Marcas eternas: A aceitação do novo corpo no pós-parto

Simone, Ketlen e Pamella são exemplos de maternidade real

O Dia das mães, celebrado tradicionalmente no segundo domingo de maio, é regado todos os anos com sorrisos em comerciais de televisão, mulheres com a barriga chapada empurrando carrinho de recém-nascido e juras de amor eterno. O que quase ninguém mostra é o olhar voltado para a maternidade real, representada sem idealizações e com as marcas que ficam do gestar.

As mudanças no corpo na gestação e pós-parto chegam como uma assombração para as mulheres que se olham no espelho e não se reconhecem mais. São estrias, flacidez, queda de cabelo e, as vezes, sangue e dor. Problemas na autoestima sempre foram um marco na vida da professora de inglês Simone Elias. Aos 37 anos, ela fez as pazes com as atividades físicas e entrou em processo de emagrecimento para perder o sobrepreso, já havia eliminado 10 kilos com a ajuda de pilates quando descobriu que estava grávida do primeiro filho. Independente e bem-resolvida, a professora passou por transformações corporais que trazem angústias até hoje quando se olha no espelho. Já se passou mais de um ano que Pietro nasceu, mas Simone ainda sofre com a perseguição da mãe perfeita.

O processo de autoaceitação ainda não existe na vida da mãe do Pietro. As alegrias de uma gravidez “de novela” deram lugar à sensação de se sentir doente o tempo todo, 24 kilos a mais na balança e uma pré-eclâmpsia no último mês de gestação. Não bastasse as transformações e cobranças naturais que toda recém-mãe tem, o guarda-roupa ia se desfazendo com o peso a mais no corpo e a dificuldade de encontrar peças nas lojas faziam com que Simone se afundasse ainda mais falta de vaidade.

“Para mim, minha beleza hoje é zero.”

Marcas eternas: A aceitação do novo corpo no pós-parto

A pré-eclampsia resultou em 30 dias se alimentando sem sal, mas nem o corte do produto foi suficiente para aliviar as dores dos pés inchados. Depois do parto, as estrias sumiram e a cicatriz da cesária também amenizou. O que não suaviza são os tabus que a sociedade ainda alimenta sobre as mulheres recém paridas.

“Hoje só vejo beleza no meu bebê, meu corpo ficou deformado e não consegui voltar até hoje ao peso que eu estava. O que sobrou da antiga Simone foi só o entusiasmo e a vontade de correr atrás das coisas. Sofria quando via mulheres que acabaram de ter filhos e já estavam com o corpo ótimo, isso era bem triste. São traumas atrás de traumas. Perdi sapatos, imagina você perder todos os sapatos, o guarda-roupas completamente transformado. Evito me olhar no espelho porque não gosto do que vejo. Meu braço aumentou muito e fiquei com a barriguinha pendurada.”

Mais de 10 anos de diferença separam Simone de Ketlen. Ao contrário da trajetória da professora de inglês, a jornalista nunca esteve acima do peso corporal e era membro ativo na atlética da faculdade. Nem todo o histórico ativo de Ketlen Gomes Santos foi o bastante para que ela não se afetasse com o processo de mudança pelo qual passou na gestação de Calebe. Ela chegou a se preocupar com o ponteiro da balança no início da gravidez, mas depois entrou na autoaceitação. Os seios um pouco “caídos” ainda causam estranhamento, cerca de 2 anos pós-parto. “Não é urgente, mas mexe com minha autoestima mais que o peso, porque sei que com uma dieta e exercício eu posso voltar ao normal.”

Nem todos os dias são ensolarados para a mãe do Calebe. Como algumas roupas ainda ficam apertadas, Ketlen tenta manter a sanidade para buscar um ponto de equilíbrio e não pirar. “Tive depressão durante a gravidez, me tratei na psicóloga, não aceitava a gravidez, fui só aceitar ser mãe quando meu filho nasceu. Então tem momentos que não consigo lidar com algumas dificuldades e tenho algumas ‘recaídas’, mas vai melhorando com o dia, a gente vai aprendendo.”

A jornalista tenta se pegar na máxima de que a mudança não é necessariamente algo ruim. “Olho no espelho e vejo uma pessoa que tenta não se resumir apenas à maternidade porque a sociedade trata as mães como se elas devessem ser apenas mães.” Se algumas mães registram fotos da barriga todas as semanas, Ketlen fugia das câmeras. Com a barriga grande, ela não superava a aversão à gestação.

“Odiava, me sentia feia, odiava tudo que remetia à gravidez.”

Marcas eternas: A aceitação do novo corpo no pós-parto

 

Assim que sentiu a necessidade de desmistificar a figura da mãe ideal, a jovem uniu o útil ao agradável e criou o canal “(Des) construindo a mamãe“, no Youtube, para ajudar outras mulheres. “Durante a terapia eu ressignifiquei o que era ser mãe e adaptei pra minha realidade. Foi extremamente necessário eu ter conversado e desabafado com mulheres que passaram e passam pelos mesmos problemas que eu.”

Quem luta todos os dias dias para encarar as novas curvas como a representação do momento em que trouxe à vida seu grande amor é a campo-grandense Pamella Crystina Lino. O corpo sentiu o baque dos 36 kilos que ganhou em quase 2 meses por conta das complicações durante a gravidez de Maria Luiza. Quando descobriu a gestação, aos 19 anos, Pamella não imaginava as batalhas que trilharia durante o tempo em que geraria sua primeira filha. Logo de início, ela teve descolamento de placenta, seguido de diabetes gestacional, fator rh negativo e pré-eclâmpsia. “Eu olhei tudo isso para parar de me importar com o peso que eu ganhei. O tanto de remédio que tomei para ela estar hoje aqui.”

As mudanças na barriga foram o primeiro sinal que algo em Pamella estava mudando. O ganho de peso excessivo trouxe também o cansaço e o desânimo e transformaram a jovem sorridente em uma mulher 100% doada ao gerar. As 14 horas de parto finalizadas com uma cesariana deixaram cicatrizes e estrias que chegam a um polegar de largura, até a altura do umbigo. A barriga, os seios e, principalmente o psicológico, alertaram que a antiga Pamella precisava se despedir com a chegada da Malu.

“Quando eu me tornei mãe coloquei na minha cabeça que minhas roupas tinham que mudar. Cortei biquíni da minha vida por conta das estrias.”

A autoaceitação demorou e só veio agora, aos 27 anos. A mãe da Maria Luiza não perde mais um dia de sol e garante que admira cada marquinha que ficou da gestação. Ela também usa sua página no Instagram escrever sobre o assunto.

 

“Cada gordurinha é símbolo da minha luta, as histórias que meu corpo carrega, o respeito a mim e a ele também.”

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O processo foi tão doloroso quanto carregar um bebê no ventre durante 9 meses. Foi preciso muita leitura, troca de experiências e redescobertas. Pamella adaptou as camisetas, os jeans e até os sapatos para se tornar uma mulher forte que, segundo ela, sempre vai ter algo a aprender. “Eu não amo meu corpo o tempo todo. É um processo complicado, mas não impossível. Eu sigo páginas que me inspiram todos os dias, que mostram corpos reais, assim não sofro com um padrão exigido.”

Os comentários também não foram nada doces e ajudavam, aos poucos, a enterrar a jovialidade da recém-mãe. As cobranças pelo modelo padrão de mulher, que usa calça 38 e está sempre maquiada perdura há anos. O avanço das redes de apoio tem se tornado a esperança de uma realidade mais amena para aquelas que precisam acordar com choro no meio das madrugadas e os seios pingando leite.

“Eu escutava: ta flácida, tem que apertar essa barriga para emagrecer, vai ficar horrível. Eu escutei tanta coisa.”

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