Não deixar Eva morrer é missão de jovens de comunidade quilombola

História da fundação da Capital se confunde com de Tia Eva

Ser jovem, negro e descendente de uma das figuras históricas mais importantes de Campo Grande é orgulho para quem cresceu no bairro São Benedito, região do Jardim Seminário. Manter a história de Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, viva e presente na vida da comunidade é a missão de vida de muita gente que resiste em sonhar com um futuro muito melhor do que a realidade em 2017.

A comunidade fundada em 1910 por Tia Eva é reconhecida como remanescente de quilombos desde 2008 e tem cerca de 400 famílias atualmente, pouco mais de 100 dessas são formadas diretamente por descendentes da ex-escrava Eva. A famosa igrejinha de São Benedito, instalada na rua principal da comunidade, é tombada como Patrimônio Histórico de Mato Grosso do Sul desde 1998.

Além de conviver com pouca referência e reconhecimento história sobre a história de Eva, os descendentes têm outra bandeira pela qual lutar. Eles querem ter a possibilidade de transmitir aos mais novos um pouco do que foi a ex-escrava e de todo o ensinamento que ela deixou para seus familiares que formaram a comunidade considerada por muitos a pioneira do território de Campo Grande. 

Os jovens que vivem na comunidade que está espalhada em pouco mais de três quadras do Jardim Seminário – que para eles é o Jardim São Benedito – se esforçam para evitar que a história de Tia Eva não se perca com os mais velhos. A inclusão dos detalhes da fundação e história da comunidade na grade curricular da escola que existe no bairro é, por exemplo, um dos desejos de quem se orgulha de onde veio.

“Não podemos deixar que tudo isso morra, nossa história é o que deixaremos de legado para os mais novos descendentes da Tia Eva”, conta o vice-presidente da Associação Beneficente dos Descendentes de Tia Eva, Antônio Marcos Ferreira, de 45 anos.

Moradores da comunidade quilombola Tia Eva (Foto - Henrique Kawaminami)

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Ele é um dos que sonha com um futuro diferente e lamenta pela realidade. Há pelo menos dois anos a documentação da associação enfrenta entrave burocrático, e sem a regularização, benefícios para o bairro ou festas tradicionais ficam impedidos de serem realizadaos no salão que é o ponto de encontro de todos que vivem por ali.

As festas e encontros da comunidade são considerados por todos como a principal forma de manter a história de Eva viva e comemorar tudo aquilo que a descendente de quilombos que veio de Goiás para a Capital representou para seu povo. E se as festividades ficam quase impossíveis de serem realizadas, os mais jovens precisam ser criativos para terem momentos de lazer na comunidade.

“Aqui a gente é muito carente de atenção do poder público. A gente se sente abandonado porque nem uma praça para jogar bola ou se reunir temos por aqui. Uns ou outros fazem as sociais em casa, mas não dá pra chamar muito gente porque não temos espaço”, desabafa Carlos Henrique, de 26 anos.

O mesmo sentimento de “fomos deixados de lado” é compartilhado por outros jovens da comunidade com quem o Jornal Midiamax conversou, como Cristiano Martins e Vinícius Silva, ambos de 17 anos e até pelo Anthony Martins, que tem apenas 9 anos.

Todos eles sonham com uma realidade repleta de oportunidades, mas reconhecem que muito precisa ser feito para que o orgulho de ser descendente de quilombola fale mais alto do que as dificuldades que insistem em se erguer contra a comunidade.

“Temos que ter orgulho de onde viemos e, principalmente, precisamos saber a nossa história. Muitas crianças que vivem aqui sabem ‘por cima’ sobre a Tia Eva, mas a gente queria mesmo era poder colocar em prática tudo que ela foi. E as festas da nossa comunidade são um exemplo disso”, completa Antônio Marcos, que tem esperança em regularizar a documentação da associação e voltar a realizar eventos no salão da igreja.

Quem foi Eva?

Tia Eva também é apontada como verdadeira fundadora de Campo Grande (Foto - Henrique Kawaminami)​Escrava nascida em Mineiros, interior de Goiás, Eva tinha um sonho: dar um bom estudo para suas três filhas. Em 1887, aos 49 anos, Eva obteve sua carta de alforria, momento no qual realizaria seu segundo sonho: ir para o Mato Grosso (atualmente, Mato Grosso do Sul) e construir um lugar para seus descendentes.

Saiu de Goiás em 1905, chegando em Campos de Vacaria, hoje, Campo Grande, onde trabalhou como lavadeira, parteira, cozinheira, curandeira e benzedeira. Ela impressionava a todos pois sabia ler e escrever, algo que era inesperado de uma escrava.

Em 1910, decidiu pagar uma a promessa a São Benedito por a ter curado de uma ferida na perna. Construiu uma capela em agradecimento ao santo e conclui a igrejinha em 1912, demolida e substituída por uma de alvenaria em 1919. Tia Eva está enterrada dentro desta pequena igreja, a mais antiga da cidade.

A fundadora?

Entre os mais velhos que ainda vivem na comunidade, a história sobre a fundação de Campo Grande é um pouco diferente daquela ensinada pelos livros ali mesmo no Centro de Educação Infantil Tia Eva, distante alguns metros dos busto instalado em frente à igrejinha. E é esse resgate da cultura que muitos sonham em ver acontecendo por ali.

Para muitos, antes da chegada de José Antônio Pereira com sua comitiva, uma comunidade formada pela ex-escrava Eva já estava instalada no territória de Campo Grande. Ela trabalhou como lavadeira, parteira, cozinheira, curandeira e benzedeira, também sabia ler e escrever e era considerada a “prefeita” do lugar.

Até hoje historiadores são categóricos em admitir que parte da história da relação da ex-escrava com a fundação de Campo Grande segue obscura. Acredita-se que ela tenha chegado na cidade nos primeiros anos do século 20. Muitos parentes contam que ela fez daqui sua morada por volta de 1905. 

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