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Pela ciência, programa vai permitir que pessoas doem corpo após morte

Programa deve ser lançado ainda em 2018

Já diz o sábio ensinamento popular, a morte é a única certeza da vida. Cercada de mistérios, tudo que esbarra ‘nela’ é considerado tabu, dentre eles, a destinação dos corpos sem vida: o único caminho aceitável para eles é um mausoléu, seguido por homenagens fúnebres.

Só que isso pode mudar em breve no Estado. A fim de contornar a falta de cadáveres nas aulas de anatomia da universidade, a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) está no processo de instituir um programa de doação de corpos, no qual qualquer um poderá destinar o próprio corpo para fins científicos. Após a morte, claro.

Quem está à frente do projeto é a professora doutora Jussara Peixoto Ennes, do Departamento de Anatomia da UFMS, onde ela atua desde 1992. Ela explica que a instituição do programa vai garantir contornar um déficit educacional decorrente da falta de cadáveres nas aulas de anatomia da universidade.

A professora Jussara Peixoto Ennes está à frente do programa de doação de corpos da UFMS (Foto - Guilherme Cavalcante/Midiamax)

 

“Há doze anos começamos a ter uma crise impactante no setor. Não foi exclusiva de Campo grande ou de Mato Grosso do Sul, foi uma crise nacional, na qual os corpos não reclamados, que deveriam ser encaminhados por lei para as universidades, começaram a rarear a ponto de não acontecer mais, no pais inteiro”, relata a docente.

Ennes destaca que, para contornar a situação, diversas universidades brasileiras começaram a se organizar, pedindo na Justiça o cumprimento da lei. No entanto, outras instituições seguiram o modelo praticado nos Estados Unidos – programas de doações de corpos – criados diante de crise semelhantes.

“Seja feita a vossa vontade”

Com previsão de entrar em vigor ainda em 2018, a proposta do programa da UFMS é que qualquer pessoa tenha, a partir do programa, a garantia legal de que a vontade de doar o próprio corpo será respeitada. “Para isso é preciso um programa institucional sólido, no qual todas as questões legais estejam previstas, desde preenchimento de formulários, testemunhas, firmas reconhecidas, etc.”, destaca a professora. A expectativa é que as aulas de anatomia e, consequentemente, a qualidade da formação profissional, sejam melhoradas.

Bernadete tem intenção de doar seu corpo (Reprodução)“O cenário que tivemos nos lugares que implantaram programas é que as universidades conseguiram número suficiente de cadáveres para dar continuidade as aulas, a ponto da carga horária das aulas de anatomia clássica ser recuperada e os corpos sem vida retomarem o protagonismo diante das peças artificiais”, destaca.

Mas, quem seria capaz de enfrentar um dos principais tabus da sociedade a fim de contribuir com a ciência. Segundo Ennes, já houve quem procurasse a universidade tão logo soube que o programa passa por essa estruturação. Como a professora e musicoterapeuta Maria Bernadete Silva, entusiasta da ideia.

“Eu já não gostava dessa ideia de ter que pagar mensalidade para cemitério. A gente morre a continua dando despesa. Mas, há uns oito anos fui a um velório da mãe de uma amiga, no Rio Grande do Sul, e fui informada de que seria rápido, porque ela tinha doado o corpo para a universidade. Eu achei aquilo sensacional, a possibilidade de mesmo depois de morta, meu corpo ainda servir para alguma coisa”, conta Bernadete.

A partir daí, a professora passou a amadurecer a ideia junto à família – com o tempo, os filhos e esposo aceitaram a ideia de respeitar a vontade póstuma de Bernadete. “Acho super positivo que eu possa contribuir com a formação de profissionais da saúde depois de morta. Agora que conquistei o apoio da família, vou seguir em frente”, aponta.

Homenagens e gratidão

O caminho de um corpo doado segue os seguintes passos: o velório acontece em prazo mais curto e, no lugar de enterro ou cremação, o corpo é encaminhado à universidade, onde será preparado para evitar a decomposição. Uma vez formolizado, ele estará pronto para servir às aulas.

“Nenhum aluno saberá a identidade do corpo. As pessoas de fora não poderão visitar. Teremos todo cuidado em dar dignidade e privacidade ao corpo doado. E, anualmente, realizamos uma missa em homenagem a essas pessoas, que deixaram seu maior legado – que é o corpo – à disposição da pesquisa científica”, aponta Ennes.

Museu dispõe de peças raras, como este feto de gêmeos siameses (Foto - Guilherme Cavalcante/Midiamax)

 

Outra pergunta comum é a destinação dos corpos que, após o manuseio, vão se deteriorando. “Anteriormente elas eram sepultadas. Porém, atualmente, elas precisam de destinação sanitária mais eficiente. Então uma empresa recolhe e faz incineração”, acrescenta.

Juntamente ao programa, a professora Jussara Peixoto Ennes já tem projeto cadastrado no qual buscará entender o que motiva os voluntários do programa a doarem seus corpos. “Basicamente, temos a percepção de que a pessoa doa o corpo porque se sente motivada a contribuir com a ciência. Mas ela precisa enfrentar algumas barreiras sociais, resistência da família, até assinar os papeis. Também queremos entender isso”, explica.

Museu de Anatomia

Valfrido Santos (Acervo Profa. Ennes)

Se o corpo doado é o maior legado e riqueza para os estudos de anatomia, a UFMS guarda algumas “relíquias” que, desde 2009, compõem o acervo de um museu na universidade. Iniciativa da professora Jussara Peixoto Ennes, a criação do museu ocorreu com a proposta de promover a conservação e exposição de peças feitas com maestria por um técnico aposentado da universidade, Valfrido dos Santos.

“O Valfrido tem uma técnica extremamente diferenciada e ele ia se aposentar, deixando peças maravilhosas do ponto de vista científico. Ficamos preocupadíssimos, porque estávamos com poucos cadáveres e as peças estavam começando a se deteriorar, devido ao intenso manuseio. Além disso, aumentou o número de alunos e o acervo era o mesmo. Então, pensei que precisávamos perenizar o trabalho e o nome do Valfrido”, conta Ennes.

Crânio do museu carrega assinatura do ex-servidor (Guilherme Cavalcante/Midiamax)

 

O nome não foi possível, já que pessoas vivas não podem dar nome a museus, de acordo com a legislação brasileira. Porém, a ideia saiu do papel e as peças de Walfrido ganharam status de obra de arte, digamos assim. Inicialmente, as peças ficavam expostas em uma pequena sala no corredor, quase privativa. Mas, em 2011, após ganhar um edital do MEC, o acervo e o espaço foram qualificados. “Consegui comprar até equipamento para a técnica de plastinação, vamos ter uma sala específica para isso”, destaca a docente.

Acervo está em exposição (GC/Midiamax)

As visitas ao acervo são gratuitas e abertas ao público e requerem apenas agendamento prévio, e podem contar até com um guia. Além disso, o departamento tem utilizado o acervo também para mostras temáticas expandidas, a fim de divulgar os estudos de anatomia. “Ano passado recebemos mais de 500 crianças. E de forma geral, temos entendimento de que esse museu proporciona não só engrandecimento dos estudos na área de saúde, mas também nas artes plásticas. Tem sido experiências extremamente proveitosas”, conclui a docente.

SERVIÇO – O Museu de Anatomia da UFMS fica nas dependências do Laboratório de Anatomia da universidade, localizado ao lado do Lago do Amor (Acesso pela segunda rotatória da Avenida Senador Filinto Müller). Funciona de segunda à sexta-feira, das 7h às 11h e das 13h às 17h. É necessário fazer agendamento prévio, pelo telefone (67) 3345-3532. A entrada é gratuita.