Cotidiano

Cidade de MS terá 6 comprimidos de ivermectina por pessoa, ineficaz contra covid segundo o próprio fabricante

A Prefeitura Municipal de Rio Verde de Mato Grosso, a cerca de 200km de Campo Grande, afirmou que deverá gastar cerca de R$ 30 mil para aquisição dos comprimidos de ivermectina, que serão distribuídos na rede pública a partir da próxima semana. A assessoria do município destacou que, apesar da previsão inicial de compra de […]

Guilherme Cavalcante Publicado em 26/03/2021, às 12h17 - Atualizado em 27/03/2021, às 07h36

Ivermectina, medicamento sem comprovação contra covid que será usado em cidade de MS | Foto Ilustrativa | Reprodução
Ivermectina, medicamento sem comprovação contra covid que será usado em cidade de MS | Foto Ilustrativa | Reprodução - Ivermectina, medicamento sem comprovação contra covid que será usado em cidade de MS | Foto Ilustrativa | Reprodução

A Prefeitura Municipal de Rio Verde de Mato Grosso, a cerca de 200km de Campo Grande, afirmou que deverá gastar cerca de R$ 30 mil para aquisição dos comprimidos de ivermectina, que serão distribuídos na rede pública a partir da próxima semana. A assessoria do município destacou que, apesar da previsão inicial de compra de 120 mil comprimidos, o município só conseguiu adquirir, inicialmente, 80 mil unidades da droga.

O município também pontuou que já havia estoque do medicamento cujas compras teriam sido iniciadas ainda em janeiro. Todavia, o Jornal Midiamax não encontrou no Portal da Transparência procedimentos licitatórios que comprovassem as compras anteriores. A assessoria também não destacou o nome do fornecedor das doses anunciadas.

O anúncio da distribuição de ivermectina aos munícipes ocorreu na noite da quinta-feira (26), pelo vice-prefeito, Réus Fornari, em uma reunião realizada pela Associação Comercial de Rio Verde no Plenário da Câmara Municipal. A situação causou estranhamento no estado, já que o medicamento não tem eficácia comprovada no combate ao covid. Até mesmo o laboratório que produz a ivermectina, a farmacêutica Merck, destacou a falta de indícios quanto a eficácia da droga contra a covid.

A indicação da Ivermectina é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro e compõe o chamado “kit-covid”, composto por cloroquina (ou hidroxicloroquina), azitromicina e ivermectina. O Ministério da Saúde endossa o uso dos medicamentos como alternativa eficaz para supostamente prevenir casos graves da doença que já matou 300 mil brasileiros desde o início da pandemia.

Com população estimada em cerca de 20 mil habitantes em Rio Verde de Mato Grosso, os 120 mil comprimidos resultam em uma média de 6 comprimidos para cada morador da cidade. o medicamento é um conhecido antiparasitário, que tem sido apontado, sem evidências científicas, como tratamento preventivo supostamente eficaz em casos de covid.

Em média, costuma-se receitar meio comprimido a cada 25kg corporais. Desta forma, um indivíduo de 50 kg deve tomar um comprimido. Pacientes com 75kg devem tomar 1,5 comprimidos. Logo, pessoas com 100kg tomam dois comprimidos. A dose é única para os casos indicados em bula, como eliminação de parasitas intestinais. No caso de Rio Verde de Mato Grosso, no entanto, cada morador terá 6 comprimidos à disposição, pelo menos, o que garantiria – a depender do peso do indivíduo – de 3 a 6 doses.

O problema é que a comunidade científica tem observado casos que vão de grandes alterações no fígado até mesmo a hepatite medicamentosa, após a prescrição da ivermectina para prevenir o covid: alguns protocolos de ivermectina para receitam 4 comprimidos pela manhã, durante três dias, somado a outras drogas (protocolo de tratamento precoce). O protocolo preventivo recomenda de 2 a 4 comprimidos por mês, a depender do peso.

Em São Paulo, há registro de pacientes que tiveram lesões permanentes no fígado após uso desencomendado da droga. Pelo menos 5 pessoas no Estado vizinho entraram na fila de transplante em decorrência do uso contraindicado.

Baseado no achismo

A adoção do protocolo é basicamente justificada no achismo. O próprio vice-prefeito, durante o anúncio, afirmou que o uso da ivermectina não seria obrigatória. “O paciente tem todo direito de dizer não e não aceitar tomar. O objetivo, tem sido comprovado, que a ivermectina diminui o número da gravidade do vírus. É isso que estamos acreditando, é isso que vamos fazer para diminuir a pressão na cidade”, afirmou.

Ao Jornal Midiamax, a Prefeitura de Rio Verde de Mato Grosso detalhou que, desde que os números da pandemia passaram a subir na cidade, começou a estocar o medicamento. De acordo com o secretário de saúde de Rio Verde de Mato Grosso, Roberto Martins, a distribuição ocorrerá nos postos de saúde, após a triagem dos pacientes – que inclui pesagem e verificação de antecedentes que contraindiquem o tratamento.

“Vamos ter um protocolo, as pessoas vão passar por triagem pela enfermeira e se não tiver restrições a pessoa vai ser encaminhada para receber a medicação”, disse o secretário. Ele justificou a decisão de adoção do protocolo, mesmo sem eficácia, porque “diante de tanto colapso na saúde, alguém precisa fazer alguma coisa”.

Cidade de MS terá 6 comprimidos de ivermectina por pessoa, ineficaz contra covid segundo o próprio fabricante
Vice-prefeito Réus Fornari (à esquerda) e médico Luiz Eugênio Engleitne (lado direito)/ (Foto: assessoria)

Teve peso a indicação do médico Luis Eugênio Engleitner, que estava ao lado do vice-prefeito quando o anúncio foi feito na Câmara do município.

“A minha experiência como clínico, e de vários clínicos no país inteiro, é de que o tratamento preventivo funciona. É que nem a gente tenta explicar: por que que na África o número de casos é bem mais baixo? Lá eles usam ivermectina pelo menos duas vezes ao ano para quase toda a população para tratamento de uma patologia que agora me fugiu o nome. Mas assim, possivelmente isso é o que ajuda a reduzir o número de casos, e o número de casos graves”, disse o médico. Várias informações descritas por ele, porém, já foram desmentidas pela comunidade científica internacional – como os supostos baixos números de covid em países do continente africano.

O medico também afirmou que a distribuição da ivermectina é uma iniciativa “que já era para ter sido feita”. Ele mesmo destacou que já adotou o protocolo com parentes e funcionários de sua clínica. “É uma coisa muito pessoal, tem pessoas que as vezes não acreditam nisso, mas a gente ta tentando ajudar. É uma decisão muito pessoal. Ninguém é obrigado a fazer uso de um medicamento, mas no meu pensamento, acho que seria errado por parte dessa pessoa, porque a gente está tentando ajudar”, concluiu.

Jornal Midiamax