Após assinatura, fábrica de mosquito ‘anti-dengue’ em Campo Grande deve sair do papel

Com a biofábrica, expectativa é que no segundo semestre os mosquitos já sejam liberados em sete regiões da Capital

Anunciado há cerca de um ano, o projeto Wolbachia em Campo Grande finalmente começa a ganhar forma em Campo Grande. Na manhã desta segunda-feira (17), foi assinado o termo de serviço para a implantação da biofábrica de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, que integram método inovador capaz de reduzir a transmissão da dengue nas áreas onde o mosquito se proliferar.

A biofábrica será montada nas dependências do Lacen (Laboratório Central) da SES (Secretaria de Estado de Saúde) e será responsável tanto pela produção como pela disseminação dos mosquitos em sete bairros da Capital.

A solenidade de assinatura contou com a presença do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), e ocorreu durante o Encontro Estadual de Vigilância em Saúde, no Centro de Convenções Rubens Gil de Camilo. O evento estende-se até a terça-feira (18) com capacitação a agentes e gestores de saúde dos 79 municípios de MS.

Natural e inofensivo

Foto: Flávio Carvalho | WMP | Divulgação

O pesquisador Luciano Andrade Moreira, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), destacou que o método Wolbachia é natural e inofensivo, não se tratando de uma modificação genética do Aedes aegypti. Segundo ele, após a biofábrica em funcionamento, a previsão é que a liberação dos mosquitos já ocorra no segundo semestre deste ano.

“São estimados 4 meses para que eles se estabeleçam na área. Sendo que também foram necessário cerca de seis meses para fazer o cruzamento desses mosquitos locais. Eles foram capturados aqui e levados ao Rio de Janeiro, onde houve o cruzamento, porque é necessário que sejam mosquitos adaptados à região. No RJ, nós produzimos os ovos, que serão enviados à biofábrica de Campo Grande semanalmente, na fase da pupa, e colocados em tubetes para liberação no ambiente”, detalhou.

O projeto Wolbachia já está na segunda fase, que é a mobilização da comunidade. A primeira ocorreu em janeiro, quando cerca de 500 agentes de endemias receberam capacitação necessária para execução das ações. Durante a solenidade, também foram entregues aparelhos celulares que serão manuseados pelos agentes como parte das ações.

Vacina

Durante a solenidade, o ministro da Saúde destacou os investimentos da pasta em tecnologia. Mandetta também mencionou as pesquisas para a criação de uma vacina que previna a dengue.

“O Instituto Butantã está a passos largos na construção de uma vacina para a dengue. Se estivermos no caminho certo, podemos ter uma vacina para dengue compatível para uso já no ano que vem”, anunciou.

Método Wolbachia

Descoberta há cerca de 100 anos, Bactéria Wolbachia impede que mosquitos transmitam vírus (Foto: Wikipedia | Reprodução)

Uma das capitais brasileiras contempladas com a implantação do método Wolbachia, Campo Grande pode receber os mosquitos ‘anti dengue’ em todos os bairros até 2022. A estratégia consiste em infectar ovos do mosquito Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia e, assim, reduzir a capacidade de transmissão dos vírus da dengue, zika e chikungunya.

A implantação do método na Capital foi anunciada pelo Ministério da Saúde em abril e, desde então, foi feito um planejamento com os estudos das áreas que receberão a iniciativa. A previsão é de que em janeiro seja iniciada a capacitação dos agentes de combate a endemias em Campo Grande.

Os agentes devem ajudar no engajamento das comunidades nos bairros, explicando o método de utilização mosquitos modificados antes da soltura. De acordo com o projeto WMP (World Mosquito Program) da Fiocruz, a soltura dos mosquitos deve acontecer por três anos: 2020, 2021 e 2022. Ao longo destes anos, serão seis fases e todos os bairros de Campo Grande devem receber os mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia.

Depois da capacitação, será construída uma biofábrica de mosquitos em Campo Grande. A colônia é criada na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e os ovos do mosquito são enviados para a Capital, onde serão criados e enfim soltos. De acordo com a WMP, a biofábrica deve ser implantada em Campo Grande até o fim do primeiro trimestre de 2020.

Mosquitos infectados com ‘bactéria do bem’

Durante o anúncio da implantação do método em Campo Grande, o pesquisador da Fiocruz e líder do WMP (World Mosquito Program) no Brasil, Luciano Moreira, explicou que a bactéria Wolbachia foi descoberta há cerca de 100 anos, mas somente em 2005 um projeto na Austrália descobriu que o ser vivo bloqueia vírus, inclusive da febre amarela.

Infográfico mostra como ocorre a reprodução de mosquitos infectados no campo Foto: Fiocruz | MS | Reprodução)

De acordo com a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, a pesquisa já foi realizada em bairros do Rio de Janeiro e apresentou bons resultados. “Depois da implantação do método, leva cerca de um ano para sentir o resultado. Mas, pela pesquisa já realizada, a redução é significativa, cerca de 80%”, aponta a pesquisadora.

Além da liberação dos mosquitos, a pesquisa também precisa fazer trabalho de campo com moradores, já que há claramente uma quebra de paradigma: soltar mosquitos para controlá-los, no lugar de exterminá-los. Este trabalho é feito pelos agentes comunitários, que conscientizam os moradores.

A liberação dos mosquitos deverá ocorrer por cerca de 16 a 20 semanas consecutivas. Na sequência, há monitoramento dos insetos para constatar a contaminação pelo Wolbachia e, por fim, ocorre o acompanhamento epidemiológico. Na sede da Fiocruz no RJ, uma biofábrica produz cerca de 2 milhões de mosquitos adultos infectados por semana.

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