Pesquisa da UFMS prova que café dá vida nova a plantas e restos de animais viram biogás

Pesquisa da UFMS com a Anhanguera estudou como reutilizar o que iria para o lixo e torná-lo fertilizante

O consumo sustentável tem conquistado cada vez mais adeptos e um processo linear de exploração de recursos naturais faz com que diminua a geração de montanhas de lixo sem utilidade. Pensando nisso, uma pesquisa recente da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) com a Universidade Anhanguera provou que a borra do café, aquele resto de pó após passado o cafezinho, serve também como ótimo fertilizante de plantas.

Conforme Alexandre Moreira de Vasconcelos, Engenheiro de Produção, Professor da UFMS do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais, a pesquisa “Aproveitamento da borra de café como fertilizante agrícola” demorou um ano para ser concluída e provou que se cada pessoa usar um pouco da borra que iria para o lixo em uma muda de planta, o vegetal pode crescer bem adubado.

“É um projeto sobre a economia circular, que é uma forma de pensar os recursos naturais que temos no nosso dia a dia e que eles circulem por mais tempo na cadeia produtiva. Normalmente o que acontece é retirar o produto da cadeia, produz as coisas e depois elas vão para o lixo. No lixo a gente pode encontrar uma riqueza de materiais muito grande”, disse o engenheiro do Jornal Midiamax.

O professor explica que com os anos, os produtos na indústria foram barateando e isso tornado mais fácil que as pessoas comprassem ainda mais, descartando o que tem em casa com mais frequência. Pensando nisso, a pesquisa da UFMS visou proporcionar uma nova visão de sustentabilidade para o dia a dia das pessoas.

“Os alunos começaram a desenvolver o trabalho relacionado ao plantio de alface e decidimos tentar o aproveitamento de resíduos. Uma recomendação que é popular entre as pessoas é usar a borra de café como fertilizante nas plantas, por isso, fomos testar”, explicou Alexandre.

Fertilizante sustentável

A borra de café usada na pesquisa foi coletada em 15 comércios do Centro de Campo Grande e vendem o produto, como bares, restaurantes, lanchonetes, cafeterias e conveniências. Após os 12 meses de levantamento, o resultado apontou que, dependendo da quantidade de borra de café colocado no plantio, poderia, sim, haver uma alteração no tempo de germinação e no crescimento da planta.

“Existiria ganho mesmo se essa borra de café tivesse uma influência zero nas variáveis estudadas, pois o resíduo da borra deixaria de ser jogado no lixo, onde vira chorume e contamina o solo”, contou.

O tempo de germinação foi mais curto no grupo controle, porém, o tempo médio baixou na utilização da segunda extração, com material mais diluído. Comportamento melhor apareceu no comprimento do broto, quando houve uma concentração de 2,5%. A concentração foi a mais baixa pesquisada, pois foram usadas concentrações de 2,5%, 7,5%, 15% e 30%.

“Mas mesmo que não houvesse qualquer efeito sobre as variáveis, já seria uma vantagem de não fazer mal a planta. Já o crescimento da raiz foi melhor na concentração de 7,5%”, aponta o professor. No geral, as baixas concentrações foram melhores, segundo Alexandre, porque a alta concentração acaba criando uma alteração muito maior no solo.

Tendência mundial

Na União Europeia, a economia circular é uma tendência bem consolidada, que permite reduzir custos com materiais em até US$ 630 bilhões por ano. Estimativas produzidas na região indicam que, para o setor de mobilidade, práticas de economia circular podem reduzir os custos entre 60% e 80%. Já o setor de alimentos pode se beneficiar com 25% a 50% de economia proporcionada pela redução de desperdício.

Conforme a revista Época, adotar o novo modelo não só garante a preservação dos recursos, como traz resultados financeiros. De acordo com um levantamento produzido pelo McKinsey Global Institute e divulgado em 2017, empresas que agregam os princípios da economia circular, como visão de longo prazo, foco na inovação e na geração de valor, apresentam receita 47% superior e lucro 81% maior.

Esse novo modelo também posiciona o país em condições de ampliar sua base de negócios no exterior. “A transição para a economia circular permitirá que a indústria brasileira esteja à frente das legislações e das normas nacionais e internacionais, colaborando para a construção de políticas públicas facilitadoras às mudanças sistêmicas”, afirma o estudo da CNI Economia Circular: oportunidades e desafios para a indústria brasileira.

Energia produzida biomassa

Ainda destacando as pesquisas da UFMS, o mestrando Carlos Eduardo Borges Junior, do PGRN, estudou o uso de biomassa da agricultura familiar para geração de energia elétrica, por meio de biogás.

O estudo foi feito no Assentamento Jiboia, em Sidrolândia, utilizando como biomassa resíduos de evisceração de animais, dejetos de animais em geral (cama de frango, de pocilga e de gado confinado), resíduos orgânicos e esgoto residencial. “A proposta era mensurar essa biomassa, mensurar o potencial de energia e escolher o biodigestor mais adequado para esse local”.

Carlos Eduardo identificou que o melhor, em todos os cenários, para o Assentamento Jiboia seria utilizar modelo de biodigestor canadense, de forma a gerar energia para o próprio assentamento ou para algum equipamento público no local como em escola, na cozinha industrial ou na associação de moradores.

O trabalho apontou ainda quanto de ganho haveria do ponto de vista ambiental com a utilização dessa biomassa. A estimativa é de que o Assentamento, com 238 famílias, teria uma biomassa suficiente para produzir mais de 400 mil metros cúbicos por ano e gerar em torno de 600 megawatts/ano, deixando de emitir mais de 50 mil de toneladas de CO2 anuais.

O cálculo de emissão de CO2 envolve também o impacto sobre a natureza desses dejetos. “Em pequenas propriedades, por exemplo, é comum, após o abate dos animais, quando há sobra de vísceras, o pessoal enterrar, o que contamina solo e traz impactos negativos”, completa Alexandre.

Como é um projeto de alcance social, para implantação do biodigestor o Assentamento precisaria de interferência de políticas públicas, segundo o coordenador. “Não dá para dizer que os proprietários sozinhos irão conseguir fazer porque, além da geração de energia, tem a questão de distribuição de energia. Se você tem um biodigestor centralizado no Assentamento, é preciso ter fiação e poste para distribuir”.

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