‘Baixar a guarda’ em época de menor incidência colabora para surtos de dengue

Notificações subiram de 989 para 3.195 em sete dias no Estado

O aumento de 2.206 novas notificações de dengue em uma semana fez com que a preocupação em relação à doença crescesse para os sul-mato-grossenses, considerando inevitável uma epidemia da doença em 2020. Para se ter uma ideia, somente ente os dias 15 e 22 de janeiro, o número de confirmações de casos de dengue subiu de 133 para 621, segundo as autoridades de saúde.

O surto de dengue pode ser evitado com os cuidados básicos em relação aos criadouros do mosquito transmissor, o Aedes aegypti – também responsável pela febre Chikungunya e pela Zika. Porém, os cuidados não podem se restringir apenas às épocas de chuva. De acordo com o diretor da Fiocruz-MS, o infectologista e pesquisador Rivaldo Venâncio da Cunha, os cuidados em épocas de frio e seca também são fundamentais.

Por isso, “baixar a guarda” no combate ao mosquito pode estar relacionado ao crescimento da dengue durante o verão. A dengue que circula atualmente no Estado (e também no Brasil) é do tipo 2. E, segundo Venâncio, para que a epidemia aconteça, são necessários apenas dois fatores: percentual de pessoas suscetíveis ao sorotipo da doença e a presença do mosquito transmissor em vários níveis.

Tipo 2

Este subtipo do vírus causador da dengue foi responsável por casos de dengue hemorrágica nos anos de 2009 e 2010. Por apresentar evolução rápida, com quadro de piora de três a cinco dias, exige que as pessoas procurem atendimento médico assim que surgirem os primeiros sintomas. Os maiores riscos são para idosos e crianças menores de 10 anos.

O infectologista e pesquisador da Fiocruz Rivaldo Venâncio | Foto: Reprodução

Rivaldo ainda ressalta que no Brasil, o tipo 2 da doença não circulava há mais de 10 anos, o que aumenta o número de pessoas que podem ser contaminadas. “Todas as pessoas que não foram contaminadas pelo sorotipo da doença estão suscetíveis, ou seja, o tipo 2 da dengue não circulava no país há mais de 10 anos, então o percentual de pessoas que nunca foram contagiadas aumenta”, disse.

Além disso, Rivaldo lembra que infelizmente nós brasileiros de forma geral costumamos baixar a guarda em períodos de baixa incidência da doença, o que aumenta a chance de surto no período de calor e chuva.

“Quando entra o frio e a seca, tanto nós como população quanto o poder público baixamos a guarda dos cuidados e, só quando chega o verão e a doença começa a aparecer resolvemos limpar os terrenos e nos cuidar. Se tivéssemos esse cuidado o ano inteiro, diminuiríamos as chances de surtos”, explicou.

“O mosquito intensifica sua proliferação na presença de umidade relativa do ar alta, abundância de água e calor, ou seja, a epidemia só vai acontecer nos períodos chuvosos que é quando o vetor se prolifera, por isso não basta tomar cuidado só no verão. Os cuidados precisam ser constantes”, relatou.

Casos de Dengue

De acordo com o último boletim epidemiológico da SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), divulgado na quarta-feira (22), o Estado já conta com quatro mortes confirmadas por dengue.

A primeira vítima foi em Corumbá,  um homem de 29 anos faleceu no dia 9 de janeiro,no dia 10 de janeiro um adolescente de 17 anos veio a óbito pela doença em Sete Quedas. Ainda na mesma semana, dia 12 de janeiro em Campo Grande, um homem de 30 anos morreu por conta da dengue e no dia 15 de janeiro uma idosa de 67 veio a óbito por dengue hemorrágica em Cassilândia.

Ainda conforme aponta o boletim, são 621 casos confirmados da doença, 488 a mais que na semana anterior. Campo Grande agora lidera o ranking com 120 confirmações, seguido de Alcinópolis (66), Três Lagoas (52), Sonora (47), Costa Rica (46), Brasilândia (40), Chapadão do Sul (39) e Itaporã com 23 casos.

Em Nova Alvorada do Sul foram 19 confirmações, Dourados (11), São Gabriel do Oeste (10). Em Paranhos foram 9 casos, Anastácio (8), Bela Vista (7), Guia Lopes, Fátima do Sul, Cassilândia, Caarapó  tiveram 6 casos.

  • (Fonte: Ministério da Saúde)

    Manter bem tampado tonéis, caixas e barris de água;

  • Lavar semanalmente com água e sabão tanques utilizados para armazenar água;
  • Manter caixas d’água bem fechadas;
  • Remover galhos e folhas de calhas;
  • Não deixar água acumulada sobre a laje;
  • Encher pratinhos de vasos com areia ate a borda ou lavá-los uma vez por semana;
  • Trocar água dos vasos e plantas aquáticas uma vez por semana;
  • Colocar lixos em sacos plásticos em lixeiras fechadas;
  • Fechar bem os sacos de lixo e não deixar ao alcance de animais;
  • Manter garrafas de vidro e latinhas de boca para baixo;
  • Acondicionar pneus em locais cobertos;
  • Fazer sempre manutenção de piscinas;
  • Tampar ralos;
  • Colocar areia nos cacos de vidro de muros ou cimento;
  • Não deixar água acumulada em folhas secas e tampinhas de garrafas;
  • Vasos sanitários externos devem ser tampados e verificados semanalmente;
  • Limpar sempre a bandeja do ar condicionado;
  • Lonas para cobrir materiais de construção devem estar sempre bem esticadas para
  • não acumular água;
  • Catar sacos plásticos e lixo do quintal.

Alerta aos sintomas

Além dos sintomas clássicos, a dengue tipo 2 pode ocasionar situações mais graves, como a encefalite. Ao afetar o sistema nervoso central, o vírus pode causar a inflamação no cérebro ou até mesmo mielite, uma inflamação da medula espinhal, conforme explicou a neuropediatra Andrea Weinmann anteriormente em entrevista ao Jornal Midiamax.

“Quando a pessoa contraí o vírus pela primeira vez, ela se torne imune a ele. Porém, quando contraí pela segunda vez, a doença pode ser mais agressiva. Os vírus DEN2 e DEN3 podem ultrapassar a barreira que protege o sistema nervoso central. Isso explica porque alguns quadros podem evoluir para encefalite, meningite e polineuropatia”, detalha a neuropediatra.

(Reprodução Facebook | De arquivo | Midiamax)

Estima-se que de 1 a 5% dos casos de DEN2 e DEN3 podem evoluir para doenças neurológicas. Por isso, é preciso permanecer atento aos sintomas e, claro, combater os focos do mosquito – 80% deles estão dentro dos domicílios.

“Além de estar vulnerável a sofrer uma encefalite ou mielite, quem é contaminado por dengue mais de uma vez pode sofrer reação imunológica no organismo, levando a outras doenças, como a síndrome de Guillian-Barré, por exemplo”, comenta a neuropediatra.

Além dos sintomas já bem conhecidos, como febre, dor de cabeça, cansaço, dores nas juntas e atrás dos olhos, os vírus da dengue tipos 2 ou 3 podem se manifestar de outras maneiras.

“Quando há encefalite, por exemplo, a pessoa pode sofrer convulsões, ter uma redução da consciência, sentir muito sono e perder a força em um dos lados do corpo. Na mielite, o paciente pode até mesmo perder a capacidade de andar”, reforça a especialista.

Weinmann também explicou que dor abdominal e vômitos são sinais de atenção, principalmente em crianças com menos de quatro anos. “Estes sintomas são critérios para internação do paciente. Mesmo que a criança ou até mesmo o adulto não tenha febre, mas apresente este quadro, o ideal é internar para impedir uma evolução mais crítica da dengue”, comenta a neurologista infantil.

Pessoas que já contraíram a dengue e apresentam os sintomas, mesmo os mais conhecidos, devem procurar um pronto-atendimento ao apresentar qualquer sinal de comprometimento do sistema nervoso central. Dor abdominal forte e vômitos também são sinais de atenção para agravamento do quadro da dengue. “O ideal é procurar o pronto-socorro para uma avaliação e exames”, reforça Weinmann. (Com informações de Guilherme Cavalcante).

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