Apesar da fama de ‘fria’, Campo Grande acolhe estrangeiros como uma mãe

As novas comunidades e as histórias de seus integrantes na Capital

Em Campo Grande, a existência de várias comunidades de imigrante que vieram para trabalhar é conhecida e suas culturas sobreviveram ao tempo, se fundindo no estilo de vida do campo-grandense. O tradicional sobá, por exemplo, é uma comida conhecida por quem é daqui, mas causa estranheza para que não tem tanto contato com a cultura japonesa.

Há algum tempo, novas comunidades estão crescendo na Capital, transformando novamente a cultura local. Os imigrantes estão vindo para buscar uma vida melhor e isso se faz através de estudos e trabalho ou simplesmente para viver sem o medo de uma guerra na porta de casa.

No Brasil, são 9.552 refugiados reconhecidos, segundo o balanço até dezembro de 2016 do Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgado pela Acnur (Agência da ONU para os Refugiado).

Em Mato Grosso do Sul, as únicas informações sobre o número de imigrantes, refugiados e apátridas são da Polícia Federal e datam de 2015, registrando 13 mil estrangeiros no total. Os dados são a base do Cerma-MS (Comitê Estadual para Refugiados, Migrantes e Apátridas no Estado de Mato Grosso do Sul).

Muitos não sabem, mas há três comunidades que estão crescendo na Capital, criando raízes que irão permear a cultura da cidade em pouco tempo. Em todos casos abaixo, o campo-grande é visto como um povo acolhedor e gentil com quem está começando do zero.

Campo Grande como cidade acolhedora

É em uma das casas simples do Rita Vieira, região sudoeste da Capital, que vive casal de imigrantes das novas colônias. Na bagagem, a coragem para buscar uma nova vida e a saudade dos filhos que estão na República Dominicana, país vizinho do Haiti. Geremy Batista chegou há 3 anos na Capital, passando antes por São Paulo e Rio Grande do Sul. “Eu sempre conversava com um amigo que eu tinha aqui, ele que me influenciou e decidi vir para cá”, disse, explicando como trocou uma cidade por outra ao chegar no país.

O pedreiro de 38 anos chegou ao Brasil pela rota ilegal, passando pelo Equador e Peru para chegar ao Rio Branco, no Acre. “Quando você chega lá na fronteira, dão um carimbo no seu passaporte. Daí você vai na Polícia Federal que te dá um protocolo que é um processo de residência e permanência”, contou. A permanência foi de 1 mês na cidade e, segundo Batista, não houve resistência nenhuma por parte dos brasileiros.

Apenas um ano depois, a esposa de Geremy, Finose Joseph, 32 anos, camareira, também se aventurou pela mesma rota. De Rio Branco, ela já veio direto para Campo Grande. Tanto ele como ela vieram sozinhos e acabaram encontrando no meio do caminho outros haitianos que se ajudaram para chegar até o Brasil. “Quando chegava na fronteira, os brasileiros recebiam a gente de braços abertos”, contou Batista.

Mas, apesar de superar as dificuldades da vinda, o casal que está junto há 8 anos enfrenta também a saudade dos filhos. “Tenho muita saudade do meu filho”, explicou. Hoje, legalizados, ambos querem construir sua vida com a família toda reunida. O filho do casal por exemplo, que tem 4 anos, está na República Domicana.

E para o futuro? “Trazer meus filhos, trabalhar, guardar dinheiro e comprar minha casa”, contou Batista, pai de 6 filhos e ela, de 3.

Muitos não sabem, mas o Rita Vieira é um dos bairros que reúne o maior número de haitianos na cidade. Vivendo em Campo Grande desde 2014, Wadner Absalon, 28 anos, é estudante de letras e presidente da Associação Haitiano Brasileira no município.

O universitário contou que há uma comunidade no bairro Rita Vieira, porque há algum tempo o lugar era uma terra de oportunidade. “Teve muito trabalho [no bairro], sobretudo na construção civil. Muitas pessoas vieram para cá, principalmente homens que depois trouxeram as esposas. Foi crescendo o número de pessoas” explicou. 

Absalon explicou que com o trabalho dos haitianos no bairro, se fez necessário dar suporte para que eles pudessem viver com os brasileiros. “Um casal fazia um projeto de dar aulas para os haitianos aprenderem a falar português. A primeira barreira que enfrentamos ao chegar aqui é a língua”, contou. A associação para ajudar os imigrantes ganhou vida em um terreno cedido pela igreja católica e é ali, desde novembro do ano passado, que a comunidade celebra sua cultura e enfrenta as adversidades.

Em uma estimativa, Absalon acredita que a comunidade haitiana em Campo Grande gira em torno de 150 pessoas porque o bairro onde fica a associação não é o único reduto dos imigrantes. “Aqui [bairro Rita Vieira], entorno de 70 a 80 pessoas. Aqui no Rita Vieira e Vila Progesso. São duas comunidades”, contou. A Capital recebe da mesma forma que se despede de muitos imigrantes pois, segundo o presidente da associação, muitos chegam para partir para outros estados, em um fluxo migratório constante.

Mesmo com a comunidade estrangeira enraizada no bairro, Absalon garantiu que nunca houve conflitos entre os povos. “Pergunta pra qualquer brasileiro aqui. Nunca aconteceu algo errado entre haitiano e brasileiro. Pode até acontecer em outro lugar, mas aqui, não. Todo mundo é uma família”, contou.

O principal motivo para que os haitianos venham para o Brasil é a oportunidade para trabalhar e estudar. E com Wadner não é diferente. “Cada um tem o seu objetivo. Tem pessoa que veio somente para trabalhar para ter depois de dois anos, uma casa. No meu caso, como sou sozinho, tenho que estudar, quero ser um bom professor. Eu acredito que sim, que eu vou ser um professor, daqui uns 4 ou 5 anos”, disse.

Exatamente por essa questão que os haitianos não são refugiados. A confusão é comum devido a uma grande vinda de imigrantes após o terremoto de 2010 no país, onde mais de 200 mil pessoas morreram, conforme dados da ONU.

Foi nesse contexto que surgiu a qualificação errônea de refugiado. “Infelizmente, o ACNUR emitiu um protocolo dizendo que eles eram refugiados, mas o Ministério da Justiça decidiu que os haitianos não são refugiados”, explicou.

Segundo a Convenção de 1951 do Estatuto dos Refugiados, são consideradas nesta condição as pessoas que saem do seu país devido a perseguição relacionada a raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais e, devido a esses motivos, não possa ou não queira voltar ao país de origem.

Recentemente, foi acrescentado uma nova condição que é a de pessoas que são obrigadas a deixa seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos. O caso se aplica aos sírios devido a guerra civil.

Campo Grande de várias culturas

A praça Bolívia, localizada no bairro Coophafe, vira palco de um show a cada segundo domingo do mês. É no meio das cores vermelho, verde e amarelo, com o som de instrumentos de sopro e um sotaque puxado que os campo-grandenses se encontram com a comunidade boliviana. Eles trazem um pouquinho da sua culinária, música e artesanato para próximo dos brasileiros.(Arquivo Midiamax/Henrique Kawaminami)

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Ingra Flores, 34 anos, é uma das organizadoras do evento, integrante do grupo T’ikaya que leva os costumes locais para a praça. O evento é celebrado há 12 anos. Ela explica que o local é uma referência para comunidade, começando por sua história. O grupo que cuidava da praça tinha um integrante boliviano. “Eles viram que tinha a necessidade de ocupar um espaço público para juntar todas as diferentes comunidades bolivianas e não só ela, mas como as outras culturas”, contou.

Flores diz que a iniciativa trouxe ainda mais imigrantes para cidade. “Eles encontraram aqui um espaço onde eles puderam relembrar e socializar com os outros residentes bolivianos e simpatizantes”, disse. Na Capital, a comunidade boliviana se espalha por várias regiões, mas, segundo Ingra, se concentra mais nos bairros Vila Popular, Jardim Aeroporto e arredores. “Tem muitos residentes que estão naturalizados aqui em Campo Grande”, disse.

Muito além da identificação cultural, a comunidade está crescendo porque muitos chegam no país com o sonho de uma formação. “Nós temos tido um grupo que está fazendo especialização ou que está tentando revalidar seu diploma para conseguir trabalhar aqui”, explicou Flores.

Muito antes desse fluxo migratório, as histórias de quem chegava a Campo Grande era contornada por outros motivos. Wilma Mônica Ayca do Nascimento, 40 anos, nascida em Santa Cruz de la Sierra, contou que chegou no Brasil aos 19 anos. Ela conheceu seu marido brasileiro ainda na Bolívia, e logo após casados, foram para o Paraná.

“Quando cheguei aqui, foi muito sofrido para mim. Tudo me lembrava minha terra. Só de ouvir uma palavra em espanhol, eu chorava porque no interior do Paraná era tudo português”, relembrou Ayca. Mesmo com o marido em solo brasileiro, ela sonhava em voltar para sua terra de origem, chegando a renegar a língua portuguesa. “Foi uma briga interna muito grande porque naquela época não havia muitos bolivianos”, disse. Aos 23 anos, ela e o marido chegaram em Campo Grande.

Mônica enfrentou um obstáculo extra em sua vida. Pouco tempo depois, ela acabou se separando e enfrentou um país praticamente novo sozinha. “Eu nunca fiz curso, comecei a ler muitas revistas para aprender o português”, contou. Economicamente, ela já tinha uma base estabelecida, o que a ajudou a formar em enfermagem. Atualmente, ela é servidora municipal após ter atuado na sua área passando inclusive pelo maior hospital do Estado, a Santa Casa.

A reação do campo-grandense na época em que Ayca chegou, há mais de 14 anos atrás, era de estranheza. “As pessoas pensavam que eu tinha descendência japonesa por ter os olhos puxados. Mas a receptividade foi muito boa”, comentou. Apesar das saudades de sua terra, Mônica tem orgulho de ser campo-grandense. “Minhas raízes estão aqui. Não trocaria Campo Grande por nada. Quando vou para lá [Bolívia], sinto falta da nossa terra” disse.

Campo Grande como um lugar seguro

Mariam* está segura agora. Mas ela não se sente segura de verdade. O medo acompanhou ela e sua família por 2 países até chegar ao Brasil e ainda assombra sua rotina. A pedido dos entrevistados, esta matéria não terá fotos da família e nem a identificação das pessoas, pois elas temem por seus familiares que ficaram na Síria.

Há 3 anos e meio, ela, o marido e os filhos chegaram em Campo Grande por intermédio de um parente que contou sobre a Cidade Morena para eles. É nesta nova terra que nada lembra o Oriente Médio em sua cultura que a família tenta recomeçar. Trata-se de uma família de refugiados.

Com ajuda de uma interprete durante a entrevista, Mariam contou que todos vieram juntos da Síria, fugindo da guerra civil que se iniciou em 2011 e já contabiliza números terríveis: a ONU estimava, em 2014, que o número de vítimas chegava a 250 mil, mas agências de notícias falam de mais de 400 mil, citando inclusive a Anistia Internacional, órgão que faz relatórios denunciando crimes de guerra.

Em março deste ano, a ACNUR informou que há 5 milhões de refugiados espalhados pelo Egito, Líbano, Jordânia, Turquia e Iraque, conforme a imprensa. E o conflito segue longe de ter um desfecho.

O caminho para sair de Damasco, capital do país, começou após um ataque químico com utilização do gás sarin, em 2013. Foi ali que a família percebeu que era hora de deixar sua casa. Eles fugiram para o Líbano, país que abrigava alguns parentes do marido, passaram pelo Catar para pedir o visto humanitário para o Brasil, e passaram 14 horas de voo para descer em São Paulo, antes de finalmente desembarcarem na Capital do Estado.

A escolha do país? “Era o único que tinha as portas abertas”, disse Mariam. Embora a Europa tenha se tornado um grande porto onde os imigrantes chegam após travessias perigosas pelo mar, os países do velho continente não tinham ‘aberto’ suas portas realmente para atender as pessoas que chegavam na costa.

O marido de Mariam, Mohammad*, inclusive, chegou a viver de perto o terror de uma guerra civil. Antes de iniciarem sua fuga, Mohamed chegou a ser preso pelo exército sírio que esperava arrancar informações dele. Em seu cárcere, apanhou, antes de conseguir pagar um valor estipulado para sair.

No novo país, tão conhecido por sua miscigenação, à adaptação a nova cultura às vezes tem seu lado contraditório. “Tem gente que gosta, tem gente que não”, disse Mariam. Ela relatou um episódio que aconteceu na Orla Morena, conhecido ponto de lazer da cidade, quando passeando com a família, ouviu comentários hostis a sua presença no local. “Eles disseram ‘vai embora, voltem pra sua terra, Brasil não quer vocês’. Mas Campo Grande é boa. Poucas pessoas dizem que não [nos] querem”, contou.

A situação da família está complicada, pois desde sua chegada, não há uma infraestrutura real para receber os refugiados. Mohammad trabalha com a venda de mercadorias para manter a família, mas nem sempre o retorno é imediato.

E diferente do que muitos pensam por ver vários restaurantes de culinária síria se alastrando pela cidade, não é tão simples viver das iguarias. Mariam tentou, mas não adquiriu a clientela. “As pessoas comiam, não queriam pagar pela comida”, relembrou.

Mesmo sem os clientes e o triste episódio de discriminação em um município que tem em sua mistura étnica e cultural árabes, paraguaios, japoneses e outras etnias, a síria ainda vê com bons olhos a cidade que lhe acolheu da guerra. “Quanto mais a gente vai ficando, mais a gente vai gostando daqui”, pontuou.

Najah Jamal Daakour Barakat, 41 anos, é bacharel em Direito além de ser voluntária que acompanha a família e imigrante libanesa, que sentiu na pele como é se adaptar em um país totalmente diferente. Para prestar sua assistência, ela faz pesquisas sobre o assunto e acompanha a maioria dos refugiados na Capital.

Vivendo há 27 anos na Capital, ela conta que a comunidade árabe se concentra na região da Vila Planalto devida a única mesquita da Capital. “A comunidade comprou uns 4 lotes e construiu a mesquita ali, isso há mais de 30 anos. Campo Grande não era como era hoje, não tinha a população que tem hoje” contou.

Os grandes atrativos para a escolha do local foram o sossego e a proximidade com a região central da cidade. Nas redondezas, se instalou uma boa parte da comunidade árabe em geral. O número de refugiados sírios na cidade, segundo Najah, é de 47 pessoas, conforme os dados que ela pesquisou junto da Polícia Federal neste ano. Mas ela esclarece que este é o número ‘legal’ e que de fato, pode haver mais.

Sua vida em Campo Grande foi definida em uma única frase. “Toda minha vida foi aqui, toda minha vida é aqui e vou continuar aqui”.

* Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

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