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Bebê que viralizou por dormir em carrinho de mão é exemplo da vulnerabilidade no Bom Retiro

Estimativa é que cada uma das 136 famílias tenha 4 crianças

O pequeno Luan, de apenas 23 dias, ficou conhecido nacionalmente depois de ser fotografado descansando em um carrinho de mão forrado com cobertores ao lado da cama dos pais. O improviso foi a alternativa encontrada por Geicy e Weslley para driblarem a falta de espaço e recursos no barraco onde moram, na Comunidade Bom Retiro em Campo Grande. O registro, compartilhado milhões de vezes nas redes sociais, mobilizou os internautas que ficaram comovidos com a situação de vulnerabilidade social da família.

A imagem do recém-nascido estampa uma das 136 famílias que vivem na Comunidade. Oriundos da Cidade de Deus, Estação Ferroviária, Invasão da Mata e outras ocupações da Capital, os moradores realocados no Bom Retiro ergueram barracos de lona enquanto esperam a finalização das casas sociais prometidas pela Prefeitura Municipal. Atualmente, 39 famílias já foram gratificadas com as construções comunitárias de alvenaria.

Nos barracos, entre as ruas e vielas do Bom Retiro, centenas de crianças passaram, ou ainda passam, pela mesma situação que Luan. Pais desempregados e sem condições financeiras, das mais diferentes idades, enchem a estrutura de poucos cômodos com a expectativa da mudança.

Os olhos ansiosos pelas frestas dos barracos procuram a chegada de algum representante do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) ou voluntário de alguma ONG (Organização Não Governamental) que traga doações de mantimentos e roupas. É da boa vontade de doadores anônimos e ajuda da Prefeitura que muitas famílias dependem para ter o pão de cada dia.

A convivência com a falta de saneamento básico e ausência de rede elétrica segura dentro das moradias também parecem “normais” e não assustam os pais que dividem o espaço com uma família, na média composta por 4 crianças.

As barreiras que impedem os moradores de saírem da margem da sociedade muitas vezes chegam atreladas aos problemas enraizados em cada família. No caso de Luan, a precoce gravidez de Geicy Kelly, na época com 15 anos, interrompeu o sonho da garota de terminar os estudos. Cursando o ensino médico, a adolescente trancou a matrícula e foi morar com o namorado na Estação Ferroviária.

A sogra ganhou o direito da moradia no Bom Retiro e Geicy acabou se mudando para a comunidade quando o bebê nasceu. O casal levantou um barraco de apenas um cômodo e banheiro para morar até a entrega do imóvel. No início de maio a sogra morreu de cirrose – por beber demais e agora os jovens vivem à mercê da sorte.

O que mais castiga, com a chegada do inverno, são as noites frias ou chuvosas. A lona não impede que o vento gelado invada as estruturas e atinja, principalmente, as crianças. Tatiane Cardoso Lourenço, de 31 anos, ainda espera que algum “anjo da guarda” apareça com cobertores para ela, o marido e os 4 filhos. O companheiro ficou desempregado recentemente e a família sobrevive de uma Bolsa Família no valor de R$ 290.

Dois dos quatro filhos ainda usam fraldas e isso também compromete a renda familiar. Tatiane fica ainda mais apreensiva quando lembra que o bebê mais novo, de 7 meses, faz tratamento na Apae. Desde que nasceu, o garoto convulsiona, faz fisioterapia e, segundo a mãe, os médicos ainda não descobriram a doença do filho.

Nem o desemprego, moradia precária e baixa qualidade de vida tira o sorriso das crianças do Bom Retiro. No final do mês, somente com arroz na maioria das mesas, os pequenos cidadãos ainda não entendem a fragilidade da vida diante dos empecilhos de um futuro melhor.