#CG120: Para fugir da guerra e por missão religiosa, iemenita e padre adotaram Campo Grande como lar

Histórias diferentes se unem pelo amor à Capital Morena

Eles escolheram criar raízes na Capital Morena. Um viveu em um país dominado pela guerra e o outro chegou ao Brasil por missão religiosa. O iemenita Abdulkareen Farhan Armed Ghaleb e o irlândes Micheal Feeney Dominic têm histórias de vida muito diferentes, mas que se encontram em apenas um ponto: o amor por Campo Grande.

Em 1972, o padre Micheal chegou ao Brasil com o objetivo de cumprir uma missão religiosa. Ficou por oito anos no interior de São Paulo, fez curso de português e chegou a voltar para a Irlanda. “Fiquei dois anos lá, mas voltei ao Brasil e aqui comecei a trabalhar com os povos indígenas”, conta Miguel, como o irlandês é chamado no bairro São Conrado, onde reside atualmente.

Miguel mora há 20 anos na Capital. (Foto: Leonardo de França, Jornal Midiamax)

Mas o que ele encontrou nas terras brasileiras foi muito mais do que uma missão da igreja. Miguel ficou no Amazonas trabalhando com povos indígenas e nesse período conheceu a dona Edna Teixeira, de uma família tradicional do interior paulista.

Apaixonados, Edna e Miguel se casaram e tiveram dois filhos, hoje com 24 e 25 anos. “Nesse tempo eu já estava morando em Manaus, mas meu sogro faleceu e pedi para trabalhar com os índios por aqui, no Mato Grosso do Sul, para ficar mais perto da minha sogra que estava em São Paulo”, lembra.

Miguel fez parte do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) até 2002. Três anos antes, ele se mudava para Campo Grande. “Nos mudamos em 1999 para a Capital e escolhemos aqui porque era a central do Cimi. Nessa época ficamos morando no bairro Aero Rancho até conseguir vender a casa em Manaus e então compramos essa, no São Conrado”, conta.

Além de ajudar na catequese da comunidade Mãe Maria do Redentor, Miguel foi chamado para fazer parte do Conselho de Saúde. “O pessoal do bairro me convidou para fazer parte e hoje a gente tenta ajudar reivindicando condições dignas de trabalho no posto de saúde do bairro”, afirma o irlandês.

Miguel, com a bola, se destacava em time de futebol na Irlanda. (Foto: Leonardo de França).

Com a foto dos irmãos nas mãos, Miguel – o segundo de seis filhos – lembrou a perda dos pais e do irmão, que faleceu aos 51 anos. “Éramos em seis e quando ele faleceu em 1978, eu morava no interior de São Paulo e ainda fui reprimido pela ditadura quando tentei ir para lá”, conta.

Ele afirma que sente saudade da família, mas não pretende voltar para sua terra. “Fiquei 50 anos na vida religiosa e nesse período ia para Irlanda de três em três anos, mas agora fica mais difícil, já que me aposentei aqui com um salário mínimo. A última vez que fui visitar minha família foi em 2013”, lembra ele ao remexer as poucas fotos que tem da família.

Para quem pensa que o irlandês deixou a vida cristã, se engana. “Eu falo que mesmo com tudo que aconteceu eu sempre serei padre. Finquei meus pés aqui, é um lugar que aprendi a viver e amar, e não pretendo ir embora”, finaliza.

Da guerra à paz

Da Irlanda, a reportagem do Jornal Midiamax faz um salto para a Arábia Saudita e traz a história de um iemenita para lá de abrasileirado, que também adotou Campo Grande como sua nova casa. Abdulkareen Farhan Armed Ghaleb chegou há um ano e dois meses na Capital, onde ele encontrou a paz e o aconchego que precisava. “Meu país está em guerra, não tem trabalho, não tem nada, e aqui é completamente diferente”, conta ‘Karin’, como ficou conhecido o nome ‘aportuguesado’ do rapaz, que hoje trabalha no Centro como vendedor ambulante.

“Aqui tenho trabalho e sou feliz”, disse. (Foto: Leonardo de França)

Karin tem 27 anos e já consegue falar bem o português. “Aprendi na rua, aqui no Brasil consegui aprender tudo muito rápido”. Ele conta que trabalhava e ganhava bem no Iêmen. “Eu era técnico de dentista, trabalhava na área e ganhava bem, mas não via um futuro muito bom lá”, conta.

Quando veio para o Brasil, a esposa de Karin estava grávida. “A gente ainda arriscou e viemos sem falar para ninguém que ela estava grávida de 9 meses já, mas eu não consegui esperar”, lembra. “Quero trocar meu passaporte, quero mudar minha vida aqui, eu quero meu filho muito bem no futuro”, destacou. Hoje o iemenita tem dois meninos, de 1 ano e 2 meses e outro de dois meses.

Karin afirma que não quer voltar para a Arábia Saudita. “Eu gosto daqui porque tem democracia e não tem preconceito, eu sou igual a todas as pessoas. Campo Grande é muito boa, tranquila, silenciosa, eu acho que vou morar aqui toda vida porque as pessoas aqui têm um coração muito bom”, diz.

Hoje o iemenita frequenta uma mesquita na Capital e mantém suas tradições muçulmanas. “Além de frequentar a mesquita, já fui nos três shoppings, na Orla Morena, Feira Central, não tenho familiares, mas já fiz muitos amigos aqui”, finalizou.

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