Documentos da Agetran confirmam cortes e redução de ônibus rodando em Campo Grande

Reportagem teve acesso à 'Ordem de Serviço' do órgão municipal que autoriza Consórcio a manter metade da frota praticamente parada

Documentos oficiais da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) aos quais o Jornal Midiamax teve acesso com exclusividade comprovam as denúncias de motoristas e passageiros do transporte coletivo urbano em Campo Grande sobre a sistemática redução na frota em circulação e cortes nas linhas de ônibus desde a assinatura do contrato de concessão com o Consórcio Guaicurus, em 2012.

A OS (Ordem de Serviço) que a Agetran liberou para a reportagem após reiteradas solicitações, define oficialmente o funcionamento do sistema de transporte coletivo campo-grandense. Na prática, registra cada linha cumprida pelos ônibus, as distâncias percorridas, itinerários e o tempo entre cada volta.

A suspeita de que mudanças na Ordem de Serviço vêm beneficiando os empresário e prejudicando os passageiros, com cada vez menos ônibus circulando e cada vez mais lotação e demora partiu de passageiros leitores do Jornal Midiamax, e foi confirmada até por funcionários do Consórcio que resolveram falar com a reportagem.

Agora, com as tabelas na Ordem de Serviço é possível comparar as alterações nas linhas das quatro empresas do Consórcio Guaicurus. Todas, com aval da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), que regulamenta os horários e autoriza o recolhimento dos ônibus.

Inicialmente, a denúncia apontaria a diminuição da frota em pelo menos 20 linhas do transporte coletivo e atingiriam principalmente as linhas nos fins de semana.  No entanto, a OS revela que o esquema de cortes é ainda maior e afeta até horários considerados de picos no movimento dos ônibus.

Cada vez mais tempo no ponto de ônibus

Um dos funcionários relata que a divulgação dessas mudanças é praticamente inexistente. O ‘sigilo’ acaba impactando os passageiros, que sofrem com constantes atrasos, lotação e ônibus sucateados. “Com menos tabelas, uma linha tem menos ônibus rodando e passa menos vezes em cada ponto de parada. Assim, os carros andam mais cheios, e os empresários economizam”, explicou.

Por outro lado, a diminuição da velocidade média e da eficiência, aliada ao preço alto da tarifa e à falta de conforto nos ônibus, afugenta os passageiros e reforça a crise no transporte coletivo urbano de Campo Grande.

Tanto Agetran e Consórcio Guaicurus não escondem que diminuem drasticamente o número de ônibus nas ruas durante o dia, deixando até 235 ônibus parados por dia entre terminais e garagens, diferentemente do estipulado pela Agereg (Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos).

Conforme alega a Agetran, da frota de 558 ônibus, 61 ficariam parados até as 8 horas. Depois, apenas metade, ou 274 veículos, exatamente, ficam na frota de ‘efetivos’ para atender os passageiros, que lotam pontos de ônibus e plataformas nos terminais. O restante, de 223 veículos, fica apenas como ‘reforço’.

Linhas dos bairros distantes afetadas

A Viação São Francisco, apesar de ser uma das empresas com menor número de linhas e de ônibus, resolveu reajustar cerca de 9 linhas efetuando cortes e reduzindo a frota dos veículos que atendiam a demanda no dia-a-dia dos passageiros.

O primeiro alvo foi a linha 202 – Estrela Dalva/Giocondo Orsi que operava com dois carros nos últimos meses, passa a operar somente com um veículo nos dias de semana, possuindo agora um intervalo de mais de uma hora.

A linha 203 – Mata do Jacinto também sofreu mudança nos horários de sábado e está rodando com apenas um carro no período da noite, o que era dois antigamente.

(Foto: Midiamax)

A linha 205 – Nova Bahia perdeu um dos seus veículos durante o domingo e agora atenderá toda a demanda com somente um ônibus. A redução na oferta afeta o tempo de espera dos usuários que agora esperam pelo menos 1h20 pelo ônibus.

Já a linha 206 – Estrela Dalva perdeu um dos seus veículos após a onda de corte. De acordo com a ordem de serviço estipulada pela Agetran, a linha passa a atender a região com apenas um ônibus e um intervalo de 1h30 aproximadamente.

Usuários do bairro Nova Lima e Colúmbia também sofreram com os cortes. Conforme aponta a ordem de serviço, a linha 208 foi reduzida para somente dois ônibus durante o dia, enquanto naturalmente eram três veículos operando na linha.

As linhas 219 e 231 que atendem somente o Otávio Pécora foram afetadas. A segunda linha perdeu um carro e naturalmente, já opera com um micro-ônibus, fugindo dos padrões das outras linhas, enquanto a primeira reduziu sua oferta e passa a recolher no início da noite, sobrecarregando a sua “companheira”.

A região da Vila Nasser (linha 226), uma das linhas que opera com ônibus com ar condicionado sofreu redução em oferta e opera com somente um carro nos dias de semana e aos finais de semana, foi mantido a operação com somente um ônibus. A regra se aplica ao considerado “reforço” que dá apenas duas voltas e não opera mais na linha.

Uma das linhas que opera com ônibus ar, a 226, perdeu um dos seus veículos durante a semana. (Foto: Midiamax)

A 237 – Oscar Salazar reduziu a sua demanda e após operar com três carros ao dia, passará a ter somente dois ônibus e consequentemente um aumento considerável no intervalo.

‘Golpe do Reforço’

Segundo servidores municipais ligados às agências que regulamentam e fiscalizam a concessão do transporte coletivo em Campo Grande, um ‘esquema’ adotado para facilitar a vida dos empresários seria incluir carros nas linhas como parte da chamada ‘frota reserva’.

Com isso, a frota aparenta ser maior do que realmente é, e os ônibus são mantidos parados nos arredores dos terminais de ônibus. “Nem na garagem eles guardam, para economizar o diesel”, diz.

A reportagem flagrou recentemente o suposto esquema da frota de reforço, confirmado pelo Consórcio Guaicurus, que jogou a culpa para a Agetran. Órgão municipal, por sua vez, confirmou a versão dos empresários e ainda admitiu que autoriza até metade da frota a ser deixada como ‘reserva’.

É o caso, por exemplo, na Viação Cidade Morena, da linha 061 – Moreninhas/Shopping, uma das principais da cidade e com maior número de passageiros carregados por mês, onde dois carros foram retirados da linha e agora, a demanda oferece 14 veículos sendo que alguns operam como reforço, reduzindo ainda mais o serviço.

A linha 508 – Coopharádio teve uma tabela retirada, passando de 3 para somente duas durante o dia e com um intervalo de aproximadamente em 40 minutos no mínimo. Já a 512 – Mansur sofreu corte ao sábado, onde a linha para de rodar por volta das 13h e anteriormente, iria até o fim da noite. Além disso, ela também não opera aos domingos, fazendo as pessoas recorrerem a outras linhas.

Ligando terminal e bairro, a configuração da linha 511 – Dr. Albuquerque/Tropical passará a vigorar com somente um carro a partir da 12h de sábado, já que a segunda tabela que rodava até o fim da noite, irá somente até o horário do almoço quando o veículo recolhe sentido terminal ou garagem.

Além de ter readequação de horários, a linha 061 sofreu redução de oferta, o que representa menor número de veículos operando durante o dia. (Foto: Midiamax)

A 051 – Bandeirantes/Shopping que é operada pela Jaguar Transportes Urbanos decidiu diminuir a sua frota no período noturno e prejudicar seus os passageiros. Das 8 tabelas que estão inclusas para rodarem aos dias de semana, pelo menos 3 “somem” no período noturno.

A linha 081 – Bandeirantes/Nova Bahia opera com 17 carros ao longo do dia de acordo com a ordem de serviço, porém, isso configura-se somente no papel.

Entre recolhimento de veículos, os passageiros costumam pelo menos 10 a 11 carros fixos diariamente e sofrem com a lotação deles. Isso acontece porque o Consórcio Guaicurus resolveu reduzir a frota em alguns horários e deixar os ônibus como reforços.

Também vinda da Jaguar, a linha 111 – Aero Rancho/Centenário sofreu redução de frota no período noturno e enquanto era dois carros operando normalmente, um acaba recolhendo por volta das 20h e deixa um intervalo enorme entre uma volta de aproximadamente 40 minutos.

Usuários da linha 311 – Coophavilla sofrem com o descaso aos sábados, quando a linha que opera com apenas dois veículos, acaba vendo um ônibus recolher antes das 17h e deixando mais de seis horas apenas um carro por volta. A redução também atinge os dias de semana, quando um carro acaba recolhendo antes das 21h.

Passageiros que utilizam a linha 319 – Dom Antônio/Lageado e rotineiramente acabam vendo pelo menos 7 carros durante os dias de semana, devem perceber a nova configuração da linha que sofrerá impacto com a onda de cortes e redução. A linha perderá pelo menos 4 carros durante a manhã, quando os considerados “reforços” não dão nem meia volta e já recolhem, ludibriando quem precisa chegar ao seu compromisso no horário.

Logo abaixo da tabela especificando os detalhes da linha 319, há uma observação “alertando” para a redução de frota. (Foto: Midiamax)

Viação Campo Grande, campeã nos cortes

A Viação Campo Grande é a responsável pelo maior número de cortes efetuados nas linhas do transporte coletivo nos últimos meses. A ordem de serviço atualizada, aponta que a empresa retirou tabela ou diminui a demanda de carros em pelo menos 11 linhas da cidade, colocando na balança também a extinção de uma linha executiva.

Sem o menor pudor, a empresa iniciou sua operação de cortes nas linhas de bairro, como a 216 – Estrela do Sul e a 235 – Talismã/Izabel Garden que também carregam passageiros oriundos do Terminal General Osório. As linhas perderam uma de suas tabelas aos sábados, aumentando o intervalo de espera e coincidentemente, as linhas recolhem no mesmo horário.

Atendida pela empresa, as pessoas do bairro José Abraão perceberam o impacto na demora dos ônibus e foi constatado que no sábado, a linha 401 perdeu um dos seus ônibus logo no início da manhã, aonde inicialmente a operação começa com 3 carros e a partir de um determinado horário, passa a ser somente 2 e com um intervalo de aproximadamente 30 minutos.

Santa Carmélia e Santo Amaro

As linhas 402 – Santa Carmélia/Shopping e 405 – Santa Amaro passam a ter redução na frota e acabam tendo horários distintos com o que estava programado no início do ano pela Agetran. As linhas recolhem seus ônibus em determinado período da manhã e só retornam nos horários considerados de picos, justificando assim, o aumento de intervalo entre uma volta e outra, podendo chegar até 40 minutos.

A linha 407, com a onda de corte, não opera mais aos finais de semana. (Foto: Midiamax)

A linha 407 – Ana Maria do Couto que passava pelo Terminal Júlio de Castilho sofreu um dos maiores impactos com a onda de corte ao perder suas tabelas que rodavam nos finais de semana. Anteriormente, a linha já tinha um grande intervalo e agora, simplesmente para de operar, prejudicando as linhas 408 – Jd. Aeroporto e 411 – Santa Mônica, que passarão a atender os locais do Ana Maria do Couto, Saionara e Sílvia Regina, que faziam parte do trajeto.

Anteriormente rodando com dois carros de segunda a sábado, a linha 415 – Jardim Imá passa por reformulação e começa a atender com somente um carro durante o dia, já que a segunda tabela foi cortada e retornando apenas como “reforço” da linha.

Linhas como 071 – Bandeirantes/Júlio de Castilho e 073 – Nova Bahia/Júlio Castilho também entraram na lista de linhas que perderam parte da frota que rodava e agora passam a operar com uma nova configuração. A primeira por exemplo, possuía cerca de 9 carros ao longo dos dias úteis e passa a configurar com somente 7 e parte dela, são somente reforços que param durante determinados horários e só retornam nos horários de picos.

A 073 também configurava com um maior número de carros, 12, e agora passa a operar com somente 10 carros de segunda a sexta-feira. Um corte prejudicial ao tamanho da linha que atende pelo menos três terminais da cidade.

17 ônibus na tabela, mas só 10 fixos

Apesar de estar contando 17 carros na ordem de serviço, a linha 080 – Aero Rancho/Gen. Osório roda com uma numeração maior de carros justamente por conta da redução da frota, já que circunstancialmente, ela opera com apenas 10 veículos fixos, enquanto os outros carros recolhem em certos períodos e só retornam como reforço, deixando um enorme buraco entre as tabelas.

No conteúdo da ordem de serviço é possível identificar que houve redução de oferta e aumento no tempo de espera entre uma tabela e outra. (Foto: Midiamax)

Por fim, a linha 085 – Morenão/Júlio de Castilho também sofreu com o Consórcio Guaicurus. A linha perdeu um carro durante os dias de semana e passam operar com somente 11, onde anteriormente, eram 12 carros com intervalos médios de até 15 minutos e agora a espera sobe para até 20 minutos.

Fim das linhas executivas

O plano do Consórcio Guaicurus é fazer com que as linhas consideradas “executivas” sejam extintas gradativamente com a justificativa de que os ônibus com ar condicionado consomem mais diesel do que os veículos considerados convencionais que rodam nas linhas mais populares. Na atual frota de veículos, apenas 23 são ônibus executivos.

Somente no ano de 2018, duas linhas executivas foram completamente extintas sendo a 390 – Coophavilla/Shopping e a linha 290 – Mata do Jacinto/Bosque dos Ipês/Praça Ary Coelho, logo após a greve dos caminhoneiros.

No mês de junho deste ano, o Consórcio Guaicurus e a Agetran decidiram por realizar uma nova extinção e os passageiros do José Abraão é quem deve sofrer o impacto. A linha 491 – José Abraão/Shopping foi extinta e consequentemente, dois carros executivos deixaram de rodar na cidade.

A linha executiva que atendia a região do José Abraão não será mais vista, uma vez que foi extinta pelo Consórcio Guaicurus. (Foto: Midiamax)

A mudança afeta a linha 403 – Santa Carmélia que passa a atender parte do público do José Abraão e também os estudantes da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), além de realizar o trajeto até a Prefeitura de Campo Grande, destino que não estava previsto na última alteração da OS.

CPI dos Ônibus e inquéritos no MPMS

Os vereadores de Campo Grande receberam uma proposta de abertura da CPI dos Ônibus, mas apenas cinco assinaram e a maioria é contra investigar o Consórcio Guaicurus e a atuação dos órgãos municipais envolvidos.

Até o momento, os parlamentares que aceitam investigar as suspeitas sobre o contrato de transporte coletivo na Câmara Municipal de Campo Grande são Vinicius Siqueira (DEM), André Salineiro (PSDB), Cida Amaral (PROS), Dr. Loester (MDB) e Dr. Lívio Viana (PSDB).

Enquanto isso, o MPMS (Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul) informa que possui ao menos cinco procedimentos em andamento sobre o contrato de concessão dos ônibus em Campo Grande. Uma das investigações apura porque a Agereg teria liberado o Consórcio Guaicurus até de pagar multas de trânsito emitidas pela Agetran.

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