#CG120: Sem asfalto, água e esgoto, Campo Grande de 110 anos atrás era só poeira e vontade de crescer

Planta de 1909 funcionou como primeiro pontapé para desenvolvimento da cidade

A planta do primeiro traçado de ruas de Campo Grande, desenhada pelo engenheiro Nilo Javari Barém em 1909, é velha conhecida de quem pesquisa arquivos históricos da cidade. Quem se debruça na imagem constata não só que a cidade era basicamente o Centro atual, mas também que até as ruas mais famosas tinham outros nomes.

A Avenida Afonso Pena, por exemplo, era a Rua Marechal Hermes. A Rua Dom Aquino chamava-se Rua 1º de Março. A Rua 26 de Agosto, por sua vez, era a Rua Afonso Pena. A Padre João Crippa era chamada de 15 de Agosto. Quem quisesse ir à Rua Rui Barbosa precisaria pedir as direções da Rua 24 de Fevereiro. Por fim, atual Avenida Calógeras era a Rua Santo Antônio, onde foi erguida a primeira igreja da cidade.

A delimitação do arruamento é o primeiro sintoma de que o povoado, cujo número de habitantes não passava de 400 pessoas, queria crescer. E cresceu. Dali a 70 anos o local passaria por vários estágios de desenvolvimento, até tornar-se em 1979, a capital do recém criado Estado de Mato Grosso do Sul.

Antiga feira livre da cidade: meio de transporte eram carroças | Foto: Arquivo do Arca | Reprodução

Mas, o que o traçado de Nilo Barem não mostra é que a infraestrutura da cidade era basicamente rudimentar, com casinhas simples, de pau-a-pique e cobertas com palhinha de sapé, aos moldes da casa de José Antonio Pereira – a única que restou e, ainda assim, bem longe do antigo perímetro urbano. Não havia rede de esgoto, água encanada, sistema de energia elétrica, ou qualquer tipo de pavimentação. Campo Grande era um “poeirão”, com ruas de chão de terra vermelha, que futuramente iria batizar o apelido “Cidade Morena”.

Poucos anos antes, o arraial era composto apenas por “24 ranchos de 2 metros de altura construídos com esteios de aroeira, janelas de meio metro e paredes de barro rebocadas com excrementos de gado”, segundo trouxe Arlindo de Andrade Gomes em trecho de “O município de Campo Grande em 1922”, um dos livros que conta a gênese do município.

E era de se esperar que fosse assim. Campo Grande nem sequer era considerada cidade, ao contrário da maioria das capitais brasileiras, que já dispunham de sistema modernizado de habitação, transporte público, esgotamento sanitário, fornecimento de água e sistema de iluminação de ruas.

Pontapé do crescimento

A planta do rocio, que delimitou a zona urbana da cidade no início do século passado, foi como um grande pontapé para o desenvolvimento. No ano seguinte, quando começou a ser executada, a vila passou a contar com um sistema de iluminação pública, quando 80 lampiões de querosene foram instalados em postes nas esquinas e nos centros das quadras. A primeira usina de energia elétroc, que fica às margens do Córrego Ceroulas, só seria implantada na década de 1920.

Rua 14 de Julho na década de 1920: ruas sem asfalto e lamparinas à querosene | Foto: Arquivo do Arca | Reprodução

O sistema de abastecimento de água também viria na mesma década. Até então, utilizavam-se poços e regos d’água para o fornecimento de água e sistema de esgoto não havia. A necessidade de investir em um sistema de abastecimento ocorreu principalmente quando a sede do Comando da Circunscrição Militar foi transferido de Corumbá para Campo Grande, o que causou crescimento significativo no número de habitantes.

Foi mais um motor do desenvolvimento. Talvez, mais que isso. As edificações militares em estilo eclético começaram a dar nova forma à cidade. As casinhas de pau-a-pique e telhados de sapé começaram sumir em função do concreto. Para se ter uma ideia, o primeiro prédio de alvenaria – a Morada dos Baís – só foi concluída em 1918.

Principal reivindicação dos campo-grandenses na atualidade, asfalto é algo relativamente recente na cidade. Para se ter uma ideia, em 1927 apenas duas quadras da Rua 14 de Julho tinham algum tipo de pavimentação. Somente em 1945 é que a Avenida Calógeras recebeu paralelepípedos, até porque era lá que funcionava o Paço Municipal e a Câmara dos Vereadores. Além do mais, era a Calógeras a via que ligava o Centro à Estação Ferroviária. Somente em 1949 é que o quadrilátero compreendido entre a Avenida Mato Gross, Rui Barbosa, 15 de Novembro e 14 de Julho receberam pavimentação asfáltica.

Foi a ferrovia?

Existe um mito que reforça o desenvolvimento da cidade à chegada da NOB (Noroeste do Brasil), a empresa que implantou a linha férrea na cidade, tenha sido o responsável pelo desenvolvimento da cidade. Para o professor e historiador Eronildo Barbosa da Silva, no entanto, nenhum fenômeno pode ser explicado apenas por uma causa.

Ferrovia foi fundamental, mas fim da I Guerra Mundial foi mais decisiva para por Campo Grande na rota do desenvolvimento | Foto: Arquivo do Arca | Reprodução

Para ele, é claro que a ferrovia foi o instrumento que permitiu desabrochar parte das potencialidades econômicas e políticas de Campo Grande e, sem duvida nenhuma, o mais importante.

“Mas, a gente não pode analisar um fenômeno econômico a partir de um vetor, apenas. É preciso olhar, por exemplo, que Campo Grande se beneficiou também, com as mudanças provenientes do fim da Primeira Guerra Mundial, que traçaram no país logísticas estratégicas de defesa territorial”, aponta o professor.

Desta forma, Corumbá – que até o início do século passado era a cidade com maior importância econômica no Estado – perderia sua relevância, digamos assim, houvesse ou não estrada de ferro.

A propósito, quando Campo Grande recebeu os quarteis, na década de 1920, vieram também os Correios e Telégrafos e as grande migrações. Com isso, japoneses, sírios e libaneses – que vieram com algum capital ou com alguma tecnologia inovadora – proporcionaram à Campo Grande experimentar o desenvolvimento.

“A Primeira Guerra despertou no país algo que a gente chama de Logística de Defesa. A linha férrea, no caso, surgiu em defesa de um pensamento estratégico. Não é que ela não seja importante. Ela é! Mas é mais um instrumento que a causa do desenvolvimento. Se não fosse assim, o Estado teria morrido quando as atividades dela foram interrompidas, na década de 1990”, conclui o historiador.

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