MASSACRE EM SUZANO: como pais e professores devem abordar tema com crianças

Especialista em psicologia social diz que é momento de discutir segurança nas escolas públicas

O massacre em que dois jovens encapuzados mataram oito pessoas na manhã desta quarta-feira (13) na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), abalou o país. O crime que vem sendo noticiado até mesmo ao vivo pela televisão e internet acaba impactando a visão das crianças. Desta forma, como pais e professores devem abordar o tema?

O psicólogo Ângelo Motti, especialista em psicologia social, disse que a melhor forma de ajudar as crianças a entenderem e a superarem o trauma é conversando abertamente sobre o assunto. Por serem mais sensíveis psicologicamente, as crianças, segundo Motti, acabam relacionando casos como o de Suzano com o seu cotidiano.

“É mais difícil para as crianças, porque a criança tem menor capacidade de absorver. Para o adulto é mais fácil de lidar, porque ele tem esse mecanismo de defesa de que ‘aquilo aconteceu longe daqui’, ele se conforma com o distanciamento do fato. Para a criança não, será muito difícil ela não associar [o massacre] com o dia a dia dela. Não tem como ela não pensar que aquilo pode acontecer na escola dela, na vizinhança dela”, disse ao Jornal Midiamax.

Para o psicólogo, os pais e professores devem conversar abertamente sobre o assunto com as crianças, para que elas possam desenvolver mecanismos de defesa e a entender o que levou os dois adolescentes a invadirem uma escola e atirar.

“A melhor forma é o diálogo porque [crimes] é algo que está fora do nosso controle. Tem que explicar a elas que estamos sujeitos a atitudes desequilibradas como essa, que elas devem ser mais atentas com as coisas ao seu redor, quais caminhos se devem seguir quando estamos em situações como essa, etc. Não que se crie uma paranoia, mas que ela tenha uma atenção permanente”, explicou o psicólogo.

Hora de discutir segurança nas escolas?

Motti destaca que crianças e adolescente acabam se sentindo mais inseguros principalmente nos sistemas públicos de atendimento, como as escolas e programas sociais, que são locais ‘onde a segurança está em situação mais vulnerável’.

“Vi há pouco uma discussão na TV sobre ser a hora de colocar em pauta a segurança nas escolas. Quando a gente pensa em segurança, a gente já pensa em guardas armados na frente das escolas para evitar que desconhecidos encapuzados entrem nas escolas, como em Suzano” pontuou.

A medida, na conclusão do psicólogo, deve levar a sensação de segurança imediata aos adultos que, por sua vez, acaba influenciando as crianças. “Isso dá uma suposta condição de conforto no sentido do trauma”, afirmou.

Como Suzano pode superar esse trauma?

A cidade de Suzano vive um luto após o massacre na escola. O trauma sofrido pela população levará algum tempo para ser superado e, conforme o psicólogo, saúde pública deverá ser colocada em prova para ajudar moradores.

“As crianças daquela escola deverão ter uma superação bastante trabalhada, porque aquilo foi uma atitude terrorista. Deverá ter alguma força-tarefa para de alta especialidade para reduzir ao máximo os efeitos desse terror, para reduzir ao máximo o tempo que isso vai atuar no consciente e subconsciente deles. Tanto alunos como funcionários dessa escola”, afirmou Motti.

Segundo ele, é possível que as crianças tenham perturbações de todas as formas, como transtornos no sono, ansiedade e falta de apetite.

Por que a violência contra a criança sensibiliza mais do que outros crimes?

Em outra entrevista ao Jornal Midiamax, em maio de 2018, Motti explicou porque a violência contra a criança sensibiliza mais do que outros crimes.

Segundo ele, todas as vezes em que alguém fere crianças ou idosos, a reação natural da sociedade é reagir de uma forma mais sensibilizada. “A sociedade tem um estabelecimento de que são pessoas vulneráveis, por condições, são incapazes de responder pela sua capacidade. Então toda vez que alguém agride, há uma comoção porque são pessoas frágeis, tem umas condições de inferioridade em relação ao adulto”, disse.

Ainda segundo o psicólogo, a criança seria como uma representação mística para as pessoas. “ A criança tem um aspecto no coletivo de que é divino, onde tudo começa, a inocência, esse simbolismo de que seria um ser divino, por isso, quando se toca, quando se fere esse ser divino, mostrasse as imperfeições da raça humana”, comenta Ângelo.

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