Na Capital a convite da JBS, Temple Grandin coloca-se como autista, mulher e pelo bem-estar animal

Zootecnista e psicóloga defendeu visibilidade de autistas, ponderou sobre monoculturas e defendeu consumo sustentável de carne

Mary Temple Grandin é uma zootecnista e psicóloga americana responsável por desenvolver técnicas de manejo de rebanhos conhecidas como “lidas gentis”, largamente adotadas em todo o mundo.  A lida gentil prevê que animais tenham mais qualidade de vida, alimentação adequada e períodos de descanso para amenizar o stress do transporte dos pastos até o abatedouro. Na pecuária, há várias formas de fazer o abate de um animal. Mas, nas técnicas desenvolvidas por ela, há um cuidado para que o boi sofra o menos possível.

Como consequência, além de ser uma técnica considerada, digamos assim, humanitária de abate, a qualidade da carne é superior. Durante o abate, diante da angústia e do sofrimento da morte, mamíferos liberam cargas de ácido lático, que é responsável pelo enrijecimento da musculatura. O mesmo ocorre com rebanhos. A lida gentil, portanto, evita que o acúmulo do ácido lático seja tão grande e, assim, a carne torna-se mais macia e suculenta.

Grandin durante palestra a funcionários da JBS | Foto: Guilherme Cavalcante | Midiamax

O que chama atenção é que o desenvolvimento das técnicas de lida gentil foram uma consequência da forma como Temple Grandin se relaciona com o mundo. Grandin é autista. E como tal, enxerga as coisas de forma diferente.

Grandin nasceu em Boston, nos EUA, em 1947. Na juventude, frequentou a fazenda de uma tia no estado do Arizona, onde conheceu o brete de contenção de bovinos, um equipamento que ajuda a conter animais antes do abate. Como autista, Grandin sofria de crises de pânico. E com base no brete, ela desenvolveu uma máquina que ajudava a acalmá-la durante tais episódios. O sucesso de seu equipamento foi resultado da percepção de que ela e os animais tinham muito em comum.

Ao longo dos anos, Grandin recorreu às suas habilidades para desenvolver a lida gentil. O método a tornou uma empresária bem-sucedida e uma das mais influentes do mundo, que desenvolve equipamentos e vende suas técnicas de manejo para frigoríficos nos quatro cantos do globo, inclusive no Brasil. Grandin é uma autista com “altas habilidades”, por assim dizer. Mas, foi preciso uma longa caminhada até chegar ao sucesso.

“Aos três anos eu ainda não falava. Quando desenvolvi a fala, minha cognição melhorou. Existem vários tipos de autistas no mundo, eu tenho percepção visual mais aguçada e isso fez toda a diferença. Há muitos autistas na ciência. Acredito que Thomas Edison, Albert Einstein e Steve Jobs eram autistas. Mas, da mesma forma que eles tinham altas habilidades, há aqueles que precisam de apoio pedagógico para esse desenvolvimento. Cada caso precisa ser avaliado separadamente”, apontou Grandin, durante coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira (26), em Campo Grande.

Sem cerimônias, Grandin simula aos presentes como reconhecer um animal aflito no pré-abate | Foto: Divulgação

Ela esteve na cidade como parte de uma extensa agenda de visitas às unidades da JBS. Aqui, conheceu e avaliou as instalações, palestrou para funcionários e atendeu a imprensa. Aos 72 anos, tem vigor físico invejável. Ela simula sem nenhuma cerimônia, no chão do auditório, como reconhecer se um animal na fase de abate está ou não em sofrimento.

“Entrei nesse ramo depois de superar o autismo, mas lembrem-se que estava num mundo rodeado por homens. Eu sou uma mulher e precisei enfrentar isso para ser ouvida. Não foi fácil, mas foi necessário”, comenta, antes de citar Greta Thunberg, a adolescente sueca que em defesa do meio ambiente confrontou líderes mundiais na última convenção da ONU (Organização das Nações Unidas). “Há muitas pessoas como nós e todas elas têm contribuições. O mundo precisa de todos os tipos de mentes”, pontuou.

A preocupação com a sustentabilidade também está presente no discurso de Grandin, que criticou monoculturas e defendeu a integração entre a pecuária e a agricultura no mesmo espaço. “Passei por uma estrada repleta de plantações de cana-de-açúcar. Isso pode dar certo por uns 20 anos, depois disso vai ser uma terra pobre. Temos que acordar a tempo para mudar isso”, considerou.

O crescimento do movimento veganista também também foi assunto e trouxe ponderações. “O consumo sustentável de carne é importantíssimo, mas se formos avaliar o veganismo numa estrutura industrial, também vamos ter danos ambientais. Lavouras de soja, que são usadas como fonte de proteína, causam os mesmos danos que a cana-de-açúcar. Acredito que precisa haver um equilíbrio”, destacou.

Os métodos e máquinas de Grandin são adotados em frigoríficos do mundo inteiro, inclusive no Brasil | Foto: Divulgação

Grandin tem uma cinebiografia famosa, estrelada pela atriz Claire Danes, que inclusive venceu um Globo de Ouro, em 2011, por sua atuação interpretando a zootecnista. A produção também foi vencedora de diversos prêmios Emmy, o Oscar da televisão (a cinebiografia foi feita em formato de telefilme, com exibição exclusiva na TV americana). Normal que uma vida grandiosa inspire produções de entretenimento igualmente grandiosas.

No fim da coletiva, enquanto muitos tietavam por uma fotografia, um repórter pergunta o que Grandin achou de Claire Danes ter sido escalada para interpretá-la. “Fenomenal. Ela fez um excelente trabalho”, concluiu.

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