Missão pai (3): Uma batalha de força e ansiedade à espera de um sonho e do amor

Uma história que me permitiu ser coadjuvante de uma linda protagonista

Era 11 horas da noite de um sábado. Chegamos na maternidade com a doula e o fotógrafo, a família (os mais próximos) chegaram pouco depois. Nossa médica já estava lá. Na minha cabeça, e no meu coração, a esperança era que a bebê nascesse em poucos minutos, mesmo porque minha guerreira esposa já estava com quase 8cm de dilatação. Ledo engano de um coração esperançoso. (se perdeu os outros relatos veja AQUI e AQUI)

Então, como (achávamos) estávamos preparados para enfrentar um parto normal e humanizado, a cabeça estava tranquila, apenas o coração ansioso por experimentar a tão falada sensação irracional da paternidade. (me permitam um aparte: mães, vocês quando engravidam já se envolvem com aquela vidinha se formando dentro de vocês. Já nós, pais, acho que a maioria, experimenta a explosão do amor quando fixa os olhos pela primeira vez no bebê).

Apesar de me sentir preparado, a sala de parto, por mais que decorada, com piscina, bola de exercício, escadinha, um sonzinho ambiente (Dra. Rúbia deu a dica de uma playlist), ainda é um ambiente intimidador. É um hospital e eu sou jornalista, ou seja, não estou confortável por não dominar nada naquele lugar. O simples desembrulhar da roupa especial que me deram para vestir já mostrou o nervosismo exagerado.

À meia noite, a família já estava em peso na recepção, e eu acreditava que minha filha colocaria o rostinho para fora em minutos. A dor do meu amor era grande, e por mais que eu e a doula tentássemos aplacar o que ela sentia, eu via nos olhos dela que já não era mais ela ali. Admiração, dó, amor e compaixão jorravam dentro de mim vendo minha mulher chorar sem derramar lágrima. Que força era aquela?

Quando conheci a mãe da minha filha eu descobri o amor, e ela tinha só 19 anos. Era uma menina, linda, daquelas apaixonantes. Meiga, pequena, um pouco soberba, meio abusada e que me encantou. Seis anos depois, quatro juntos, três de casados, chegamos à maternidade e aquela mulher na minha frente era mais do que a menina que conheci.

Eu nunca vi tanta força, sem mito ou fantasia, o parto normal dói (pelo menos para todas que conhecemos), e a forma como encará-la muda de pessoa para pessoa. Minha esposa, nas primeiras horas dentro da sala de parto, ainda conseguia sorrir e até descansava no intervalo das contrações. A intensidade da dor aumentava, a Manu pedia passagem e meu coração se contorcia de compaixão, medo e ansiedade.

Depois de cinco longas horas lá dentro…eis que: aquela leoa hercúlea pedia arrego. “Quero cesárea. Não aguento mais”. Pronto, minha expectativa desabou, minha força ruiu, e eu aproveitei uma ida dela à ducha para chorar (copiosamente). Eu, até então controlado, me descontrolei…me isolei…chorei…chorei.

Nessa hora a Dra foi um anjo na vida da minha família! “Calma, é normal. Todas elas pedem cesárea”, ela me disse. E ainda me fez lembrar que a minha mulher sonhava com um parto normal desde ainda adolescente, e que se eu não desse a força e o suporte necessário ela não conseguiria. Apesar da dor, mãe e filha estavam sendo bem cuidadas. Monitoradas de minuto a minuto. Parece que ali minha contagem recomeçou…o tempo não passava.

A ansiedade já era incontrolável, pelo menos eu e o fotógrafo (o Igor que teve uma postura profissional rara e invejável) pingávamos expectativa. Minha mulher era só dor, a doula tentava aliviar aquele sofrimento e a médica nos tranquilizava ao agir com uma naturalidade e paz tibetana. “Se ela ainda está calma, deve estar tudo bem. Força, amor! Você consegue. Nossa filha está vindo pra mudar nossa vida”, devo ter dito isso ou algo do tipo.

Com dilatação, a bolsa ainda não havia estourado…a ‘anja’ precisou ajudar. Encostar na minha mulher doía em mim. Passava de cinco da manhã, e a família continuava na sala de espera, que naquele momento já era sala do desespero. Boa parte deles só tinha experimentado partos cesárea, e aquela demora de seis horas de dor e sofrimento era mais do que podiam suportar ou imaginar. Eu tentava, na medida do possível, mandar whats avisando do andamento. Mas, nas últimas horas minhas mensagens cessaram e minha energia era toda de apoio àquela mulher forte, guerreira e obstinada na minha frente.

Exatamente às 5h23, quase seis horas e meia dentro da sala de parto nossa prova de superação (muito mais da mulher, é obvio) chegou ao fim. Aos poucos ela foi aparecendo (não queria ver a cabecinha saindo. Não consegui), e quando saiu nos braços da médica…puuuufffff…alguém descarregou o piano de nossas costas.

Nunca vou esquecer que exatamente após nascer, a bebê foi para o colo da mãe e num instinto animal, natural e fenomenal, ela mamou (pelo menos tentou). Estava pronta. Formada para enfrentar o mundo e mudar nossa história. E ali eu precisei me dividir entre minha filha e minha mulher, pela primeira vez na vida eu amei duas mulheres com toda força do coração.

Como nem tudo são flores nossa saída da sala de parto foi ‘dificultada’ por uma profissional inexperiente que não entendia nada de humanização que atendeu a bebê assim que ela nasceu. Mas, eu nem quero me prolongar nessa historia (que nem sabe uma nova série sobre humanização ou as aventuras da ‘paternagem’).

O que vale ficar registrado nessa última parte do relato, é que a criança mais linda do mundo nasceu. O amor se fez carne e habitou na minha casa, às vezes dorme na minha cama. Eu dou banho, limpo, troco, visto e alimento o amor…a paternidade é uma experiência que transforma um ser humano para sempre…(quem sabe um dia continuo).

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