OPINIÃO: Os 50 anos da morte de William Rodrigues

Por Antonio Fidélis da Silva Benevides*

Herói ou vilão, bandido ou mocinho? Persiste até hoje essa avaliação dos cidadãos corumbaenses, sobre a trajetória da vida e morte de William Rodrigues, que como Lampião representou para os pernambucanos, para muitos corumbaenses William foi um misto de mocinho e bandido.

50 ANOS DE SUA MORTE

Precisamente no dia 26 de janeiro de 1970, após uma simulação de tentativa de fuga da Cadeia Pública, localizada onde hoje funciona a Casa do Artesão, defronte à Escola Julia Gonçalves Passarinho, os policiais civis, Corrêa, Brandão e Campos, fuzilaram com sete tiros, sendo um de mosquetão no peito, aquele rapaz de 19 anos, que para muitos havia sido vítima da crueldade de um carcereiro conhecido como Angelo.

A TRAJETÓRIA

William era conhecido como um rapaz, devido a sua boa pinta, boêmio e mulherengo, assíduo frequentador das casas de tolerâncias, sendo a mais conhecida na época o “Bordel da Maria Mulata”, onde era assediado por várias mulheres.

O policial cívil Alcir Ortega me relatou que William e seu irmão Bob, passaram a maior parte de suas adolescências na região da Rua Ladário, no quadrilátero compreendido entre as ruas Cabral, Joaquim Murtinho e Porto Carreiro. E também na antiga Granja onde havia um campinho onde eles praticavam o bom futebol.

No ano de 1975, eu era funcionário do antigo jornal *”Folha da Tarde”* que licalizava-se no antigo prédio da *Rádio Difusora*, na Rua 13 de Junho, entre as Ruas Frei Mariano e Antonio Maria Coelho, em frente onde hoje se encontra a Agência do Banco do Brasil. Naquela ocasião o policial Alcir me confidenciou que William, quando garoto, era acostumado ir até a antiga Estação Ferroviária da Noroeste do Brasil, e de posse de um espeto, furtava frutas dos vagões que chegavam em comboios naquela ferrovia, carregados de mangas, tangerinas e laranjas entre outras.

A VINGANÇA DE ANGELO

Segundo o que se tem conhecimento, o carcereiro Angelo que na época era Guarda Civil, teve um desentendimento com o pai de William, senhor Severino Moraes de Brito, também guarda cívil na época, que depois de praticar um duplo homicídio em nossa cidade, foi recolhido no presídio de Cuiabá. Sendo assim Angelo resolveu voltar sua fúria nós filhos de seu desafeto, William e Bob.

Antes da prisão de William, na época, eu vendia revistas para a Distribuidora de Jornais e Revistas, pertencente à família Viana, cujo gerente é o conhecido Natércio, e um certo dia, adentrei com a devida autorização da direção do presídio, a antiga Cadeia Pública, e quem estava recolhido em uma das celas naquela ocasião, era o Severino Rodrigues, mais conhecido como Bob. Ofereci a ele alguns exemplares de revistas, que tinha como as mais vendidas da época o antigo “Cruzeiro” e revista “Manchete”, no padrão da atual “Veja” editada hoje pela Editora Abril. Naquela oportunidade, fui testemunha de uma reclamação de Bob, que me falou. “O meu irmão apronta por aí, e como eles não conseguem pegá-lo, me recolheram aqui como garantia”. Essas foram as palavras dele.

Naquela época, William era procurado diuturnamente pela polícia, porém todos diziam, que como ele tinha o corpo fechado no terreiro da Umbanda, conseguia ludribiar seus oponentes. O policial Alcir Ortega me contou que numa dessas diligências eles chegaram num prostíbulo localizado na Joaquim Murtinho, próximo à Rua Ladário, e o delegado pediu prá ele que adentrasse naquela casa de tolerância e certificasse se William lá se encontrava. Segundo Alcir – “quando entrei naquela casa, o William estava com um chapéu grande na cabeça, dançando com a dona daquele estabelecimento. Cumprimentei ele e falei que estava tudo bem e que ficasse tranquilo. Logo em seguida, de volta à viatura o delegado me perguntou se ele estava lá dentro, eu então respondi “não senhor, não está”. Em seguida partimos em direção à outro local para procurá-lo. Esse relato de Ortega, que passou a maior parte de sua infância e adolescência na companhia dos irmãos Bob e William. Veja que como uma boa parte da população nutria uma simpatia por eles, na própria polícia havia quem os admirava.

COMO FOI A PRISÃO

É do nosso conhecimento que William foi preso no Aeroporto de Campo Grande, quando se preparava para embarcar em uma aeronave cedida pelo pecuarista Hugo Pereira de Souza o “Hugo do Cachimbo”. Foi trazido então de trem para nossa cidade e encarcerado na cena número 7 da antiga Cadeia Pública.

O TRATAMENTO NA CELA

Quando de minha visita a Bob, ele me relatou que William havia se revoltado com a polícia, devido ao tratamento que o carcereiro Angelo oferecia à ele, quando de sua primeira detenção, antes da que culminou com sua morte. Bob falou que quando chegava a marmita destinada a seu irmão, Angelo misturava fezes nela e oferecia ao rapaz. O mesmo procedimento era feito, só que com urina, quando William pedia água. E o pior que ele tinha que comer ou beber daquela forma.

O JULGAMENTO E MORTE

William teve como advogado de defesa, um dos mais renomados da época, doutor Nelson Trad, que veio de Campo Grande para defende-lo. Mesmo assim ele foi considerado culpo e teve que ficar encarcerado na cela número 7 do Presídio Central.

No dia 26 de janeiro de 1970, ao constatar que uma das barras de sua cela estava cerrada, um dos carcereiros combinou um valor para facilitar sua fuga. Depois de tudo acertado, quando chegou a hora, e como William não saia da cela, o carcereiro Angelo resolveu atacá-lo desferindo alguns golpes de facão em suas costas, e numa simulação orquestrada William foi fuzilado nas imediações dos muros daquele presídio.

Terminava assim a saga de um rapaz em que já destacamos, para alguns foi um misto de bandido e mocinho, herói e vilão.

* Conhecido como Toninho Fideliz, Antonio Fideliz da Silva Benevides é jornalista e colunista. Fez carreira na editoria de polícia e atuou nas principais redações de jornal impresso de Campo Grande na década de 1980.

As opiniões emitidas no artigo não necessariamente representam a opinião do Jornal Midiamax e são de responsabilidade do autor.

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