Desfile de Herchcovitch no Masp vira caso de polícia por questões trabalhistas

O que era para ser um dos desfiles mais importantes do ano para a moda brasileira virou caso de polícia e o estopim de uma discussão sussurrada havia tempo nos bastidores da indústria.

Fiscais do Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo) tentaram entrar no camarim da apresentação da grife À La Garçonne, no Masp, nesta segunda-feira (13), para cobrar de seus representantes, o empresário Fábio Souza e o estilista Alexandre Herchcovitch, explicações sobre a situação contratual dos modelos escalados.

Impedidos pela produção do evento e do Masp de entrarem nas dependências do museu, chamaram a polícia no final do desfile para averiguar os contratos dos modelos.

Até o meio-dia, duas policiais, uma advogada do Masp, o presidente do Sated e a advogada da entidade permaneciam no museu.

Após uma denúncia feita por agências de modelos paulistanas de que a marca havia contratado jovens do interior paulista sem registro profissional (DRT), com o intuito de burlar os valores cobrados na capital, o Sated contatou o Masp que, por sua vez, pediu para a entidade procurar a produção do evento.

Após enviar uma solicitação de checagem dos contratos para a produção e não receberem resposta, o sindicato resolveu ir ao evento cobrar documentos e explicações.

De acordo com a assessora jurídica da entidade, Marta Macruz, a marca se aproveitou “do sonho ingênuo de pessoas em vir para a cidade com a promessa de se tornar celebridade oferecendo serviços de graça ou sem remuneração adequada”.

O estilista Alexandre Herchcovitch não quis comentar. Antes da confusão, disse à reportagem que convocar não modelos é praxe em sua marca.

A advogada da grife, Bruna Lins, disse à reportagem que não há infração por parte da marca porque os modelos receberam pagamento e as “pessoas não modelos não exercem a profissão e foram convidadas”.

“Não há lei que impeça pessoas que não são profissionais desfilarem sem receber”, diz Lins, que não soube e informar quantas pessoas foram chamadas sem receber.

Um boletim de ocorrência foi feito e o Sated planeja entrar com denúncia ao Ministério Público do Trabalho.

A reportagem apurou que vários dos 83 modelos do desfile foram chamados por seus perfis em redes sociais. Antes do desfile, uma assessora de imprensa da marca disse que a ideia da coleção era falar sobre filmes de terror e que o casting promovia a diversidade e, por isso, “muitos não são modelos”.
Após o imbróglio, a assessoria da marca entrou em contato e informou que todos os convidados irão receber e isso já estava estipulado nos contratos.

Até o início da tarde os contratos não haviam chegado às mãos do Sated.

Essa foi a primeira diligência da entidade em um evento de moda. Desde janeiro, quando o ator Dorberto Carvalho assumiu a presidência do Sated, a moda está na mira do sindicato, que vem ouvindo representantes das agências para entender a situação.

“Há um mercado de ilusões. Meninas que não podem bancar a subsistência são enganadas por marcas que não pagam pelo trabalho. As próprias mães estão sendo enganadas”, diz o presidente.
“O problema são as condições de trabalho dispensadas para isso. Onde está o contrato, onde está o DRT?  Aqui é uma questão séria porque não há nem cachê.”

Modelos são geralmente pagos em São Paulo de acordo com tabelas estipuladas informalmente pelas agências para a realização de desfiles. Os valores são divididos em A, B e C.

A mais barata, a C, custa R$ 800 mais 20% da taxa da agência, e é usada para pagar as chamadas “new faces” (novos rostos), que são os modelos em início de carreira.

Tanto nos desfiles de Alexandre Herchcovitch quanto nos da maior parte das marcas que desfilam na São Paulo Fashion Week, esses novos nomes são maioria na passarela.

Mais notícias