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Maternidade tardia, ou ausência dela, é opção entre nova geração de mulheres

Sociedade ainda julga quem opta por abrir mão do "padrão tradicional"

Quando uma mulher com mais de 25 anos compartilha a vontade de não querer ser mãe gera uma avalanche de comentários e pitacos sobre a importância da maternidade. Na contramão das últimas pesquisas, que apontaram um crescimento no número de pessoas que não querem filhos, a maioria da sociedade ainda torce o nariz para a decisão de abdicar da maternidade.

Um levantamento realizado pelo IBGE, em 2010, mostrou que 14% das mulheres no Brasil não pretendem engravidar. O número foi 4% maior se comparado com a pesquisa anterior. A inserção da figura feminina no mercado de trabalho e o tempo que uma criança demanda são alguns fatores que pesam no planejamento da maternidade. A estabilidade emocional e financeira também surgem como empecilhos para a nova geração de mães em potencial.

Mesmo que a sociedade atual seja baseada no padrão de que a mulher, em determinado momento da vida, precisa se preparar para o casamento e posteriormente para a maternidade, existe um grupo feminino que não concorda com as “regras” impostas pela cultura brasileira. Exemplo disto é a jornalista Fabíola Camilo, de 35 anos.

Nascida em uma “família tradicional”, a profissional precisa lidar com a cobrança familiar e lutar contra o relógio biológico. Quase 18 anos após sofrer uma decepção, Fabíola vive um novo relacionamento e se sente apta para casar, mas filhos não estão em seus planos.

“Mesmo com a modernidade dos tempos atuais o fato de ser mãe não me seduz. É muito importante deixar claro que isso não tem nada a ver com gostar ou não de crianças. As pessoas dizem que tenho sangue doce para os pequenos e quando estou com eles quase que me igualo”, brinca.

As responsabilidades, que nascem junto com os filhos, ainda parecem não ter lugar na rotina da jornalista. O fato de não querer ser mãe, segundo ela, não engloba necessariamente a questão financeira.

“Em pensar de passar por uma transformação, não só no meu corpo, mas na minha mente, ser obrigada a ter aquela responsabilidade com horários, abrir mão do meu sono… Não sei se estou preparada. Para ter filhos não precisa estar bem financeiramente, é claro que isso ajudaria, mas tanta gente tem filhos e cuidam e criam e todo mundo vive bem.”

O crescimento populacional e a chegada dos anticoncepcionais, na década de 70, abriram a mente das mulheres e deram voz – ainda que isso seja uma luta diária – para cada uma escolher seu caminho. O emponderamento, palavra muito utilizada nos dias atuais,  reforçou a tese de que “realização de vida” não é mais sinônimo de “casar e ter filhos”. A violência desenfreada e a criminalização precoce das pessoas também são colocados na balança na hora de gerar ou adotar uma vida.

“Professor não tem obrigação de criar filho de ninguém. Na minha época, era diferente. Você ia pra escola e tinha horário para estar em casa. Hoje as crianças estão sendo fáceis de influenciar, o número de crianças cometendo suicídio é demais.. Está muito difícil criar filhos, você educa, você conversa, não é falta de ser amigo. Parece que as crianças já nascem com personalidade pronta. O mundo não tá propício para ter filha (menina), morro de medo de achar que está fazendo o melhor e não ter feito nada. Passar os princípios, conselhos e o mundo destruir. Vejo crianças xingando pai, matando pai.”

Ainda que Patrícia tenha uma opinião formada sobre ter, ou não, a cobrança sempre existiu. Única menina, em uma família de 3 filhos, a mãe da jornalista costuma dizer que “a mulher que veio ao mundo e não foi mãe, não viveu.” Até quem passou pela experiência de esperar o “grande amor” e acabou não gerando frutos não concorda com o renuncio da maternidade.

“Tenho duas tias que não foram mães. Ficaram esperando o príncipe encantado porque queriam casar e depois queriam ser mães acabaram não tendo filhos. Até elas me falam que eu tenho que ter um. Mas é o famoso padrão, muitas vezes as pessoas que me cobram isso não possuem condições financeiras e nem emocionais para me pedirem para ter.”

Entre um intervalo de 10 anos, dados de pesquisas evidenciaram o aumento da representatividade de mães entre os 30 e 39 anos (de 22,5%, em 2005, chegando a 30,8%, em 2015) e a queda no registro de genitoras mais jovens. No grupo de 15 a 19 anos, o percentual de nascimento caiu de 20,3%, em 2005, para 17%, em 2015.

“Essa mesma sociedade que pressiona as mulheres a construírem uma família, tendo filhos, é a mesma que anda sem tempo e sem paciência para uma criança”, garante Graciely Ferreira Dias. A assessora, de 35 anos, já foi casada e passou pela dor da perda de um bebê aos 6 meses de gestação. O amadurecimento foi fundamental para a decisão de adiar a maternidade, sem tempo definido. No caso da profissional, a diminuição de óvulos com o passar do tempo não é um problema, já que Graciely cogita a possibilidade de uma adoção.

“Acho o máximo as mães que se desdobram entre trabalho, faculdade e filhos. Mas também vejo o quanto elas gostariam de ter mais tempo com o seu baby. Isso me faz adiar a maternidade e se esse adiar se estender por muito tempo, a adoção é algo que acho interessante. Temos tantas crianças necessitando de amor e cuidado. Ouço algumas coisas como: já já passa da hora. Mas isso não me assusta, o que me assusta é colocar um inocente no mundo e não dar conta dos cuidados. Amor todos temos para dar. Mas não é só de amor que se vive uma criança.”

Para a profissional em educação física Dafyni Fiama da Silva Paz, essa falta de atenção, citada quase que unanimemente entre as mulheres que não querem ser mães, é a responsável pela sentença. A jovem repete o discurso das outras mulheres e cita as questões financeiras e psicológicas como base para suas decisões. Em um relacionamento de 8 anos, Dafyni prefere focar na carreira profissional e não se importa com o passar do tempo.

“No momento não tenho tempo para me dedicar como uma criança merece. Por conta da minha profissão e do meu marido, passo o dia praticamente todo fora de casa. Sinto medo também de não dar conta e não ser uma boa mãe ou meu filho seguir um caminho diferente do qual eu gostaria que ele seguisse. Medo de não saber educar como fui educada, medo de  não ser uma boa mãe como a minha mãe é.”

Em entrevista ao El País, no último dia 5, a canadense autora do livro Materinidade, Sheila Heti, afirmou que a obra “dá voz a um tipo de mulher que até agora não tinha sido representada: a que decide não ter filhos.”  Segundo o noticiário, o romance explora o conflito enfrentado por toda mulher que se aproxima de uma certa idade sem ter sido mãe.

“A mulher sem filhos é considerada por muitos como metade de uma mulher, metade de uma pessoa. É por isso que eu queria mostrar uma pessoa completa, sua interioridade em relação a essa vida que ela escolheu. E queria abrir ao leitor possibilidades que ela poderia não ter considerado antes por nunca tê-las visto manifestadas ou escritas. Acredito que com cada livro você cria um mundo e espera que esse mundo crie novos mundos em nosso mundo real e compartilhado”, explica a escritora.

Heti também ressalta, durante a entrevista, a dificuldade com que o tema ainda é tratado pelas pessoas. “Eu não tinha visto esse dilema emocional escrito. Acredito que todos os livros sobre a maternidade começam quando o bebê já foi concebido ou depois de ter nascido, então vi que havia um grande espaço nunca abordado, antes que nascesse o bebê, um período da vida que eu mesma estava atravessando.”

 

 

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