‘Há um mês sem cigarro, ninguém me alertou para 11 verdades sobre parar de fumar’

Repórter do Midiamax compartilha primeiras impressões da luta contra o cigarro

 

Basicamente, estou há pouco mais de 30 dias sem cigarro, produto que comecei a consumir aos 16, escondido, após ver meu irmão, mãe, pai e tios fumarem. A coisa piorou na faculdade. Até tentei dar um tempo, mas acabei voltando com tudo depois de formado. O cigarro claramente me dava uma paz de espírito, ou uma ilusão disso.

Mas, o fato é que aos 31, sem fôlego nem pra ir na esquina, levei uns puxões de orelha recentemente, de médico e de amigos, e decidi tentar, mais uma vez, parar de fumar. Traguei meu último cigarro às 23h30 da noite de uma quarta-feira, dia 21 de setembro. A partir daí, passei por uma verdadeira saga e todo dia é uma vitória, que gosto de compartilhar com meus chegados.

Entretanto, nesses 30 dias pensei muito sobre esse assunto e nos últimos dias muita coisa ficou mais clara para mim – algumas percepções sobre o cigarro e o ato de parar de fumar que poucos fumantes e não-fumantes têm ideia. Bem, chegou a hora da verdade. E acho que compartilhar essa experiência pode pelo menos incentivar algumas pessoas a pararem, como vi duas amigas fazerem depois que comecei a enfrentar o tabagismo. Vamos lá?

 

Você vai se tornar insuportável por alguns dias

(Foto - Shuttertock)

Prepare amigos, familiares e colegas de trabalho. Prepare até as pessoas no ponto de ônibus, na fila do banco: você vai se tornar um ser insuportável pelo menos na primeira semana sem cigarro, possivelmente na segunda também. Alerte seu chefe no trabalho que seu rendimento pode cair, que a concentração pode estar por um fio. Levando em conta o objetivo final, que é livrar-se do cigarro, é bem possível que todo mundo entenda. Comigo foi assim, toquei o terror na redação (obrigado por entenderem, pessoal!).

Os pesadelos vão existir e vão fazer você se sentir péssimo

Ainda na primeira semana, ou após a primeira vez que você perceber que está conseguindo virar o jogo, é bem provável que seu inconsciente pregue uma peça e te mande um sonho no qual você está fumando. Só que você vai interpretar isso como um pesadelo e provavelmente vai acordar cheio de culpa no meio da noite, ainda tentando entender se colocou tudo a perder. Ok, era só um pesadelo, mas um de muitos que podem aparecer por anos, pelo que me disseram.

A vontade de fumar continua e continuará

Não acontece nenhuma mágica. Você para de fumar e mesmo quando cruza aquela fronteira que te habilita a dizer que está conseguindo vencer o tabagismo, vai continuar batendo aquela vontade de fumar para relaxar, para concentrar-se, para pensar melhor, enfim… Infelizmente isso continua e pode levar um bom tempo para sumir. Dizem que preenchemos pequenos espaços de tempo livres com um cigarro. Acho que pode ser verdade. Ainda não encontrei uma nova atividade que substitua o hábito de fumar.

Sua torcida está bem na sua frente, no Facebook

(Foto - IStock)Ou em outra rede social que você esteja. Parece brincadeira, mas não é: Cada vez que postei meu progresso no Facebook, recebi uma enxurrada de likes e de comentários que me fizeram seguir em frente. Na verdade, também me fizeram pensar que voltar a fumar seria decepcionar muita gente. Não que os comentários tenham vindo nessa perspectiva de cobrança, mas com eles eu senti que estava parando de fumar para além da minha saúde. E acho que isso é bem bacana. Valeu, pessoal!

 

A comida, os cheiros, os sabores… Tudo parecerá diferente

Para quem fumou por 10 anos, como eu, de repente estou há 30 dias sem um trago, comecei a perceber que a comida está muito mais saborosa. E que o sabão em pó que comprei um tempo atrás tem um cheiro bem diferente do que eu pensava. Quer dizer: parece que estou num mundo novo, onde tudo cheira diferente e a comida parece ter outro sabor.

 

Não precisa parar na raça. É ok pedir ajuda

Já parei 'na raça' uma vez e voltei a fumar após 18 meses. Não acho que a recaída tenha relação com não ter tido ajuda e orientação, mas atualmente, no meu caso, tomo um remédio com prescrição médica que é bastante suave, mas que me ajuda bastante a continuar essa luta, já que fico bem menos ansioso. Eu acho que foi fundamental para eu parar desta vez. Vale a pena consultar um médico, até mesmo ver o tratamento gratuito pelo SUS, que além de fornecer medicamentos, adesivos e atendimento psicológico, também te põe em contato com grupos de apoio. Eu, pelo menos, me sinto mais seguro assim. Recomendo, nem todo mundo consegue parar de uma vez.

 

Dinheiro a mais na carteira

(Foto - GettyImages)Vou ter que ser o mais breve possível neste item porque de todos é o que mais me envergonha: estou incrivelmente chocado com o tanto de dinheiro que me sobrou após esses 30 dias sem fumar. É um absurdo o tanto que eu joguei no lixo, que desperdicei com cigarro. A propósito, já planejo investimentos com essa 'economia'.

 

Caminhar uma quadra ou subir um lance de escada deixam de ser transtorno

Era um transtorno ter que subir uma escada caracol no trabalho cada vez que precisava fazer xixi, já que o banheiro masculino fica no andar de baixo. Subia 'esbaforido', exausto, muitas vezes com uma dorzinha de cabeça (já que cigarro também aumenta a pressão). Agora estou suave. Faço uma pequena caminhada, subo escadas, uma ladeira, enfim, e não me sinto mais tão esgotado e sem ar. A qualidade do sono também melhorou e acho que meu ronco também diminuiu.

 

É curioso como o cigarro passa a incomodar tanto

Eu nunca tive a percepção de que eu poderia estar incomodando tanto colegas de trabalho ao voltar de uma 'tragada' e sentar na minha mesa. Eu até lavava bem as mãos, demorava lá fora uns cinco minutos antes de voltar para a sala. Mas, agora vejo que tanto cuidado em nada adiantava. Sei disso porque eu ainda convivo com fumantes e fico um pouco nauseado quando percebo que foram fumar, por causa do cheiro impregnado nas roupas. O odor é ruim, mesmo, não tem sabonete e nem perfume que dê jeito.

 

Você pode se tornar dois tipos de ex-fumante (muito embora seja cedo para se considerar um)

(Foto - GettyImages)Nesses 30 dias tenho pensado bastante sobre tabagismo – desde as forças e circunstâncias que nos levam ao primeiro cigarro, ao desafio diário de quem está tentando parar até finalmente poder bater no peito e gritar para a Souza Cruz: "sou um ex-fumante". Mas antes de chegar lá, percebi que ex-fumantes dividem-se basicamente em dois tipos, os chatos e os solidários. Os chatos são basicamente aqueles que aprendem as caretas que faziam para nós quando acendíamos um cigarro, mesmo que em lugar aberto e arejado; que saem por aí falando que cigarro é o maior arrependimento da vida e que hostilizam fumantes. Bem diferentes dos solidários, que se importam menos com esses detalhes e que entendem o quanto é difícil sair dessa, além de odiarem ver um fumante ser discriminado. Creio que sou do segundo time. Ufa!

 

Se você voltar a fumar, ok. Você pode sempre tentar de novo

Por fim, mais uma reflexão que tenho e que compartilhei com algumas pessoas que estão na mesma luta que eu é que é bastante possível que voltemos a fumar. Afinal, o tabagismo é muito mais que um mau hábito, é um vício. E às vezes fica difícil demais, mesmo com todo o apoio e remédios que recebemos. O que penso sobre isso é que apesar de ser péssimo por tudo a perder, a gente sempre pode tentar parar de novo (e se fortalecer a cada tentativa). Eu defendo que ninguém – absolutamente ninguém – tem direito de nos julgar por nossas escolhas, falhas e tentativas. Você sempre pode recomeçar. Boa sorte a todos nós.

Mais notícias