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Área rural de Terenos sobrevive através de legado da agricultura familiar deixado por colonizadores

A formação de Terenos se deu como primeira colônia estabelecida no antigo distrito de Campo Grande, estado antigo do Mato Grosso, que sempre foi esquecido, tanto no âmbito local, regional e em todo o país, em parte pelo tamanho territorial. Porém, a experiência da produção colonial em meados deste século XX provou que o processo […]

Marcos Ermínio Publicado em 03/03/2021, às 09h14 - Atualizado às 09h50

Pai da dona Elvira Stelg, chegou em Terenos fugindo das forças armadas da Alemanha nazista. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)
Pai da dona Elvira Stelg, chegou em Terenos fugindo das forças armadas da Alemanha nazista. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax) - Pai da dona Elvira Stelg, chegou em Terenos fugindo das forças armadas da Alemanha nazista. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

A formação de Terenos se deu como primeira colônia estabelecida no antigo distrito de Campo Grande, estado antigo do Mato Grosso, que sempre foi esquecido, tanto no âmbito local, regional e em todo o país, em parte pelo tamanho territorial. Porém, a experiência da produção colonial em meados deste século XX provou que o processo de hibridização cultural, entre outros fatores, trouxe para a região inúmeros ganhos econômicos.

No território de colonos europeus, o espaço agrícola de Terenos causou mudanças na tecnologia de uso da terra até então praticada localmente. Embora houvesse um grande número de alemães no início da colonização, essas pessoas não têm patrimônio cultural na música ou na comida terenense aos gostos locais, talvez por conta de sua força migratória tivesse ocorrido no período entre as duas guerras mundiais, inibindo as manifestações culturais desse povo.

Colônia Terenos
Entrada da cidade Terenos distante 33 km de Campo Grande. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

O fato é que o meio rural da cidade passou por inúmeras transformações velhas colônias e novas colônias. Foram os primeiros objetos de ocupação do território, limpar a floresta para o cultivo de arroz e transferir para a recém-criada associação o milho, depois algodão, soja e pasto. Tentar a produção integrada de aves, mais a criação de gado leiteiro e de corte que estabeleceram sua posição de destaque em meados do século 21, perdurando a agricultura familiar desses descendentes de colonizadores de diversas nacionalidade.

O Jornal Midiamax percorreu 33 km de Campo Grande até a cidade de Terenos, para resgatar a história dessas famílias remanescentes. O caminho até as colônias inicia margeando o frigorifico que fica perto e sua influência é grande. A prefeitura e o governo estadual, pavimentou a estrada de asfalto da sede das

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A alemã Elvira Stelg relembra através de fotos com Valdomiro Fantini o inicio da colonização de Terenos. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

colônias até a BR 262, numa distância de 5 quilômetros. Que se torna ponto de referência para Valdomiro Fantini e sua esposa Rosa que está a mais 13 km de distância estrada a dentro. Morando com Dona Elvira Stelg, a única de três irmãs vivas, filhas de colonizador alemão que precisou fugir das forças armadas da Alemanha nazista.

O pai de Elvira, diante de uma breve experiência no sudeste do país, com lavouras de café, no século 20, viu a oportunidade oferecida pelas autoridades nacionais interessadas em estabelecer colônias agrícolas de imigrantes em terras vazias. Em primeiro lugar por meio de um decreto, em 1920, a empresa H. Hacker & Cia da Southern Brazilian Society originário da Alemanha, ingressou seu povo na área ao norte do limite da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em Terenos. Para a primeira colônia (hoje chamada de velha colônia).

Alguns anos depois, por volta de 1928, o governo estadual de Mato Grosso com o sucesso do primeiro projeto, iniciou-se a divisão de outra área (colônias) nova, pois não conseguiu o sucesso da sessão anterior. Os colonizadores criticavam por possuir terras de terreno ruim, rochoso, acidentado com falta de água e longas distâncias de escola e centro administrativo.

Colônia Terenos
Cartas recebidas pelo correios com cartão postal escrito em Alemão e fotos antigas. (Foto Marcos Erminio/Midiamax)

Instalado na colônia velha, conforme relata o Senhor Valdomiro, o pai de Elvira tinha uma grande habilidade para trabalhar com máquinas, experiência adquirida na Alemanha, que já se encontrava em uma era industrial. Complementa que grupos de alemães por diversas vezes se deslocam para Campo Grande, a colaborar com a implantação da usina hidrelétrica e manutenção da linha da férrea.

A expansão ferroviária, além de garantir a estabilidade do atual regime do país e manter a integridade do território brasileiro, fez parte do processo histórico de desenvolvimento e avanço da região, que só foi possível com os colonizadores europeus, justifica Valdomiro.

Esse grupo de alemães, colocado a frequentar o mesmo espaço físico e social, defrontou-se com a obrigatoriedade do aprender “códigos” para poder estabelecer uma comunicação e uma certa identidade como meio e as pessoas que os acolheram. Um aprendizado forçado pela necessidade, que não se deu dentro de um caráter formal, mesmo porque não havia nenhum tipo de orientação educacional em Terenos. O senhor Valdomiro complementa que as irmãs de Elvira, dizia que o pai era extremamente associável com demais da colônia, mas proibia as filhas e os filhos de se relacionarem, e assim com o passar do tempo nenhum deles se casaram ou constituíram família, e justifica que ainda existia a ideologia de raça pura, aplicada pela Alemanha nazista.

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Basílio Donxeva de 79 anos, descendente de uma das das 7 famílias búlgaras que chegaram na região. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

Outro morador descendente de colonizadores, das 7 famílias búlgaras que chegaram na região, é a de seu Basílio Donxeva de 79 anos. Seus pais vieram para o Brasil em meados de 1920. Donxeva ainda relata que de 14 irmãos, um nasceu no percurso da Bulgária ao Brasil no navio, e que sua mãe foi obrigada a deixa-lo para trás, tamanha era dificuldade de buscar uma nova vida fora do seu pais de origem. E ao chegar se deparou com a dificuldade de ocupar terras retirados pelos indígenas.

Colônia Terenos
Basílio Donxeva e Dona Maria do Carmo, gaúcha que se casou com búlgaro. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

O morador da colônia velha conta que seu pai faleceu com 91 anos, e tudo que aprendeu sobre a vida no campo foi repassado. Donxeva se casou com Maria do Carmo, descendente de gaúchos, ambos comemoram 56 anos juntos e Maria relata que seus sogros búlgaros eram pessoas muito inteligentes e boas com todos, que devido ao sofrimento que viveram na saída de Sófia pós-guerra, souberam valorizar a vida em Terrenos.

Ainda, do Carmo relata até o desenvolvimento e mudanças da região com as novas formas de cultivo, “quando era criança, aqui tudo era mato, tinha muita árvore com sombra, as estradas era um trilheiro somente, hoje é tudo plantação de soja, milho, não existe mais aquele campo que existia antes, está acabando”.

Maior produção de ovos do Mato Grosso do Sul

A partir de 1959, uma nova cultura começou a se forma em Terenos, JAMIC Imigração e Colonização Ltda, que adquiriu e colonizou uma área para instalar colonos japoneses. Durante as décadas de imigração japonesa para o Brasil. Em 1950 e 1960, o responsável pela migração era a Japan International Cooperation Agency (JAICA), com sede em Tóquio.

Colônia Terenos
No total 28 famílias descendentes de japoneses estão atuantes na produção de ovos. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

No Brasil, as duas empresas estabeleceram uma conexão, serviços de imigração japonesa, imigração e colonização JAMIC Ltda (empresa gerenciadora de imigração no Japão) e assistência JEMIS Financeira A. A. (serviço de imigração japonês), até então a empresa jurídica.

Mas administrado pelos japoneses e o governo japonês. A característica básica do Jamic era a sua função social e promoção da imigração e introdução em outros países de seu povo em condições inativa no Japão.

A área onde hoje está localizada a Colônia Várzea Alegre pertenceu ao governo do Estado de Mato Grosso até 1907, e estava inserida numa política de colonização desenvolvida pelo governo do Estado. Com essa política, foram colocadas à venda, à concessão gratuita e ao arrendamento todas as terras públicas devolutas, excluídas áreas de interesse dos governos para a defesa das fronteiras, construções militares, estrada de ferro, povoações, fundações de colônias oficiais e aldeamentos de índios. As terras da fazenda Várzea Alegre estavam incluídas nas áreas reservadas para o estabelecimento de colônias.

Colônia Terenos
Placa comemorativa de emancipação da Colônia de Várzea Alegre. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

Hoje o local da antiga sede da Colônia Jamic, onde foi implantada há cerca de cinquenta anos a primeira cooperativa do município de Terenos, é servido de acesso asfaltado. No local (Comunidade Jamic), está instalada a Associação Esportiva e Cultural Nipo Brasileira de Várzea Alegre e a Camva, que reúne hoje cerca de 28 famílias atuantes na produção de ovos e também na fruticultura.

O diretor da Cooperativa Mista de Várzea Alegre (CAMVA), Reinaldo Issao Kurokawa, faz parte da geração de uma dessas famílias que colonizaram a região, e explica que a produção diária é de 830 mil ovos, que ainda garante a cidade de Terenos o título de capital do Ovo. Ainda diz Reinaldo que a comunidade Jamic foi bem estruturada na sua criação e diz que um bom exemplo e que a primeira escola em tempo integral do Estado, e que se tornou referência em educação, estava dentro da colônia.

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Sede da Associção Esportiva de Varzea Alegre (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

A criação da Associação das Colônias e a integração dos pequenos produtores

Colônia Terenos
Esboço do desenho fundiário de Terenos-MS em 1940. Autor Costa EA 2011

Ao delimitar o lote e a área própria da colônia, o governo estadual exigiu a delimitação do espaço físico para instalação de uma sede. Privilegiada ao centro e bem acima do terreno, e hoje de lá ainda é possível ter uma vista panorâmica de toda a área da colônia. Lá, além do ponto de encontro para discussões relacionadas à Colônia, inicialmente foram distribuídas ferramentas e sementes. Posteriormente, foram instaladas salas de aula para os filhos dos assentados. A sede era administrada por brasileiros e escolhidos pela Intendência de Campo Grande.

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Placa indica sede da Associação das Colônias. (Foto Marcos Ermínio/Midiamax)

Hoje a Associação das Colônias Nova e Velha de Terenos (ADECON), realiza atividades sociais e se tornou referência para  cursos  e treinamentos para os produtores e produtoras da região, além de local privilegiado para ações sociais e extensivas da agricultura familiar.

O assentamento colônia nova mesmo tem como características a agricultura familiar, em função do tamanho das áreas de terra, onde 73,3% possui área de no máximo 30 hectares, 8,9% de 30 a 50 hectares e 17,8% com mais de 50 hectares. Outro fator é o de que a mão de obra na atividade é da própria família.

A Associação das Colônias Nova e Velha de Terenos fica saindo da BR-262 sentido a MS-352, na estrada estadual de Terenos, km 12 a direita, placas indicam a localização, ou o contato pode ser pelo telefone (67) 3246-7800.

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