Barracos das favelas escondem desempregadas, principais vítimas da crise

Desemprego atinge mulheres 2x mais que os homens

O ano de 2016 consolidou a crise econômica no Brasil. Em Campo Grande, ela tem um de seus reflexos na moradia. Isso porque, a crise e o desemprego acompanharam o aumento de ocupações irregulares na cidade, em terrenos públicos – sob gestão da Prefeitura – ou privados. Os vazios urbanos ocupados tem elas na linha de frente. Mães solteiras, arrimos de família, avós, as mulheres são maioria e estão envolvidas de maneira mais direta nas "invasões". As ocupações dispararam em Campo Grande. Um levantamento da reportagem indica cerca de 20, 15 delas já consolidadas e com mais de 50 barracos. Escondido atrás das estruturas precárias de madeira, está um dos fantasmas da crise: o desemprego.

O IBGE divulgou dados recentes sobre o emprego no Brasil. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mostra que há um contingente de 24,3 milhões de pessoas desempregadas ou subutilizadas em todo o país. As mulheres, ainda assim, foram atingidas duas vezes mais pela falta de postos de trabalho, de acordo com o IBGE. Elas respondem por uma taxa de desocupação de 13,8% no 4º trimestre de 2016. A dos homens é de 10,7%.

Apesar de Mato Grosso do Sul ter fechado janeiro com um saldo positivo de empregos pela primeira vez em dois anos, o IBGE mostra que elas ainda são minoria nas taxas de ocupação. De uma amostra de 1000, as mulheres responderam por uma taxa de 566, frente à 770 dos homens. Elas também ocupam 55,6% dos trabalhos formais, em contrapartida aos 64,1% dos homens. Em meio ao cenário já desigual, a crise trouxe uma enxurrada de demissões.

Edmara Moura Batista, 26, é um dos rostos que se escondem em uma das duas ocupações do Jardim Panorama. Os conjuntos são chamados de "Drama", um trocadilho da população em face do luxuoso condomínio Dahma, próximo da região. A jovem mora no bairro desde os 10 anos. É sozinha que ela cuida da filha pequena. O ex-companheiro, conforme explica, não se responsabiliza e tem "um monte de filhos". Edmara trabalhava em uma empresa de serviços geais e foi então que o "corte de pessoal", o "economizar um pouco", nas palavras dela, ocorreram. Edmara foi demitida.

A jovem, então, foi trabalhar como doméstica "em uma casa de família" no residencial Dahma, para uma família de políticos notórios de Mato Grosso do Sul. Depois alguns dias, foi demitida novamente. "Era invadir ou morar debaixo do viaduto", conta ela.

"É só eu e ela. O pai, assim, quando pode ajuda com alguma coisinha porque tem vários outros filhos. Porque é escola, roupa, calçado, remédio. Estou correndo pra tudo que é lado, corre pra um lado, corre pra outro, andando atrás de serviço. O que eu estou conseguindo ainda é uma cesta básica que eu comprei, que está mantendo a casa", conta ela.

 

 

 

Sem emprego, construindo com 'lixo'

Toda a ocupação, que fica entre a Rua do Átomo e a Rua Maria Pólvora Braga, têm 50 famílias e 77 barracos e ocorreu em setembro de 2016. Ela é, na verdade, fruto do lixo. Isso porque o que é lixo pra alguns e formava pilhas gigantes no interditado lixão do Jardim Noroeste, virou uma ocupação. Os telhados, as madeiras, até as privadas de algumas casas foram colocadas ali à partir do lixo. É o que contaram as mulheres.

"Ah, agora a gente vai entrar em uma análise, quando puder, eu te ligo". "Agora a gente não está precisando, mas quando puder eu ligo no seu telefone. Vou dar uma avaliada no seu currículo, aí eu te chamo", são algumas das coisas ouvidas por Edmara. A jovem avalia que, para as mulheres, a crise é pior, para ela, é o "preconceito", na hora do emprego.

Sobre o futuro, ainda espera um mundo melhor. "O que eu penso é que esse mundo tem que melhorar, um mundo melhor, um futuro melhor. Chega disso, não precisa disso não".

Ocupação e invasão são duas palavras que dependem apenas do ponto de vista. As duas, são, também, mulheres: palavras do gênero feminino. Ali no Jardim Panorama, um dos "dramas" foi levantado por uma mulher.

"Morava no bairro, de aluguel. Cuidar dos dois filhos sozinha, pagar água, luz e aluguel não dá né. Estou desempregada, está difícil de arrumar emprego. Eu era auxiliar de produção em fábrica de queijo", conta Roseli, que abriu o mato com facão para levantar o primeiro barraco e foi seguida por outras mulheres. Ela foi demitida da fábrica de queijo onde trabalhava na Capital, mais uma empresa que justificou a demissão como "corte de gastos".

"E agora sou diarista, lavo umas roupas quando dá. Com certeza [ mais dificil] porque não tem estudo, não tem um curso, não tem um nada", avalia ela, sobre a dificuldade de ser mulher.

Para ela, ser forte é uma consequência de ver a necessidade. "Por você ver as pessoas passando necessidade e não terem condições de pagarem um aluguel, falei: 'vamos entrar mesmo'". Com relação ao estigma de invasora ela declara "não dar ouvidos". "Porque eles precisam, se não precisassem não estaria aqui".

Giovane, 47, é mãe, avó, esposa e, atualomente, desempregada. No barraco, ela vive com o marido, um idoso de 78 anos, e os dois netos. "Eu morava de aluguel, em uma residência bem ali, quase todo mundo que ocupou morava de aluguel aqui na região. O aluguel aqui está puxado. Está R$580, R$500, uma kitnet é R$ 500. Eu no momento não trabalho, só o meu esposo", conta ela, que trabalhava como auxiliar administrativa. 

"Perdi o emprego uma época atrás, aí os netos chegaram. Ou você paga pra cuidar dos netos ou vai atrás de trabalho". "Meu marido ficou desempregado em agosto, e ele já é um ancião, está com 78 anos e só o salário da aposentadoria não dava pra pagar o aluguel, que era R$ 480. R$ 200 tava vindo de água, mais R$ 120 de luz, não estava tendo condições. Aí surgiu de todo mundo entrar: 'vamos entrar'. E essa área é uma área que a gente sabia que é da Prefeitura e é uma área que, segundo eles, é destinada para construção de praças, mas já tem mais de 20 anos que estava vazia, criando mato. Agora está limpo até, mas era um mato, que você precisava ver", conta.

"Aquela ali que foi lá, é professora da creche, pra você ver como não dá o salário", complementa, apontando pra uma das mulheres no local. "Olha a lista de moradores que temos, é gente pra dedéu. Tá, é dos outros, a gente sabe que é, mas nada nesse mundo é nosso, o que é nosso nesse mundo? nada". 

"Foi um ano, e está, cada dia que passa, tão difícil, o desemprego que você opta: ou você estuda, ou você come, ou você mora".

Para ela, a "graninha" extra do aluguel sigifica "uma alimentação melhor pros meus filhos e pros meus netos e talvez a realização de um grande sonho". O sonho é juntar o dinheiro para financiar uma casa. "Não digo pra você que eu vou conseguir, mas pelo menos eu vou chegar perto. Porque eu posso economizar pra ter pelo menos, sabe? Muitas aqui tem, essa inscrição, eu não tenho. Eu lutei e sempre tentei comprar uma caa, mas sempre foi impossível porque o valor não dá. Pelo menos eu ganhando tempo de um ano, pelo menos, já é uma entrada de alguma coisa e se ele resolver que vai construir e lotear aqui. Eu já tenho uma entrada".

 

Uma das favelas 'Drama' no Jardim Panorama, que começou com a iniciativa de uma mulher (Luiz Alberto)

 

 

 

Ainda no Jardim Panorama, o "drama" continua. Outra ocupação, que começa na Rua Londrina, tem mais de 100 famílias e um número superior de barracos.

Uma das moradoras do local, Crislaine é catadora e morava de aluguem no bairro Maria Aparecida Pedrossian. O terreno ocupado, sob gestão da Prefeitura, "estava só juntando mato", de acordo com ela. "E a gente já tinha feito cadastramento na Emha e não tinha ganhado casa. Estou sem emprego, a gente trabalha com reciclagem né, aí eu que fiquei sem emprego".

Maria "comprou" um barraco no local – prática que ocorre muitas vezes, de pessoas que ficam nos locais apenas uns dias, para vender a estrutura -. A decisão surgiu após a falta de trabalho do marido, que é pedreiro. Ela, conforme explicou, trabalha como empregada doméstica em uma casa no bairro Carandá. "Estava difícil, porque meu marido está desempregado né, só eu que estou trabalhando. Ele é pedreiro e não está tendo muito serviço", relata.

Cidade dos anjos

A ocupação de mais de 4 anos no bairro Jardim das Hortências está próxima do fim. As 43 famílias que vivem hoje ali (o local já abrigou mais de 300) irão, finalmente, ser realocadas para a casa própria no Jardim Canguru. A "Cidade dos Anjos" como é chamada, já foi palco de um protesto que surgiu a partir da solidariedade entre as mulheres – a sororidade -. Juliana da Silva Fernandes, então com 26 anos, foi assassinada pelo ex-marido, Michel, que vai a júri popular por feminicídio nesta sexta-feira (10).

O assassinato motivou a queima de pneus, cartazes e um pedido de ajuda desesperado pelas mulheres da favela. Ela pediam um basta na violência de gênero. 

Hoje, elas preparam-se para deixar a história para trás.

É o caso da jovem Kamilla, de 23, que foi hoje está desempregada após ser demitida de uma rede de supermercados, onde trabalhava como repositora. "Foi sofrido né. Foi chuva, calor, bicho", contou ela. "Está difícil, em, Deus me livre", comenta, sobre a tentativa de arrumar emprego. "Pro homem é mais fácil ter as coisas, pra mulher é mais difícil", pontua ela.

Foi trabalhando como autônoma, ao vender balas, algodão doce e "de tudo um pouco", que Cristiane, a primeira moradora da Cidade dos Anjos, encontrou uma solução para o trabalho. Para ela, além disso, o trabalho informal permite estar mais próxima dos filhos, por conta do horário flexível.

"Olha, 90% é mulher. Mãe solteira, né". "A mulher, quando separa do homem, ela carrega os filhos. E tem aluguel, água, luz, mantimentos, pra mulher é mais difícil", pensa ela.

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