Cotidiano

Sequelas por toda vida: complicações do coronavírus vão além da alta hospitalar

Perda dos movimentos e problemas respiratórias podem durar a vida toda

Ranziel Oliveira Publicado em 01/04/2021, às 17h31

Início da sessão de tratamento pós-Covid
Início da sessão de tratamento pós-Covid - (Foto: Ranziel Oliveira / Jornal Midiamax)

As consequências da irresponsabilidade social de cada indivíduo afetam o coletivo de forma direta. Em Campo Grande, o sofrimento com o coronavírus vai além da alta hospitalar, prolongado durante todo o tratamento pós Covid-19 com sequelas neurológicas e respiratórias, que podem durar dias ou até a vida toda.

Lidando com vírus, é preciso entender que seu nível de intensidade e manifestação pode variar em cada pessoa. É o que explica o fisioterapeuta Daniel Martins Pereira, Doutor em Saúde, Pós-Graduado em fisioterapia pulmonar e docente há 20 anos. A doença pode causa sequelas neurológicas, cardíacas, vasculares, e musculoesqueléticos, afetando de forma variada esses sistemas.

No pós Covid-19, os pacientes podem ser divididos em dois grupos. O primeiro, corresponde a 60% das vítimas que ficam na fase 1, onde as sequelas são leves e não demandam grande esforço na recuperação.

[Colocar ALT]

Fisioterapeuta Daniel Martins Pereira (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Já os outros 40 % correspondem a fase 2, esses podem ter sintomas que podem durar até 30 dias. Com fortes indicativos de fraqueza muscular, dificuldade para fazer exercício, sensação de cansaço, e até afetar o equilíbrio.

“Na minha história nunca passei por algo assim. O Covid-19 veio pra quebrar um monte de conceitos. Uma pessoa pode não ter nada e a outra ter o corpo devastado pelo vírus. A nova variante tem afetado pacientes mais jovens e de forma mais grave”, explicou Daniel.

Com a internação, o paciente que passa pelo processo de sedação e posteriormente entubado, tem maior chance de desenvolver disfunções.  O fator coronavírus  + hospitalização gera um aumento expressivo no número de mortes, durante a internação e o pós-hospitalar .

“O tempo de vida dessa pessoa pode sofrer interferência, como se perdesse créditos de vida. Cada dia internado pode fazer você perder até 10% da massa muscular, com o Covid-19, isso aumenta. O paciente pode ter sequelas por até um ano”, explicou.

Perda dos movimentos 

Além dos idosos, entre 50 e 70, o fisioterapeuta notou um aumento de pacientes mais jovens, entre 30 e 40 anos. Com variação entre casos de recuperação leve com o paciente fisicamente ativo, até o completamente disfuncional.

 “Disfunção instalada: Se eu tenho perda de força eu não consigo vestir minha calça, lavar uma louça e isso é uma disfunção, são atividades da vida diária afetadas diretamente. Até o completamente disfuncional, que não anda  e ainda tem problemas respiratórios. Tem pacientes que chegam em cadeiras de rodas com dificuldade respiratória”, explicou.

Em alguns casos, as sequelas neurológicas podem levar a perda transitória ou definitiva dos movimentos, devido ao tempo parado na cama do hospital. Tempo compresso e medicação são um dos fatores que podem influenciar nessa sequela neurológica. 

Não coseguia beber água 

Para quem ficou entubada por dez dias, estar viva hoje tem um sentimento de milagre.  É o que afirma Magda Braz Alves, de 55 anos, Presidente da rede feminina de combate ao câncer. A mesma deu entrada no dia 24 de fevereiro e no dia seguinte necessitou de entubação. “Sou um milagre vivo, é muito assustador. Lembro de coisas no final da sedação, a retirada do tubo é dolorosa, cheguei a chorar”, disse ela..

[Colocar ALT]

Magda não conseguia pentear o cabelo (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Ela saiu no dia 11 de março e no dia seguinte procurou o tratamento pós-covid, pois não conseguia ser realizar o simples ato de andar sozinha.  “Sempre fui uma pessoa ativa, fazia academia. Quando sai do hospital estava com força muscular zero, não levantava um copo de água na boca”, explicou Magda.

Durante a internação, ela chegou a ficou com 50% do pulmão comprometido. E até hoje, sente dores pelo corpo. “Parece que um caminhão passou em cima de você, você caminha um pouco e quer sentar. Ando, mas não sinto as pernas e os pés”, detalhou.

A recuperação foi gradual, a paciente chegou de cadeira de rodas no primeiro dia de tratamento, passou par o andador, e agora está na bengala. Durante três vezes na semana, ela  realiza sessões com duração média de 45m há 1h, praticando cerca de 6 a 8 exercícios, com 3 séries de 10 inicialmente.

Por fim, ela deixa um recado para quem ainda não entendeu a gravida da doença. “Respeitem [as regras de biossegurança], porque quando o familiar estive internado virá o sentimento de culpa. Você não vai morrer se não for em uma festa, você só assusta quando chega na sua família”, finalizou Magda.

Jornal Midiamax