118 infectados: Guia Lopes já é a 7ª cidade do Brasil em casos de coronavírus por habitante

Especialista explica que cidade vive surto que começou com contágio em frigorífico

Em 19 dias, Guia Lopes da Laguna se tornou a sétima cidade com maior incidência de coronavírus em todo o Brasil. Nesta quarta-feira (20), foram confirmados 118 casos na cidade, o que pode fazer com que o município ganhe ainda mais posições no ranking, que é atualizado à noite. Para entender como a cidade sul-mato-grossense se tornou uma das cidades com maior índice de infectados, o Jornal Midiamax conversou com um infectologista e preparou uma reportagem listando os principais fatores do agravamento do cenário municipal.

O primeiro caso de coronavírus em Guia Lopes foi confirmado no dia 5 de maio, segundo a Prefeitura Municipal, o paciente seria um motorista de um frigorífico da cidade. Após 19 dias, o número de infectados subiu para 118 na cidade de apenas 9.895 habitantes, de acordo com dados da SES (Secretaria de Estado de Saúde). Os mais de 1,1 mil casos de coronavírus para cada 100 mil habitantes colocam o município entre as 10 cidades com maior índice de coronavírus do Brasil.

De acordo com  o médico infectologista Júlio Henrique Rosa Croda, que é professor na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e pesquisador na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), o aumento de casos em pouco tempo pode ser considerado como um surto. Como explicação, o pesquisador afirmou que dois fatores agravaram o caso na cidade: casos dentro de um frigorífico e o uso do tereré.

118 infectados: Guia Lopes já é a 7ª cidade do Brasil em casos de coronavírus por habitante

Casos nos frigoríficos

De acordo com o infectologista, 90% dos casos do surto de Guia Lopes da Laguna são fruto de uma transmissão que aconteceu dentro do frigorífico e outros 10% são de familiares que tiveram contato com esses infectados em primeiro grau. “Esse surto está bem mapeado na cidade, porque tem um primeiro caso que foi de um motorista, que é um provável suspeita bem importante que passou por vários setores de um frigorífico, e com isso contaminou todo mundo”.

No cenário brasileiro, Mato Grosso do Sul é o estado com maior número de estabelecimentos da indústria de produção de alimentos de origem animal paralisados devido ao coronavírus. Segundo relatório do Ministério da Agricultura, 11 frigoríficos e outros estabelecimentos suspenderam as atividades para minimizar a disseminação do vírus.

Em MS, até o dia 8 de maio, seis abatedouros frigoríficos de bovinos, um de aves, duas unidades de beneficiamento de pescado e duas de carnes foram paralisadas. Juntos, os estabelecimentos representam 26% do total de suspensão de atividades deste setor em todo território brasileiro.

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| Dados do Ministério da Saúde (em 18/05) | Especial Midiamax |

Compartilhamento de tereré

O outro fator importante para o ocasionamento do surto de coronavírus em Guia Lopes da Laguna, foi o costume sul-mato-grossense de compartilhar bombas de tereré. Croda lembra que além do uso de objetos compartilhados, devemos ressaltar que os atos aconteceram dentro da própria empresa com infectados, gerando um fator duplamente perigoso.

Além da cobrança e até mesmo culpa dos próprios trabalhadores, o infectologista afirma que existe uma responsabilidade da empresa que deve ser considerada. “No momento em que a gente vive em uma pandemia causada por um vírus e todo mundo sabe que a prática regional de compartilhamento de chimarrão e tereré, se isso é realizado na empresa, é uma questão de saúde do trabalhador”.

Para ele, o surto poderia ter sido evitado com uma medida simples: a proibição de tereré; se adotada pela empresa. “A empresa precisa ter um controle desse habito de compartilhamento pelo menos dentro do trabalho, ela tem poder para isso”.

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| Dados da SES (em 19/05) | Especial Midiamax |

O que fazer?

Para evitar um surto de coronavírus, Croda ressalta “que as empresas devem adotar, no momento de retorno das atividades, um protocolo de contingenciamento que envolve um manual de biossegurança, a partir de agora com a volta do trabalho e contato das pessoas”. Segundo o médico infectologista e pesquisador, o plano de contingenciamento deve envolver testagem, sistema de afastamento para pacientes sintomáticos e até mesmo a paralisação das atividades, caso tenha aumento significativo de casos.

Croda explica que os poderes públicos estaduais e municipais podem cobrar esse plano de contingenciamento. Mas ressalta que “não é só responsabilidade deles, pois todo o setor econômico que está aderindo à flexibilização tenha um plano de contingenciamento”.

Novos surtos podem acontecer

O médico infectologista alerta que novos surtos de coronavírus podem acontecer no interior de Mato Grosso do Sul, devido ao grande número de empresas relacionadas à produção de carnes no estado. “Se a empresa não se atentar para a contenção, prevenção e contingenciamento, esse surto pode acontecer novamente”, garante.

Em análise técnica, Croda explica que em MS existem “surtos no interior, bem pontuais, que estão relacionados aos frigoríficos”. Ele avalia o padrão de forma interessante, do ponto de vista epidemiológico, “pois é um aumento de casos relacionado à uma atividade específica”.

Croda afirma que se “essas atividades estão retomando, é normal que possam ter novos surtos”. O infectologista lembra que se a retomada das atividades comerciais não forem muito bem planejadas, MS pode enfrentar não só um novo surto, como vários.

Isso acontecerá, porque os surtos que começam dentro das empresas podem ir direto para a população. Croda lembra também que devemos considerar que MS é um estado reconhecido por ser grande produtor do mercado de carnes. “É justamente o maior fluxo de pessoas, entre os estados com maior área de doentes, que está relacionado à essas atividades. E aqui a gente não está tendo mais turismo, o fluxo do aeroporto caiu muito, então o setor de carne é o que sobra para relação de mais fluxo de pessoas no estado”.

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