Separados pelo coronavírus, casais contam como estão lidando com a distância do isolamento social

De repente, com a pandemia do coronavírus, muitos relacionamentos foram forçados a se tornar à distância

Maio de 2020 e uma pandemia assola o mundo fazendo incontáveis vidas terminarem em questões de dias. Amar, ironicamente, passou a significar estar longe, ficar em casa e ter o mínimo de contato possível. Muitos casais tiveram de se separar e de se reinventar para manter acesa a chama do amor.

O namoro a distância é um grande desafio para o casal que escolhe essa opção. Saber lidar com os obstáculos do namoro online é um desafio, mas a situação é diferente quando acontece não por uma escolha mútua, mas sim, por segurança e proteção.

Segundo a Gestalt terapeuta Regina Aparecida Câmara, o isolamento pode proporcionar que tenhamos contato com nós mesmos. As pessoas estão sendo obrigadas a se afastarem de seus parceiros. Relacionamentos saudáveis são aqueles onde existe a manutenção da identidade da cada um dos eu atores e um movimento tranquilo com fronteiras permeáveis.

“A forma como o distanciamento vai afetar um relacionamento é baseada em como a relação foi construída. A distância promove o olhar para o outro. Muitas vezes as pessoas chegam a decisões que já existiam em forma embrionária para rever, refletir ou discutir. O distanciamento não é ruim. A questão é a maneira como se olhar para essa situação”, explica a terapeuta.

A tecnologia e a criatividade são as principais ferramentas para diminuir os potenciais impactos da distância na dinâmica dos casais e no elo entre os parceiros. O distanciamento pode tanto decisões sobre a relação quanto trazer bons frutos à relação, como independência emocional ou maior abertura.

Amor à distância

O casal de estudantes Rachel Serafini e Matheus Carneiro já eram amigos e começaram a se relacionar em novembro de 2019. A conexão foi tão certa que em janeiro já começaram a namorar e passar grande parte do tempo juntos.

Há 42 dias, Rachel deixou Campo Grande, onde estuda, e foi para a casa dos pais em Limeira – SP, 900 km distante. Pela rotina totalmente diferente, a falta do namorado, que vivia a todo momento ao lado, está sendo sentida.

“Está sendo bem difícil essa quarentena e ficar longe dele. A gente sente muita saudade. Nós nos ligamos muito, seja por áudio ou por vídeo. Às vezes acabamos brigando por coisas bobas, mas é por saudades mesmo. E mesmo assim é difícil de ficar sem ver ele”, conta a estudante.

Juntos mas separados: como casais estão lidando com a distância do isolamento social
Rachel e Matheus estão há 42 dias sem se ver e namoram faz 4 meses (Arquivo Pessoal)

“Por incrível que pareça essa quarentena nos proporcionou sermos mais comunicativos um com o outro. Ela nunca teve essa dificuldade, sempre foi bem comunicativa. Eu que era muito caladão”, relata Matheus sobre um lado bom do relacionamento à distância: mais comunicação.

Caso a pandemia não termine até o fim do semestre, os dois planejam se encontrar assim que o pico dos casos de coronavírus passe. O plano, é esperar a semana de home office de Matheus no trabalho para encontrar a namorada na cidade dela, dentro dos padrões de segurança.

Perto mas longe

Já a jornalista Monique Faria e o advogado Pedro Henrique Oliveira vivem a situação contrária. Os dois estão em Campo Grande e passam a quarentena com suas famílias desde o início do isolamento social. Mesmo morando perto, não se encontraram nenhuma vez.

O casal, juntos há 1 anos e 4 meses, nunca tinha passado tanto tempo separados. Até o aniversário de Pedro foi à distância, com direito a delivery de donuts personalizados em nome da amada. Os dois matam a saudade aos poucos com ligações de vídeo ou chamadas.

Juntos mas separados: como casais estão lidando com a distância do isolamento social
Monique enviou donuts personalizados para comemorar o aniversário do namorado, Pedro (Arquivo Pessoal)

“Tentamos nos comunicar durante o dia por whats, mandar fotos do que estamos fazendo, filmes que estamos assistindo, para sentir que estamos fazendo parte da rotina um do outro”, conta Monique.

“Às vezes bate a vontade (de nos encontrarmos) por estarmos perto mas nos mantemos firmes para a nossa segurança e da nossa família. Mas, pra gente voltar a rotina e conseguir fazer tudo que fazíamos antes, a saúde precisa estar em dia!”, ressalta a jornalista.

Saudade vai, saudade vem

A saudades é uma das principais queixas do casal de estudantes Amanda de Oliveira Zeferino e Luiz Fernando Maibashi. A incerteza e angústia de não saber quando vão se ver e quando a vão conseguir voltar para a rotina também são constantes.

“Esse afastamento obrigatório, ficar longe nessas condições que é muito diferente do que a gente tava acostumado, ainda mais com a frequência que a gente se via… Ter só uma opção que é ficar afastado é o mais difícil pra mim”, conta Amanda.

Juntos mas separados: como casais estão lidando com a distância do isolamento social
Luiz e Amanda estão em quarentena em duas cidades de SP e a saudade é grande (Arquivo Pessoal)

Os dois se encontravam bastante por estudarem na mesma universidade, quase todo dia, mas agora nem sabe quando vão se ver de novo. Os dois estão no estado de São Paulo, onde a situação de transporte é mais crítica nas rodoviárias, maioria fechadas.

“Nos vimos uma vez desde março pq consegui pegar uma carona com uma amiga que estava viajando e passava pela cidade dele, mas foi só dessa vez. Desde de então a gente só se fala por mensagem e ligação de vídeo esperando qnd vai dar pra se ver pessoalmente”, relembra.

A antropóloga Carla Souza e o publicitário Pedro Bastos se encontraram no último fim de semana. Segundo ela, foi uma decisão conjunta dos dois e todos os cuidados de higiene e precaução foram tomados. Os dois tinham combinado tranquilamente de ficarem à distância o máximo possível.

“Viver esse tempo separado não foi tão ruim quanto parecia. Estamos ambos saudáveis, nosso relacionamento está estável, e viver um pouco da rotina diária, ainda que por ajuda de aplicativos, auxilia. A gente continua presente, e se importando um com o outro. Parece otimismo, mas até que minha experiência não foi tão traumática quanto eu esperava”, frisa Carla.

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