Em 10 anos, mais de 500 indígenas tiraram a própria vida em MS

No último ano, 93,6% dos suicídios indígenas do centro-oeste aconteceram no MS

Com uma cultura diferente, eles vivem em aldeias cercadas por cidades e com costumes que interferem em sua forma de viver. Morrem de forma natural, em batalhas por terras e por suas próprias mãos quando decidem cometer suicídio. Eles são a população indígena, povo originário do território brasileiro.

Além de enfrentarem desterritorialização, a comunidade indígena de Mato Grosso do Sul é a segunda com maior número de mortes suicidas no Brasil. Nos últimos dez anos foram registrados 523 casos de suicídio em povos indígenas sul mato grossense, segundo dados do Ministério da Saúde.

Em 2018, 93,6% dos suicídios indígenas do centro-oeste aconteceram no Estado, de acordo com o Ministério da Saúde. Segundo o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), 31 casos de suicídio foram notificados no MS, em 2017. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 64,5% dessas mortes foram na faixa etária de 15 a 19 anos.

Em 10 anos, mais de 500 indígenas tiraram a própria vida em MS
Elaborado por: Dândara Genelhú | Especial para Midiamax

Em 2018, segundo Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, foram 44 casos de suicídio entre povos indígenas no Estado. A região com maior incidência é a de Dourados, onde foram notificados 41 casos no ano passado, equivalente a 38,6% do índice total de suicídios na região. Outros três casos ocorreram em Campo Grande. 

Possíveis causas

Segundo a psicóloga especializada em saúde indígena, Josiane Wolfart, uma das principais causas para os altos índices de suicídio na população indígena é a própria compreensão do indivíduo indígena na sociedade. Josiane também destaca as perdas territoriais como um gatilho para as mortes. “A luta pela terra, pela regularização de territórios indígenas, leva as pessoas a pensarem em tirar a própria vida, até mesmo como forma de protesto”.

A psicóloga afirma que a passagem da infância para a vida adulta também pode estar relacionada com as mortes suicidas. “Existe às vezes uma crise da passagem, porque ao mesmo tempo que ele tem que ser esse indígena dentro da comunidade, com um papel para ser representado e atividades sociais a serem desenvolvidas, ele tem esse contato com a sociedade nacional, através da escola, faculdade, da circulação entre a comunidade branca”.

O cacique capitão da aldeia Jaguapiru, Isael Morales, conta que a influência das cidades é o que mais atrapalha as práticas culturais da comunidade  indígena. “Por que nós somos prensados por duas cidades, Dourados e Itaporã”.

Josiane diz que as mortes por lesões autoprovocadas não podem ser consideradas como as da população ocidental. “Não pode ser tratado como se trata um suicídio ocidental, apesar de ainda ter alguns resquícios do pensamento ocidental dentro da comunidade indígena”, comenta. Ela acrescenta que algumas comunidades indígenas não utilizam o termo suicídio, pois é um conceito ocidental.

Em 10 anos, mais de 500 indígenas tiraram a própria vida em MS
Dourados é o município de Mato Grosso do Sul com maior índice de suicídio indígena. Foto: Ana Mendes

A grande Dourados

Diante dos dados alarmantes, a psicóloga acredita que a superlotação em algumas reservas indígenas, criadas pelo estado, é um dos fatores para agravar os índices de suicídios em Dourados. Nessas aldeias, determinados grupos étnicos dividem o mesmo espaço.  

A limitação territorial atrapalha esses grupos indígenas a viverem de forma tradicional. “A gente sabe que são três etnias dividindo o mesmo espaço, são apenas 3.500 hectares aproximadamente. E vemos que têm necessidades que às vezes não são supridas, como alimentação e a própria necessidade cultural, execução de rituais e crenças”, diz Josiane. 

A aldeia em questão é a Jaguapiru, localizada a 228 quilômetros da capital, que serve de lar para as etnias Kaiowá, Guarani e Terena. O representante dos três povos, Isael Morales, conta que todos moram juntos, como vizinhos, mas admite que às vezes o espaço limitado incomoda algumas famílias. 

“O índio sempre foi acostumado a ser livre. Daí ele acorda, põe a cara para fora da oca dele e já bate de frente com o vizinho. Então não tem mais essa liberdade, como tínhamos antigamente”, comenta sobre a falta de espaço na aldeia.

O cacique afirma que outro problema é a proximidade com a cidade, que acaba sendo porta de entrada para bebidas e drogas. “É 100% da cidade, porque tem várias entradas. Nós estamos prensados mesmo, o que divide nossa aldeia das cidades é uma rodovia com anel viário. Senão Dourados ia acabar expulsando os indígenas daqui”, ressalta.

Nós estamos prensados mesmo, o que divide nossa aldeia das cidades é uma rodovia com anel viário. Senão Dourados ia acabar expulsando os indígenas daqui.

– Isael Morales

Dentre as 41 mortes indígenas por lesões auto provocadas em Dourados, 28 delas foram de jovens entre 15 a 29 anos, e sete entre crianças de cinco a 14 anos. O cacique capitão Isael Morales, afirma que os suicídios que acontecem na sua aldeia são sempre praticados por jovens.  “Qualquer probleminha que dá entre eles, por exemplo casal, eles já ficam sentidos e cometem suicídio”, relata o cacique.

Ser jovem na aldeia

Gedio Perigal, de 24 anos, é terena e vive na aldeia Jaguapiru. O jovem ajuda o pai, com afazeres rurais na parte da manhã, de tarde ele faz estágio em uma unidade dos Correios que têm em sua aldeia, e quando anoitece ele vai para escola, pois está cursando o segundo ano do ensino médio. 

Exemplo de jovem que se ocupa dentro das limitações da aldeia, vê a comunidade como outra qualquer, onde existem vários grupos diferentes. Sobre o uso de drogas e bebidas alcoólicas na juventude, ele admite que também sofrem com este problema. “Têm jovens que se perderam, que escolheram esse caminho”, afirma.

Foi um choque para nossa família, não esperávamos, dentro da nossa aldeia, da nossa família.

– Gedio Perigal

O estudante já vivenciou duas perdas por suicídio. A que mais o afetou foi a do sobrinho, que havia acabado de completar 18 anos. “Foi um choque para nossa família, não esperávamos, dentro da nossa aldeia, da nossa família”, relembra.

Gedio também já perdeu um colega da aldeia Bororó, que se suicidou na época de escola dos dois. Hoje ele comenta que tenta conversar com seus amigos sobre o assunto. “A gente procura fortalecer o relacionamento, para não manter a pessoa isolada, e que isso não atinja eles”.

 

Em 10 anos, mais de 500 indígenas tiraram a própria vida em MS
Foto: Mobilização Nacional Indígena

Ajuda certa

A pesquisadora, Josiane Wolfart afirma que a primeira medida a ser tomada para prevenção dos suicídios é uma conversa com a comunidade, para entender quais as necessidades deles. “Não é só chegar lá com o material pronto, precisa sempre fazer essa escuta antes”.

O cacique Isael Morales conta que atualmente existe um CRAS que atua dentro da aldeia, lá eles têm psicólogos e assistentes social. Para Isael, a solução para os suicídios pode ser tratada de forma mais direta. “Eu acredito em projetos sociais pequenos, não adianta projeto político grande. Tem que ser no dia a dia, no corpo da família”, explica o cacique.

Eu acredito em projetos sociais pequenos, não adianta projeto político grande. Tem que ser no dia a dia, no corpo da família

– Isael Morales

Gedio percebe que faltam estudos intensos sobre a comunidade indígena, para ajudar na elaboração de programas eficazes. Sobre o mês de prevenção ao suicídio ele disse que normalmente são mais trabalhadas nas escolas, mas não este ano. “Até agora não vi nada”, revela.

Ele acredita que as formas de prevenção deveriam ter como objetivo a família em si. “Geralmente o processo de suicídio na aldeia ocorre porque não há apoio da família, então se trabalhassem em cima dela, os jovens teriam um abraço da família e não chegariam a se suicidar”.

 

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