido Republicano (de direita) estão usando [o triângulo invertido] para difamar milhões de manifestantes. Suas máscaras caíram”.

A campanha do presidente americano vem emitindo informações falsas com o termo “antifa” (anti-fascistas), que se refere a redes dispersas de ativistas da esquerda que se opõem ao fascismo e ao nacionalismo branco. Não há evidências de que as organizações antifa estejam, de fato, por trás das manifestações contra o racismo da polícia americana, após a morte de George Floyd, homem negro que morreu nas mãos de um policial branco de Minneapolis que o asfixiou.

Moderação

Essa não é a primeira vez que o Facebook removeu conteúdo polêmico divulgado pela campanha do republicano. Em 2018, a empresa bloqueou uma propaganda que julgou “racista e xenofóbica” sobre caravanas de migrantes. De acordo com o Facebook, a publicação tinha “conteúdo sensacionalista”. A rede também se recusou a transmitir a propaganda “racista”.

Em março, o Facebook removeu uma série de anúncios enganosos da campanha de Trump sobre as preocupações de que elas interfeririam no censo do país. A publicação vinha com um link para uma pesquisa intitulada “Censo Distrital Congressional Oficial”, e foram postadas semanas antes do censo oficial do país, que foi feito, em parte, online. A rede afirmou que a decisão levou em conta a possibilidade de confusão na população.

Finalmente, em maio, o Twitter, que é controlado também pelo Facebook, apagou um post de Trump que incitava violência contra manifestantes do movimento negro, que se revoltaram com a morte de Floyd pela polícia americana.

No tuíte, Trump disse “…esses BANDIDOS estão desonrando a memória de George Floyd e não vou permitir que isso aconteça. Acabei de falar com o governador (de Minnesota), Tim Walz, e disse a ele que os Militares estão com ele até o fim. Qualquer dificuldade e assumiremos o controle mas, quando os saques começam, o tiroteio começa. Obrigado!”.

Casa Branca

No mês passado, Trump enviou uma mensagem polêmica às operadoras de redes sociais, afirmando, no próprio Twitter, que poderia “fechar” as empresas no país, acusando-as de “silenciarem” vozes conservadoras.
Membros do Partido Republicano, de Trump, “sentem que plataformas de mídias sociais silenciam totalmente vozes conservadoras. Vamos regular fortemente, ou fechá-las, antes que permitamos que isso aconteça. Vimos o que eles tentaram fazer, e falharam, em 2016. Não podemos permitir uma versão mais sofisticada daquilo”, tuitou o mandatário americano.
No último dia 28, Trump editou um decreto para regular as redes sociais no país que prevê a abertura de um debate para reformar a seção 230 da Lei de Decência na Comunicação, segundo a qual plataformas que hospedam conteúdos de terceiros não podem ser responsabilizadas por estes. Ela prevê, contudo, determinados tipos de moderação de conteúdo, como aqueles violentos, obscenos e assediadores.
Brasil 
O decreto de Trump pode inspirar o presidente brasileiro – seu aliado (sem partido) – a fazer o mesmo, uma vez em que investigações envolvendo disparo de fake news contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e políticos se aproxima de sua família e de seus apoiadores em Brasília.
Além disso, Bolsonaro também já foi censurado pelo Facebook, por disseminar notícias falsas sobre a cloroquina, cuja eficácia contra a covid não é comprovada.

Eleições

A atuação das empresas de tecnologia durante a campanha presidencial de 2016, nos Estados Unidos, foi amplamente discutida por autoridades do país. O dono da rede, , foi, inclusive, sabatinado por congressistas, por conta do escândalo envolvendo a companhia de consultoria política britânica Cambridge Analytica, que usou dados de milhões de usuários do Facebook no mundo todo para desenvolver estratégicas políticas suspeitas em processos eleitorais de vários países.

Em 4 de abril de 2018 – ano em que Bolsonaro venceu a disputa eleitoral -, o Facebook anunciou que as contas de pelo menos 87 milhões de pessoas foram atingidas em 10 países, e, segundo estimativas da empresa, os dados pessoais de 4,5 milhões de brasileiros foram usados sem consentimento prévio. Só nos EUA foram atingidas mais de 70 milhões de pessoas.

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