VÍDEO: Justiça segue com reintegração e casas no Acampamento Matinho são derrubadas

Liminar que suspendia reintegração foi cassada na última semana

Está sendo concluída na manhã desta quinta-feira (24) a reintegração de posse da Fazenda Maracujá, ou “Acampamento Matinha”, como era chamado pelas 45 famílias que há cerca de 10 anos por lá viviam.

O local, que fica na altura do KM 4 da MS-010, na zona rural de Campo Grande, foi palco de disputa judicial que se arrastava pelo menos desde 2008: por um lado, alguns afirmam que a área foi desapropriada pelo Incra para tornar-se assentamento, o que não foi comprovado. De outro, moradores mostram documentos de posse, afirmando que a área foi efetivamente vendida há 40 anos. E para os autores da ação, todos eram invasores das terras.

Apesar da presença de tropa do Batalhão de Choque da PM, reintegração foi pacífica (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax)

Como em toda reintegração de posse, o sentimento guardado por quem perdeu a ação e decidiu acompanhar até o final a derrubada das casas era de tristeza e frustração. Muitos dos moradores afirmam que não invadiram a área e até mostram documentos de posse que apontam venda. Porém, os papéis não foram reconhecidos pela Justiça.

E em meio de pequenas vitórias, como a liminar que suspendeu há cerca de dez dias a reintegração de posse, a manhã desta quinta foi a pá de cal sobre os sonhos – dias depois, a liminar foi cassada e, com isso, o processo de reintegração seguiu normalmente.

Nesta manhã, um oficial de justiça esteve no local e acompanhou o procedimento. Uma tropa de policiais do Batalhão do Choque também foi convocada, mas não precisou agir com nenhuma força: resignados, a maior parte dos antigos moradores já havia desocupado os imóveis e retirado o que era possível, de mobiliários a animais.

“A Justiça tinha aceitado a reintegração de posse em janeiro, com uma decisão favorável aos donos da propriedade. Houve a liminar que chegou a suspender, mas ela foi cassada logo depois. É uma desocupação definitiva, já que foram esgotados os recursos desse processo, que corre desde 2008”, destacou à reportagem o oficial de justiça Leoni Franco.

R$ 2 mil para recomeçar

Acompanhando o trabalho das máquinas estava Estela da Silva Chaves, de 65 anos, que vivia há 9 anos na Matinho com o marido, Stênio, de 63 anos. Ela ficou até o final e acompanhou a demolição da casa em que morava – já sem telhas, portas, janelas e o que mais poderia ser vendido. Segundo ela, já há alguns dias o casal dormia em uma van.

“Essa casa era meu sonho. Eu sempre quis viver da criação de animais, uma vida simples. Criava galinha e porcos. Vou ficar até o final, quero ver essa casa ser derrubada. Mas minha porca ainda está no chiqueirinho, porque ela deu cria esses dias. Pedi para os oficial de justiça permitir que ela ficasse lá até amanhã de tarde, quando vai dar para eu retirar ela”, conta a idosa.

Dona Estela afirma que não era invasora e que havia comprado o lote há 9 anos (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax)

Estela afirmou que não era assentada e que jamais esteve ilegalmente na terra. “Meu marido era motorista e eu trabalhava na chácara de outras pessoas. Mas eu sempre quis ter um lugar só pra mim, pra eu mexer na terra, cuidar dos bichos… A gente juntou R$ 15 mil dinheiro de uma vida toda, pra comprar o lugar. E agora o sonho acabou. Quando teve a reintegração fui mostrar meu contrato na Defensoria, mas mesmo assim fui considerada invasora”, declara.

“Para recomeçar eu tenho R$ 2 mil, que é o que restou das coisas que consegui retirar e vender. Foram nove anos aqui e tudo o que eu tenho são esses R$ 2 mil. Mas eu vou recomeçar, não vou desistir. Vou arrumar outro canto para cuidar dos meus animais. Não aguento ficar na cidade”, conclui.

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