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Bala perdida mudou para sempre vida de pintor que agora trabalha em cadeira de rodas

Maior dificuldade em conseguir serviço nasce da falta de confiança na qualidades da mão de obra

O que era para ser uma noite divertida de domingo, em abril de 2009, acabou virando um renascimento na história de Magno Ferreira Ribeiro, de 36 anos. Durante passeio em uma conveniência com a namorada, o pintor foi atingido por uma bala perdida e acabou perdendo os movimentos das pernas.

A vontade de viver reapareceu somente 3 anos após o acidente quando, aos poucos, Magno voltou à profissão que aprendeu desde pequeno com o pai, a pintura. Munido de rolo e galão de tinta, a nova aliada – a cadeira de rodas, acabou se tornando uma barreira na hora de conseguir serviços.

Partindo do preconceito e a falta de confiança na qualidade da mão-de-obra, até hoje o pintor precisa contar com o antigo “boca a boca” para capturar novos clientes. É através das dificuldades de locomoção que Magno busca as forças para se superar a cada dia e mostrar o profissional competente que se tornou com os ensinamentos do pai.

Mesmo sob o sol quente de Campo Grande, o pintor não cruza os braços e garante não fugir de serviço, independente se a pintura é em área interna ou externa dos imóveis.

A primeira ocupação veio quando Magno ainda era jovem, aos 12 anos. O garoto de família humilde aprendeu a vender gelinho e engraxar sapatos para ajudar nas contas de casa, mas foi somente aos 17 anos que foi ensinado pelo pai a pintar paredes.

A rotina era dividida entre trabalho e estudos. “Conclui meu segundo grau. Trabalhava de dia e estudava de noite”, conta orgulhoso.

O tempo foi passando e, com 26 anos, o jovem morava sozinho e tinha uma namorada. Em um domingo normal, Magno almoçou na casa da mãe, jogou futebol a tarde com os colegas de trabalho e, a noite, decidiu ir até uma conveniência com a namorada.

“Não bebo, mas fomos lá passear. De repente teve um briga e um cara pegou uma arma e atirou para todos os lados. Eu, que não tinha nada a ver com a história, tentei fugir e fui atingido por uma bala perdida nas costas.”

Foram cerca de 3 meses entre idas e vindas à Santa Casa até que ele ficasse pronto para recomeçar. E agora não somente com dois pés, mas com 2 rodas. “Foi difícil, complicado, tive que me readaptar. Somente 3 anos depois que uma pessoa me deu a chance de voltar ao trabalho.”

A pessoa em questão é um velho conhecido chamado Roni Marinho. Com os olhos marejados, o cadeirante fala de gratidão e amor à profissão ao lembrar do amigo “patrão”. “Ele quem me deu a oportunidade de voltar,” comemora.

Os serviços de pintor não são o suficiente para sustentar, 10 anos após o episódio, as contas da família. Perguntas em torno das capacidades, qualidades e formas de praticar os serviços ainda assombram aqueles que seriam possíveis clientes.

“As pessoas perguntam como eu pinto lá no alto. É simples, eu contrato alguém da minha confiança para ajudar. Sempre prezando pela qualidade. Demoro um pouco mais que os convencionais pintores, mas supero na entrega.”

Os acidentes são raros e, de acordo com o Magno, acontecem com as mesmas frequências que uma pessoa sem dificuldades de locomoção. As limitações físicas nunca foram motivos para o pintor deixar de acreditar em uma trajetória saudável e feliz. Além disso, Magno enfatiza que o mais importante hoje é estar vivo.

“A maior lição que ficou é que a vida continua e hoje minha vontade é só viver bem. Tenho um carro adaptado, uma esposa batalhadora como eu e posso dizer que hoje sou feliz cadeirante.”

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