Cotidiano

'Sinto que falo sozinho', desabafa médico sobre queixas de pacientes com Covid em hospital de Campo Grande

Relatos vão de pacientes que contraíram Covid-19 em festas ou que preferem ‘kit covid’

Karina Campos Publicado em 06/04/2021, às 10h10 - Atualizado às 10h15

Durante plantão, médico precisa lidar com falta de empatia.
Durante plantão, médico precisa lidar com falta de empatia. - (Foto: Reprodução/Facebook)

“Oriento isolamento. Sinto que falo sozinho”. Este é o desabado do médico Rotterdam Pereira Guimarães, que diariamente precisa cuidar de pacientes com Covid-19, em Campo Grande, e lida com pessoas que contraíram a doença em festas, que preferem o ‘kit covid’ ou que não acreditam na pandemia.

O desabado do profissional, divulgado nas redes sociais, começa relatando a lotação no hospital particular. Guimarães trabalha na linha de frente de combate ao coronavírus. Mesmo há mais de um ano pandemia, narra as dificuldades vividas nos setores de internação em uma.

“Fulano teve contato com amigo na festinha de aniversário, que testou positivo, e exige realizar o teste pois mora com a mãe que é diabética. Beltrano começou com sintomas há dez dias, mas foi na farmácia e ‘na parceria’ conseguiu comprar azitromicina, não melhorou, e ainda ganhou uma reação. Perdeu o prazo de coletar o RT/PCR, não fez isolamento, não foi orientado. Quantos pode ter contaminado? ”, disse.

Além das questões da tristeza em que a doença devasta, como a morte de um ente querido ou da necessidade de intubação, o médico narra a fala de pacientes que desacreditam no cenário da pandemia.

“Cicrana teve febre, dor de garganta, não sabe se é gripe ou foi do sol que pegou no final de semana no banho de piscina. Quer atendimento prioritário, pois febre é urgente, briga com a equipe, fala alto. Exige o ‘kit covid’, tratamento precoce para não ser intubada. Explico que a única garantia para não piorar é não se contaminar. Oriento isolamento. Sinto que falo sozinho”, desabafa.

São meses em que profissionais da saúde lidam com o cenário devastador e mesmo passando por situações como essas diariamente, ainda questionam a falta de empatia de pessoas que contraíram a doença.

“Sinto que nesses últimos meses o que mais faço é falar sozinho, é pedir socorro para uma população que nega uma pandemia, e banaliza as mortes dizendo que ‘morreu por que era idoso’, ‘morreu por que tinha problemas de saúde’, ‘morreu por que já ia morreu’. Na verdade, o que mais estou internado jovens e pacientes na meia-idade. Eu digo: meu Deus, quando foi que perdemos a empatia? ”

Por fim, o médico faz um apelo para que moradores respeitem o isolamento e se cuidem ao máximo, pois “... no meio de tudo isso, dona Maria espera sua consulta para renovar a receita dos remédios da diabetes. Sai do hospital com a receita e com o vírus. Vai precisar de internação, oxigênio, UTI. Vai usar o kit milagroso, vai rezar, vai se despedir. A família não vai aceitar, ela não saia de casa desde janeiro. Um velório de caixão fechado. Enquanto fulano, beltrano e cicrana, seguem dizendo nas suas redes sociais que sobreviveram ao Covid, e que nem foi tudo que a mídia diz, que querem causar pânico, que a vacina é parte de um plano para mudar nosso DNA” finaliza.

Jornal Midiamax