Cotidiano

Para quem fecha ciclo da morte em Campo Grande, aprendizado da pandemia é dar valor ao ‘eu te amo’

A única certeza no curso da existência humana é a morte, e no meio do crescente número de vítimas do coronavírus em Campo Grande, os responsáveis por finalizar o ciclo sentem na pele a alta demanda de enterros na cidade. Entre os coveiros que atuam no cemitério São Sebastião, mais conhecido como Cruzeiro, o aprendizado […]

Ranziel Oliveira Publicado em 11/03/2021, às 07h53 - Atualizado às 13h23

Cova no cemitério São Sebastião (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)
Cova no cemitério São Sebastião (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax) - Cova no cemitério São Sebastião (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

A única certeza no curso da existência humana é a morte, e no meio do crescente número de vítimas do coronavírus em Campo Grande, os responsáveis por finalizar o ciclo sentem na pele a alta demanda de enterros na cidade. Entre os coveiros que atuam no cemitério São Sebastião, mais conhecido como Cruzeiro, o aprendizado diário é de valorizar o ‘eu te amo’.

Enquanto concretava uma cova, o coveiro Evandro Regis, de 34 anos, detalhava a rotina de lidar com o clima de tristeza e o aumento no número de enterros. “Aqui enterramos bastante gente com Covid e você acaba trabalhando mais, tirando isso continua na mesma”, disse ele.

Após quatro anos na profissão, aprender a separar trabalho e rotina de casa é uma tarefa necessária par manter a tranquilidade na hora de dormir, entretanto, alguns momentos conseguem perfurar qualquer ‘armadura emocional’. “Eu não pego [essa tristeza] para mim, mas Covid não abre caixão, não tem despedida. Eu também penso na minha família, penso que vai chegar minha vez, às vezes você se coloca no lugar”, explicou Evandro.

Para quem fecha ciclo da morte em Campo Grande, aprendizado da pandemia é dar valor ao 'eu te amo'
Coveiro carregando concreto (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Depois de anos abrindo covas e presenciando a dor de familiares, Evandro passou a observar o comportamento das pessoas e suas palavras antes da última despedida.  “Alguém falou eu te amo hoje? As pessoas têm que falar enquanto [os parentes] estão vivos, chegou aqui já era. Já vi gente brigar por herança e sair na porrada no cemitério. Eu só penso em fazer o bem na terra porque estamos de passagem”, finalizou.

Com cerca de um mês no empego, José Eduardo, de 35 anos, também busca uma estratégia mais profissional para lidar com o aumento de enterros. “Aumenta a demanda, mas o modo de agir vai ser o mesmo, o negócio é se adaptar. Você tem que ficar mais neutro, se agarrar à carga emocional negativa, você não consegue empenhar a função”, explicou José.

Mesmo buscando distinguir as situações, nem sempre a balança encontra um equilíbrio e as emoções vêm à tona durante o enterro. “Às vezes abala e você se afasta da família. Com o passar do tempo você vai lidando com profissionalismo, se você for acumular aí não tem condições, tem que saber separar”, finalizou ele.

Para quem fecha ciclo da morte em Campo Grande, aprendizado da pandemia é dar valor ao 'eu te amo'
No cemitério Cruzeiro, enterros de vítimas de Covid-19 ocorrem com frequência (Foto: Leonardo de França, Midiamax)

Com mais de 19 anos no setor, o encarregado Marcos da Silva, de 41 anos, ressalta que é necessário se adaptar para lidar com o trabalho e fazê-lo da melhor maneira. “O ser humano se adapta com qualquer ambiente, acaba virando uma rotina. Não é que a gente fica frio, você tem que fazer seu serviço e fazer o próximo atendimento”, detalhou Marcos.

Em algum momento da carreira, o emocional acaba abalado pela rotina melancólica, porém, Silva busca concentração e entregar o melhor do seu trabalho. “Você vai ficar triste, mas precisa de concentração no serviço para tender a família da melhor maneira possível, querendo ou não vai estar amenizado o sofrimento”, finalizou.

Mais covas em Campo Grande

Conforme o secretário Rudi Fiorese, titular da Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos), a grande maioria dos enterros em Campo Grande é realizada em cemitérios particulares, nos públicos, o número de funerais gira em torno de 15% do total realizado da cidade.

“Houve um aumento na demanda dos cemitérios públicos, mas nada que comprometa a operacionalidade das equipes. Temos feito os sepultamentos de forma normal”, explicou o secretario.

Para evitar um possível colapso nos enterros públicos, o gestor afirma que o cemitério do Cruzeiro receberá 1.000 novas vagas até o final de abril.

“Tinha um espaço que não estava sendo utilizado, tínhamos o planejamento de ampliar no segundo semestre. Resolvemos nos antecipar para não correr risco de não ter espaço, antecipamos um pouco por causa da Covid, houve um aumento no número de óbitos”, finalizou Fiorese.

Para quem fecha ciclo da morte em Campo Grande, aprendizado da pandemia é dar valor ao 'eu te amo'
Mais covas serão abertas até o fim de abril (Foto: Leonardo de França, Midiamax)
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