Polêmicas sobre fantasias de Carnaval: o que pode e o que não pode?

Cientista social comenta a respeito da festa brasileira mais popular e do comportamento dos foliões

Todos os anos os foliões que vão participar dos blocos de Carnaval passam por aquele dilema envolvendo o figurino que usarão nos dias de festa. “O que é fantasia? O que pode? O que não pode?” são os questionamentos na hora de elaborar o look pra evitar cair em polêmica.

Em rápida pesquisa na internet, é possível encontrar vários tópicos informando sobre ‘o que usar e o que não usar na folia’. Mas de acordo com a cientista social, Izabela Prado Ronda, a verdadeira pergunta que deve ser feita é: a fantasia está sendo usado para ridicularizar algo ou alguém?

“A fantasia está sendo usada como deboche, está desmerecendo, depreciando ou difamando pessoa, grupo ou sua cultura? Se a resposta for sim, então a fantasia está representando e replicando preconceitos que são estruturais […] isso está tão enraizado na cultura brasileira que molda a forma como o indivíduo e a sociedade percebem o mundo”, classificou a cientista ao Jornal Midiamax.

Izabela explica que o Carnaval, além de ser uma das principais festas brasileiras, é considerada uma festa democrática e o momento em que os foliões podem se libertar de qualquer tipo de imposição rotineira.

“É o momento de se ‘expressar livremente’, sem censura e assumir papéis diferentes daqueles vivenciados no dia a dia. A sátira social é ‘permitida’ durante o carnaval, tal qual uma licença para transgredir à ordem, a estrutura de poder estabelecida, uma libertação temporária de ser quem se é”, comentou.

A socióloga diz que nessa época é quando destacam-se as fantasias mais “clássicas” como homens vestidos de mulher, o índio, o cigano, a nega maluca, o homem bomba, a doméstica, a enfermeira sexy, a policial, a marinheira, entre tantas outras. Para ela, essa época do ano é considerada um momento em que tudo é permitido, mas as pessoas têm se ponderado justamente para evitar polêmica.

“O problema não é usar a fantasia para viver o oposto do cotidiano, o problema é usar fantasia para reafirmar o preconceito estrutural sobre questões de classe, gênero, raça, credo. O fato do carnaval ser uma manifestação cultural e ensejar a liberdade de expressão, não significa que questões éticas e morais deixem de ser importantes”, comentou.

Fantasia de índio? Homem de mulher?

Tema de polêmica disparado estão as fantasias de indígenas e homens fantasiando-se de mulher. Mas isso é errado? Para a cientista isso vai depender de como isso será representado.

Por exemplo: se o folião representar o poder e a importância da mulher na sociedade brasileira, ele estará contribuindo para reforçar a igualdade de gênero e, de acordo com Izabela, ele não estará errado. Mas se o cenário for outro, a história pode mudar.

“Se ao invés de uma mulher forte e batalhadora, o homem se fantasiar de mulher como objeto sexual e, de forma pejorativa, usar roupas curtas, justas e salto alto, então ele estará reforçando um estereótipo, contribuindo para reafirmar o machismo, já bastante manifesto na sociedade brasileira. O mesmo vale para a questão da apropriação cultural”, disse.

Neste caso, não podemos deixar de citar o caso da atriz Alessandra Negrini, madrinha do Baixo Augusta, em São Paulo, que puxou um bloco vestida de indígena. Não demorou muito para que a internet surtasse.

De um lado, apoiadores, afirmando que a fantasia era mirada no sentido político (vale lembrar que Negrini entrou de mãos dadas com lideranças indígenas e foi defendida após a polêmica). Do outro, a galera do “não precisava se vestir de índia para apoiar a causa”.

A cientista social classifica que a riqueza histórica dos povos vão além de qualquer adereço. “Devemos lembrar que dificilmente uma fantasia de carnaval represente de forma minimamente justa e respeitosa a memória e a cultura de um povo. O que está por trás das fantasias não é o simples uso de determinados adereços ou símbolos que remetam a esse ou aquele indivíduo, mas sim a estrutura de poder que subjuga os povos e suas culturas por milênios”, finaliza.

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