Santa Casa diz que não é ‘saco sem fundo’ e que depende de R$ 14 milhões atrasados

Segundo gestor, pagamento da Prefeitura permitiria pagar médicos e evitar greve anunciada para sexta-feira (28)

O presidente da ABCG (Associação Beneficente de Campo Grande) Esacheu Cipriano Nascimento, que administra o hospital Santa Casa de Campo Grande, afirmou que o atraso do pagamento de médicos resultou da falta de pagamento da Prefeitura de Campo Grande

Pelo atraso salarial, a categoria anunciou que entrará em greve a partir das 19 horas da sexta-feira (28), reduzindo os atendimentos ambulatoriais em 70% e de urgência e emergência em 30%, caso o pagamento não seja realizado. Segundo a Santa Casa, cerca de R$ 1,9 milhão seria necessário para quitar as remunerações, já que aos médicos celetistas foram pagos apenas 35% dos salários, no último 5º dia útil.

Esacheu explica que o atraso é reflexo da falta de pagamento por parte da Prefeitura de Campo Grande, em relação ao convênio assinado entre a entidade e o município em 2013, para prestação de assistência em saúde na Capital. Segundo Nascimento, a Prefeitura já foi notificada a efetuar o repasse no prazo de 48 horas, que vence nesta quarta-feira (27).

“Se esse pagamento não for realizado, nós provavelmente iremos judicializar a questão. A Santa Casa trabalha no limite. Não pode haver falha no recebimento. Do contrário, desencadeia o não pagamento dos funcionários e dos fornecedores”, afirma.

É o que tem ocorrido com frequência. Sucessivos atrasos salariais provocaram paralisação de várias categorias nos últimos meses: em janeiro deste ano, trabalhadores da enfermagem entraram em greve devido a falta de pagamento de parte do 13º salário. Em dezembro do ano passado, os médicos também paralisaram por falta de pagamento.

Atraso e déficit

Segundo Esacheu, a Prefeitura de Campo Grande deve cerca de R$ 14 milhões à entidade beneficente. Mas, o problema se agrava também porque a Santa Casa trabalha com déficit de cerca de 35% na receita.

O presidente da Santa Casa, Esacheu Nascimento (Foto: Henrique Kawaminami | Arquivo Midiamax)

“Estamos trabalhando com o mesmo valor de contrato [com a Prefeitura] de 2013. Além disso, temos uma inflação na área de saúde que é de 10% ao ano e também tivemos aumentos de salários dos profissionais. Ou seja, todos esses encargos acabam fazendo com que aquele valor do contrato não seja suficiente para pagarmos todas as despesas”, declara.

A receita mensal da Santa Casa, de acordo com o presidente, é de cerca de R$ 21 milhões. Metade dos recursos é repassada pelo Ministério da Saúde, enquanto 25% vêm da Prefeitura e outros 25% do Governo do Estado. Já as despesas funcionariam da seguinte forma: R$ 4 milhões são referentes a pagamento de parcelas de “empréstimos herdados” – que somam atualmente R$ 143 milhões – e R$ 2,5 milhões a impostos dos funcionários.

“Sobram de R$ 14 milhões a R$ 14,5 milhões por mês para as despesas restantes, que são pagar funcionários, comprar medicamentos e fazer manutenção do hospital. E nós atendemos de 15 mil a 20 mil pacientes todo mês. Com a greve, o atendimento médico tende a ser prejudicado. É algo que tentamos equalizar, mas depende muito pouco da Santa Casa. Se o município pagar os R$ 14 milhões que deve, pagaremos os médicos sem dificuldade”, conclui Nascimento.

“Saco sem Fundo”

As despesas da Santa Casa são sempre alvo de polêmicas. Os custos costumam ser ponto nevrálgico das discussões entra a ABCG e o poder público, responsável por repasses decorrentes de convênios. A argumentação comum é que não haveria transparência na gestão dos recursos e que a Santa Casa seria um “saco sem fundo”. Ao Jornal Midiamax, o presidente destacou que isso seria uma forma de atacar a eficiência da gestão atual.

“É um discurso para atacar nossa eficiência, mas ele não se sustenta, não somos ‘saco sem fundo’. Até porque nós primeiramente prestamos o serviço e só depois que recebemos. Não é que nos mandam R$ 21 milhões todo mês: nós trabalhamos, produzimos, apresentamos a nota fiscal, que passa por uma auditoria na Prefeitura de Campo Grande, e depois é que eles nos pagam. O que vem é que está efetivamente comprovado que nós produzimos”, destaca Esacheu.

Um dos argumentos utilizados por Esacheu para defender a eficiência da gestão é o controle da dívida do hospital, atualmente em torno de R$ 178 milhões – incluindo empréstimos, dívidas fiscais, trabalhistas e com fornecedores. Ele menciona, inclusive, o período em que o hospital sofreu intervenção.

“Estiveram aqui por 8 anos e acabaram com o hospital, não fizeram manutenção ou investimento e deixaram dívida de R$ 168 milhões. Retomamos a Santa Casa e a nossa divida continua mais ou menos a mesma. Só não diminuiu porque não há dinheiro novo e por isso precisamos cotrair empréstimos” descreve.

“Com R$ 270 milhões anuais, realizamos 178 mil internações, 45 mil cirurgias para o SUS (Sistema Único de Saúde) e recebemos de 15 mil a 20 mil pacientes a cada mês. Como é que somos ineficientes? Compara esses números com os outros hospitais. Com o Regional, que gastou R$ 400 milhões e fez 1/3 do que a gente fez. Com o HU, que é público, e somente a folha de pessoal equivale aos R$ 270 que recebemos. Não podem alegar de forma nenhuma que somos ineficientes. É uma tentativa de desconstrução que não pode colar”, conclui.

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