Memória viva, Querino Mendonça conta as histórias e lendas do Hotel Gaspar

O Hotel já hospedou inúmeras celebridades e já até foi até cenário de filme

Mazaroppi, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Fio Maravilha e o senador Fillinto Muller já se hospedaram por lá. Aniversariando junto com Campo Grande, o Hotel Gaspar além de fazer parte da identidade sul-mato-grossense guarda muitas histórias que viraram memória na mente de seu Querino Mendonça, hoje com 83 anos. O Jornal Midiamax foi atrás da memória viva do então engraxate que virou copeiro, e chegou a gerente do hotel e que hoje guarda lembranças de toda a trajetória na esquina onde em 1954 nascia o Hotel Gaspar.

Na manhã cinzenta de agosto, seu Querino, já com a fala pausada junto aos traços do tempo, recebeu a reportagem contente em poder relembrar a história do hotel que entrelaça com a sua. Com alguns lapsos devido a idade, o funcionário mais antigo de seu Antônio Gaspar (fundador do hotel), esteve hospitalizado esta semana, mas fez questão de contar um pouco do que passou ao longo dos mais de 30 anos em que trabalhou no hotel.

O aposentado é conhecido do seu Antônio Gaspar desde muito anos da inauguração do hotel. “Ele tinha um bar lusitano na 14 de julho. Eu trabalhava de garçom de dia. Porém no dia mesmo na inauguração, eu estava no quartel. Seis meses depois pedi baixa e entrei para trabalhar no Gaspar”, lembra o aposentado.

Segundo o funcionário, seu Antônio Gaspar dizia da necessidade de implantar um hotel na região, devido à chegada dos trens. Primeiro ele entrou como copeiro, atendendo o público interno, servindo às mesas, mas como era um funcionário de confiança, logo chegou a frente do hotel. “Em menos de pouco tempo, passei a atender a frente, fazer reservas das pessoas que chegavam. Na época eu estava me casando, precisava trabalhar mais”, explica seu Querino.

A relação com a família Gaspar está na memória do seu Antônio e a gratidão pela vida compartilhada ao longo dos 30 anos permanece viva nas memórias do seu Querino.  Da emoção à risada, o Jornal Midiamax quis saber  dos episódios que viraram “lenda” e também daqueles que ninguém nunca ouviu.

Personagens Ilustres

A pergunta que não quer calar. Che Guevara teria se hospedado por lá? Seu Querino sorri e afirma “ Esse é lenda”. Pelo menos enquanto eu estive lá, não. Che Guevara iria entrar pela Bolívia, deve ter parado em Corumbá. É igual a história do Jânio Quadros, alguns historiadores dizem que ele teria nascido lá. Disso eu não sei, mas se hospedar, não me lembro não”, explica seu Querino.

Por outro lado, segundo o funcionário, personalidades ilustres já se hospedaram no Hotel. Cauby Peixoto, Ângela Maria e até o Mazaroppi já teriam passado algumas noites no hotel de aparência sóbria e que revela muitas memórias “ Ali era um hotel muito bem localizado. Não me lembro as datas exatamente em que eles passaram por lá, mas nós hospedamos sim. Campo Grande tinha poucos hotéis naquela época. ”, relembra.

Sobre o senador Fillinto Muller, seu Querino afirma com veemência a passagem do homem público por Campo Grande. Era na época em que era tudo um Estado só. Segundo ele, o senador vinha resolver as demandas políticas “Às vezes ele vinha acompanhado do neto”, relembra seu Querino.  O senador foi um político brasileiro que atuou como chefe de polícia no Governo Vargas envolvendo algumas polêmicas internacionais.

A passagem de políticos que teriam se hospedado não para por aí. Pedro Pedrossian, governador do Mato Grosso do Sul  de 1961 a 1977, antes da divisão do Estado também vivia por lá. Segundo relatos Pedrossian até manteve no hotel o escritório de governo no então Mato Grosso Uno.

E por falar em gente famosa, seu Querino lembra do Fio Maravilha ter se hospedado, junto ao time do Flamengo. Mas o motivo da risada é para o time do Vasco, que segundo ele hospedou um goleiro pra lá de metido. Mazurkiewicz Iglesias, futebolista uruguaio teria se hospedado lá, junto ao time do Vasco “ Tivemos que arrumar um quarto só para ele, porque ele não se misturava com os outros jogadores”, lembra.

Além disso, o Hotel já foi palco de inúmeros ensaios de moda e até cenas de filmes foram gravadas lá. O filme “Cabeça a Prêmio do diretor Marco Ricca lançado em 2009 também utilizou a sede do hotel. As memórias não param por aí. O Hotel Gaspar já foi palco até de buscas policiais.

“Fora esses personagens me lembro de um episódio de um bandido que cometeu um crime violento no RJ. Ele se desentendeu com a noiva, e a jogou na janela. Logo depois ele veio para cá e se hospedou no hotel, mas nós não sabíamos. Quando a polícia chegou, ele já tinha fugido para o Pantanal”. completa.

Querino Mendonça, já apresenta traços de cansaço durante a entrevista e termina emocionado dizendo sobre a sorte de ter conhecido a família Gaspar principalmente seu Antônio, durante a sua vida. “Ele me ensinou tudo que eu sei fazer, desde muito novo. Depois que ele faleceu, a viúva dele cedeu a direção para um sobrinho dele. Depois disso, me aposentei e saí. Posso dizer que vivi boa parte da minha vida aqui. Gosto muito dessa família”, completa sorrindo. 

A relação de gratidão vem de ambas às partes. Tanto da do funcionário, quanto a dos donos do hotel. Nos corredores da história contada ali na Mato Grosso com a Calógeras, a neta de seu Gaspar, Cris Gaspar Melin, reafirma a importância de seu Querino no contexto da história viva do hotel. “Ah, seu Querino faz parte dessa história toda. É uma das poucas pessoas que sabem realmente contar sobre meu avô e seu trabalho no hotel”, afirma.

Hotel Gaspar

Completando 65 anos junto ao município, o Hotel funciona até hoje. Nos quatro andares, é perceptível trações de antiguidades. Se hospedar no Gaspar é como viver um pouco do que Campo grande foi em 1950. Os móveis dos quartos ainda são originais, assim com as máquinas da lavanderia, o armário da cozinha, as cadeiras do hall de entrada. Nas paredes, memórias que contam a história que também foi alvo de pesquisas e estudos e discussões sobre patrimônios e desenvolvimento local.  E quem é que nunca teve a curiosidade de entrar por lá? O Hotel Gaspar fica na Avenida Mato Grosso, número 2, na esquina com a Calógeras.

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