Crianças no front: Dia das Crianças paraguaio é ferida ainda aberta no país assolado pela guerra

Há 150 anos, confronto sangrento matou milhares de crianças durante a Guerra do Paraguai

Obra de Pedro Américo retrata vitória de tropa da Tríplice Aliança em batalha que vitimou milhares de crianças | Foto: Reprodução | Museu do Império

No Brasil, o dia 12 de outubro é o Dia da Criança. A data ganhou o apelo comercial na década de 1960, quando fabricantes de brinquedos passaram a explorá-la para a venda de produtos infantis. Ao cruzar a fronteira, porém, a data ganha outra forma: o Dia da Criança no Paraguai é celebrado em 16 de agosto. Na celebração, habita uma efeméride nefasta.

Há exatos 150 anos ocorria a Batalha de Acosta Ñu, também conhecida como “Batalha de Los Niños” ou, ainda, “Batalha de Campo Grande”. O confronto foi liderado por Conde D’Eu, francês então com 27 anos, sem experiência em estratégias de guerra e esposo da Princesa Isabel. Para os paraguaios, a batalha foi uma das últimas derrotas sofridas, e que em poucos meses consolidaria a vitória da Tríplice Aliança na mais famosa guerra ocorrida na América do Sul, e que avassalou o Paraguai.

É sobre este confronto que se retrata a tela “Batalha de Campo Grande”, atribuída ao artista paraibano Pedro Américo (1843-1905), atualmente no acervo do Museu Imperial, em Petrópolis (RJ). A tela (veja no topo) descreve o que a história oficial contou: Conde D’Eu sob risco de ataque, sendo heroicamente protegido pelo Capitão Francisco de Almeida e Castro enquanto homens paraguaios são aniquilados pela tropa.

Mas, o que a Batalha de Acosta Ñu tem a ver com o Dia das Crianças paraguaio?

É que àquela altura da guerra, as tropas paraguaias já haviam sido praticamente dizimadas, sobrando apenas oficiais de maiores patentes. Até então, a estimativa é de que cerca de 70% dos homens adultos tenham morrido em campo. O número subiria para 90% até o fim da guerra. Ou seja: não havia efetivo para um confronto de igual para igual, por assim dizer.

Registro do pós guerra no Paraguai: população foi reduzida a basicamente mulheres e crianças | Foto: Biblioteca Nacional | Reprodução

De acordo com uma das versões históricas, o general Bernardino Caballero recrutou cerca de 3,5 mil paraguaios para compor o front de guerra para a batalha. Neste grupo, estariam basicamente crianças e adolescentes. A ideia era fantasiá-los como militares, inclusive, com fardamento, barbas postiças e pedaços de paus que simulassem rifles e, assim, tentar intimidar os cerca de 20 mil homens que marchavam em direção à região da Acosta, a cerca de 75 km de Assunção.

O que a tela de Pedro Américo não mostraria, portanto, é uma outra versão do fato histórico, revisionado a partir da década de 1970: Conde D’Eu jamais teria estado em risco, efetivamente falando, durante a batalha. A história revisitada aponta que a Batalha de Acosta Ñu foi mais que injusta: foi cruel.

Esta reforma do olhar heroico e patriótico de brasileiros na Guerra da Tríplice Aliança foi proposta com mais força a partir de obras como “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano (1978), e “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai”, de Júlio José Chiavenato (1979). Ambas apresentavam contrapontos à narrativa tradicional da guerra que divergiam intensamente da história até então oficial.

A obra de Chiavenato, portanto, descaracteriza o Conde D’Eu como herói nacional. Por ordem do esposo da princesa Isabel, as tropas teriam ignorado protocolos de guerra de forma perversa. Não confrontar contra crianças é uma delas. A acusação sustentada por Chiavenatto contra o conde é clara. Ele é descrito como um sádico que deliberadamente ordenou degolamento de crianças e incêndio na área de pastagem onde a batalha ocorreu, o que teria aumentado o número de vítimas.

“Crianças de seis a oito anos, no calor da batalha, aterrorizadas, agarraram-se às pernas dos soldados brasileiros, gritando para não seriam mortos. E eles foram abatidos no local. Escondidas na selva próxima, as mães assistiram ao desenvolvimento da luta”

 Júlio José Chiavenato, em “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai” (1979)

Segundo o historiador, o Conde D’eu teria ordenado que no campo de batalha não deveria haver vestígios de feridos de guerra. Mas restaram cinzas: o fogo ateado sobre a planície, atualmente Eusebio Ayala, no Departamento de Cordillera, ocultou o derramamento de sangue. Esta seria a história contada no Paraguai, mas eclipsada no Brasil.

Chiavenatto enfrentou duras críticas nas décadas seguintes e até hoje seus relatos – obtidos a partir de pesquisas documentais pela América Latina enquanto fugia dos efeitos o AI 5 (Ato Institucional 5) – sofrem julgamentos.

Isso porque existe consenso de que o recrutamento de crianças e adolescentes foi uma deliberação do comando de guerra paraguaio, sob ordem de Solano Lopez, o ditador cuja morte resultou no fim da guerra. Seria idôneo, portanto, reforçar narrativas que responsabilizem as tropas aliadas pelos infanticídios ocorridos em 16 de agosto de 1869?

Nesse contexto, em 2002, o historiador Francisco Doratioto lança pela Companhia das Letras a obra “Maldita Guerra”, a partir do qual as trincheiras da guerra são revisitadas e polêmicas, por consequência, são reacendidas. Doratioto volta a refletir sobre isso, apontando que não havia justificativa para os recrutamentos em uma guerra praticamente perdida.

Panteão dos Heróis, em Assunção. Cinzas dos campos de batalhas foram depositados no mausoléu | Foto: Felipe Mendez | Wikipedia

“Nessa circunstância, a persistência em jogar contra os aliados tropas improvisadas, composta em grande parte de velhos e crianças, somente pode ser classificada de indefensável”, diz o autor.

Para ele, não resta dúvidas que a Batalha de Acosta Ñu é vergonhosa, pela desproporção entre os adversários. Mas, o enaltecimento das crianças como mártires também não é adequado.

“Alguns trabalhos populistas, cultuadores, implícita ou explicitamente, da tirania, se limitam a destacar a coragem de crianças e velhos e a buscar levantar no leitor a indignação de, afinal, os aliados terem lutado e matado um inimigo mais fraco. Esses trabalhos induzem o leitor a admirar a Solano López, em lugar de responsabilizar o ditador pela morte de crianças e velhos, ao levá-los a lutar numa guerra já perdida”, diz Doratioto.

De fato, não existe palavra final na história. Mas não há dúvidas sobre o infanticídio ocorrido no front. E nem sobre a necessidade de uma reflexão: quantos, afinal, são culpados na episódio que é uma ferida ainda aberta na história do país vizinho?

A aniquilação de crianças em uma batalha e o enaltecimento dos jovens como mártires, talvez, reforce o aprendizado de que em guerras não há vencedores. E que não haja limites aos grupos – seja do lado de cá como de lá – que mexem em feridas profundas, ainda não cicatrizadas.

Hoje é o Dia de los Niños no Paraguai, que homenageia, seja lá por qual razão, aquelas que morreram entre os disparos e atrocidades da guerra. Mas, que todas as crianças sejam celebradas. E que todas durmam em paz. Mártires ou não.

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