Para driblar pandemia, médicos transmitem partos por vídeo para os pais

Maternidade liberou acompanhante com restrições

A pandemia do coronavírus pegou muita gente de surpresa. Nem mesmo toda a minuciosa preparação de casais que estavam nos últimos meses de gestação foi capaz de lidar com as consequências que a doença trouxe também para o momento mais esperado por eles: o parto. Uma nota, divulgada pela Maternidade Cândido Mariano, onde proíbe a presença de acompanhantes, doula e fotógrafos no centro cirúrgico alterou os planos de quem estava prestes a dar à luz. No entanto, neste mês, a maternidade emitiu um comunicado que permite acompanhantes desde que cumpram as normativas de segurança como e levar seu equipamento de proteção individual e o exame de covid-19.

A doula Loridany Jarcem já sabia que poderia não ter o marido do lado no momento em que seu bebê viesse ao mundo. Apesar da confiança de que iria dar tudo certo, a ausência do companheiro no momento da cirurgia a deixou abalada.

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Marido ficou com Lory até quando pôde

“Por ser assistida por um doutor que eu confio muito e já conheço a trajetória profissional eu estava confiante, mas te digo que fiquei bem abalada. Eu queria a placenta para usar na medicina com a minha placenteira e acabei esquecendo. Enquanto doula eu sei da importância de se ter um acompanhamento, não só por ter a garantia de ser assistida de maneira correta e sem violência obstétrica, mas pra responder por nós quando estamos na partolândia nesses momentos.”

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Marido de Letícia participou do parto

O parto, realizado no início do mês no HU (Hospital Universitário) foi completamente diferente de tudo que a recém-mãe imaginava. O dia da internação foi uma mistura de medo, insegurança e felicidade.

” Acostumei dizer que iniciamos o puerpério antes do parto, não podíamos curtir as últimas semanas da gestação por conta do isolamento, apenas íamos ao pré-natal e retornávamos pra casa. Internei já esgotada emocionalmente por conta de toda carga absorvida com essa pandemia.”

Como o trabalho de parto estava estagnado, as coisas fugiram ainda mais dos planos de Loridany. Ela e o marido entraram em um consenso e optaram pela cesárea. “Não pude ter o acompanhamento, como já estava no protocolo devido a covid. Isso foi muito difícil, com todo sentimento de não aceitação em estar passando pela cirurgia, não tê-lo comigo foi uma somatória. Ele só pode estar com a gente depois de 1h após o nascimento dela, quando já estávamos indo para o quarto.”

A história de Letícia Ferreira Souza foi diferente. A gestante de 27 anos conseguiu que o marido ficasse presente no momento do nascimento do segundo filho. Como toda a família é de Dourados e a primeira filha do casal tem 1 ano, o medo das coisas não saírem conforme o planejado se sobrepôs até à segurança dos 8 meses de preparação. Por sorte, o hospital que ela escolheu ainda estava permitindo que os companheiros entrassem na sala de cirurgia.

“Chorei bastante com medo de tudo, do meu filho chegar num mundo nessas condições. Na última consulta, 4 dias antes do parto, minha médica disse que poderia ter um acompanhante. Naquele momento meu coração deu uma tranquilizada.”

A dona de casa ainda ressalta que a presença do marido foi extremamente importante para a chegada do caçula. “Orei bastante para que ele pudesse estar ao meu lado. Só sabia agradecer por ele estar ali comigo.”

Doulas

As doulas, responsáveis pelo suporte e acompanhamento das mulheres durante a gestação, parto e pós-parto, ainda estão com as atividades suspensas pela maternidade. Marina e Pâmela recorreram ao uso da tecnologia para continuar o trabalho com as assistidas. As profissionais da “Doulas por Amor” tiveram que se ajustar e reinventar para fazer aulas online com as gestantes e só fazem atendimento presencial quando solicitado pelo casal. As doulas explicam, através de chamada de vídeo, sobre posições e método de alívio de dor, já que a entrada desses profissionais ainda não está permitida. A queda nos contratos chegou a 60% por conta da pandemia.

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“Doulas por Amor” atendem online

“Durante o trabalho de parto vamos até a casa da gestante e ficamos com eles até o momento de ir para a maternidade. Depois que entram ficamos dando suporte via Whatsapp e vídeochamada.”, explica Marina.

Já o pós-parto das profissionais é feito de forma presencial, mas com os devidos cuidados. “Vamos auxiliar com a amamentação e online fica mais difícil. Usamos máscaras, álcool gel, lavagem das mãos, luvas quando necessário e pouco contato físico. Toda essa situação pegou a todos de surpresa e estamos tomando todos os cuidados necessários e respeitando todas as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde).”

Katiuce Aguiar Rodrigues de Assis, que é doula há 4 anos, optou por encerrar os atendimentos. Mãe de 2 crianças, ela preferiu abrir mão do trabalho e se dedicar totalmente aos pequenos em casa, já que as aulas estão suspensas. As doulagens que já estavam em andamento ficaram sem acompanhamento presencial, para não colocar ninguém em risco.

“Os voluntariados eu ainda faço, não parei, porque não preciso ir até a pessoa. Mas uma visita pós-parto, mesmo que eu deveria fazer, já não foi possível. Por escolha e por prudência, preferi não ir até a casa da família.

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Silvia foi última gestante atendida por Katy

Pioneiros em amor

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Foto: Diogo Galeano

No entra e sai somente de profissionais da saúde nas salas da Maternidade Cândido Mariano, o obstetra Manoel Cordeiro e o pediatra neonatologista Pedro Amaral decidiram fazer a diferença na vida das pacientes. Os médicos elaboraram uma forma do acompanhante estar presente na hora do nascimento, mesmo esperando do lado de fora da porta. A equipe médica, através de ligação via vídeochamada, permite que a gestante compartilhe o parto. Dr. Pedro explica que a transmissão por vídeo foi uma forma que conseguiram para aproximar as pessoas.

“Pegamos o telefone do acompanhante antes do nascimento e fazemos a ligação no momento. Deixamos claro que se tiver intercorrência no momento nós temos que desligar pois a prioridade é o bebê.”

Por mais que agora exista a normativa da maternidade, a grande maioria dos pais ainda não consegue estar presente na hora do parto e a atitude dos doutores Manoel e Pedro chega como um acalento para as mães. “Elas ficam surpresas e agradecidas porque ainda não é algo todos estão fazendo. Mesmo que depois o pai tenham contato no quarto, o nascimento é único.”, conta o pediatra.

Normativas

Os acompanhantes são permitidos desde que cumpram com o que foi estabelecido pela normativa DT/04-2020. Caso contrário, são barrados. A principal mudança, além de que agora o acompanhante deve levar seu equipamento de proteção individual e o exame de covid-19, aconteceu, de acordo com a maternidade Cândido Mariano, para continuar humanizando os partos. Doulas e fotógrafos estão proibidos até o fim da pandemia.

Na maternidade do HUMAP (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian), mesmo durante a pandemia estão sendo permitidos acompanhantes às gestantes durante o parto, desde que não sejam pessoas de grupo de risco (cardiopatas, diabéticos, idosos, hipertensos). As principais mudanças trazidas pela pandemia para as gestantes são que não é permitida a presença de acompanhantes durante as consultas, mas apenas na hora do parto. Além disso, a gestante não pode ficar trocando de acompanhante num intervalo de 12 horas.

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