Usar filhos para atingir a ex é comum entre homens, explica promotora após morte de bebê

Caso de bebê afogado pelo pai no Guanandi é exemplo extremo de violência psicológica

A morte de Miguel Henrique dos Reis, de 2 anos, afogado numa bacia pelo pai, Evaldo Christyan Dias Zenteno, de 21 anos, causou comoção e indignação em Mato Grosso do Sul. O gesto de violência contra um bebê para ‘atingir a mãe’ revoltou todos, mas é um exemplo extremo do comportamento comum para alguns homens no fim de um relacionamento: violência psicológica contra a ex companheira ferindo outras pessoas.

O crime não é um fato isolado, já que recentemente outras duas crianças foram mortas pelos progenitores na tentativa de agredir as ex mulheres, no país. Matheus Gabriel Kuasne Oliveira, de 9 anos, morreu depois que o pai, Antônio Alves, de 45 anos, jogou o veículo em que estavam contra uma carreta na PR-445, em Londrina, no norte do Paraná, na sexta-feira (13). O homem chegou chegou a obrigar o filho a gravar um vídeo de despedida para a mãe antes de provocar o acidente.

E no último domingo (15), Thayla Cristina Ferreira, 1 ano, foi encontrada morta em um lago, no Macapá, Amapá. Ela foi morta afogada pelo pai, Messias Machado Barbosa, 29 anos, que confessou o crime e disse ter matado a filha por não aceitar o fim do relacionamento com a mãe da criança.

A Promotora de Justiça do MPMS (Ministério Público do Mato Grosso do Sul), doutora Ana Lara Camargo de Castro, explicou ao Jornal Midiamax, que o uso da violência psicológica é mais comum do que se pensa por homens que não aceitam o fim do relacionamento, mas não de forma extrema como os casos que resultaram em mortes de crianças.

Segundo ela, a forma mais usada é o manejo emocional da relação com os filhos colocando na mulher um sentimento de culpa em situação de violência. “Isso pode se dar tanto durante a relação conjugal, evitando, assim, o registro da ocorrência, ou motivando pedidos de retratação, ou acarretando depoimentos arrependidos e de autorresponsabilização da vítima em juízo. ”, explica a promotora.

“E também pode se dar com a relação finda, por ocasião das disputas de guarda e no exercício do direito de visitas, sendo corriqueira a imputação da alienação parental a mulheres que recém saíram de relacionamentos abusivos, quando elas tentam limitar ou impedir o acesso do agressor aos filhos em razão do percebido risco à integridade física e psíquica deles próprios” destaca.

‘Relações de poder’

Ana Lara explica que o desequilíbrio das relações de poder entre homens e mulheres gera percepções estereotipadas a respeito dos papéis do gênero na sociedade. “Quando falamos em sexo estamos nos referindo a corpo físico, à biologia. Quando falamos em gênero estamos nos referindo à maneira como a sociocultura percebe e se apropria dos corpos humanos, bem como dos diversos valores e características a eles atribuídos pelo conjunto social”.

“Nesse sentido, os estereótipos são vários em relação aos papéis de domesticidade e de fragilidade atrelados às mulheres. De igual sorte, os papéis de agressividade e dominação também são replicados aos homens. A sociedade, em certa medida, espera e reforça esses comportamentos”, diz Ana Lara.

‘Homem comum e o fim das relações’

A promotora, que também é autora de dois livros que tratam de violência contra a mulher no âmbito da Internet, ressalta que não existe um perfil especifico do possível agressor, que de forma geral, quase que a totalidade, são homens comuns que carregam o peso histórico da sociocultural, não conseguindo refletir sobre a própria masculinidade, reafirmando- a por meio do corpo e da sexualidade da mulher.

“As saídas viáveis que seriam o diálogo – com a aceitação ou não do retorno da convivência – ou a imediata ruptura são substituídas pelo uso da força bruta. Ademais, as formas de se pensar relacionamentos são muito herméticas, quanto mais no que toca às mulheres. Modelos mais flexíveis e menos possessivos de convivência são discriminados pela sociedade. Os términos de relações seguem adotando padrão traumático, vale dizer, sem resgate e respeito pela história construída pelo casal, apesar das falhas, das imperfeições, das dores”.

Ana Lara explica que se perde o olhar generoso das qualidades do outro, restando apenas a mágoa. “Há muita idealização, muita projeção de sentimentos e expectativas no outro. E quando o relacionamento se desfaz muitas pessoas parecem incapazes de lidar, por meio de defesas psíquicas maduras, com as próprias frustrações. O primitivo vem à tona. Outras formas de violência psicológica são muito comuns como a manipulação, humilhação, assédio, perseguição, exposição da intimidade, entre outros”, afirma.

‘Processo lento e coletivo’

Para a promotora, reverter o quadro de uso de violência em términos de relacionamento é um processo lento e precisa ser de forma coletiva. “Para além de eventual patologia psiquiátrica que, claro, pode acometer alguns dos agressores, estamos diante da doença social, do mal-estar de permitir a barbárie, ainda que tacitamente, por meio da tolerância ou da justificação de condutas inadmissíveis”, afirma.

“Não se pode escapar à educação, ao aprendizado de novas formas de viver o feminino e o masculino, em que as características humanas – como sensibilidade, autonomia, assertividade, excitabilidade, autoridade, empatia estejam distribuídas de forma mais proporcional entre homens e mulheres, destacando-se atributos individuais, sem tamanha interferência dos estereótipos impostos por tantos anos de cultura de desigualdade e discriminação de gênero”, conclui.

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