#CG120: Da guavira ao pequi, feirantes Terena criam laços e sustentam famílias com comércio em praça

Amizade entre feirantes e clientes também marca a trajetória da feira

“Essa é uma extensão da minha aldeia, do lugar onde eu vim. Aqui fui criada, tenho orgulho de ser feirante. É daqui que eu tiro o sustento dos meus fihos”, conta a feirante Marileide Francisca, orgulhosa de sua trajetória na Praça dos Indígenas, localizada no Mercadão entre as ruas 26 de agosto e 7 de Setembro.

Marileide faz parte das 80 indígenas filiadas à Associação das Mulheres Terenas que trabalham diariamente no Mercadão Municipal. A feira, localizada na praça Oshiro Takimori, reúne produtos artesanais de três aldeias do Mato Grosso do Sul localizadas nas imediações de Miranda e Aquidauana: Aldeia Cachoeirinha, Taunay e Limão Verde.

De sorriso fácil e orgulho de sua profissão, ela conta a história de sua família e a importância do local na vida dela e dos filhos. Segundo a feirante, desde os 10 anos ela acompanhava a mãe, dona Tereza Francisca, que há mais de 40 anos trabalhou vendendo os produtos confeccionados na aldeia. “Eu cresci nessa praça, em meio à guavira, pequis, pimentas. Minha mãe me trazia aqui, depois que saíamos da aldeia”.

Marileide, que faz parte da Aldeia Cachoeirinha, conta sobre o orgulho de ser feirante e fala que é uma profissão que passa de geração a geração “Meus três filhos me ajudam bastante. Ensacar os produtos, trazê-los aqui. Acredito que um deles vá seguir a profissão de feirante” revela Marileide muito orgulhosa que afirma “É até engraçado porque eu fui criada aqui e meus filhos acabam convivendo também. É por isso que eu digo que aqui é a extensão da minha casa”, brinca a feirante.

No quiosque, podem ser encontrados diversos produtos artesanais e livre de agrotóxicos vindos das aldeias afiliadas. Dentre os mais vendidos estão: palmito amargo, guariroba, pequi e guavira, mas na prateleira das feirantes é fácil encontrar batata, feijão-verde, milho-verde, pimenta, leite de mangaba, seiva de jatobá, bocaiúva e para quem gosta de plantas, as belas orquídeas. Além disso, há uma preservação de identidade indígena nas prateleiras com a presença de ervas medicinais e costumes locais.

Amizade e cumplicidade

Tão antiga quanto a fundação de município de Campo Grande, a feira das indígenas Terena traz histórias de cumplicidade e companheirismo. Vanda de Albuquerque, feirante há quase 20 anos na praça, conta sobre a relação mais aproximada com os clientes. “Como estou há muito tempo aqui, acabo pegando intimidade com alguns que vem com mais frequência”, explica a feirante.

Segundo Vanda, por conta da falta de alguns produtos e a alta demanda de clientes, ela acaba criando uma relação mais próxima e até de amizade e sobretudo companheirismo. “Tenho até o Whatsapp de alguns. Sempre quando tenho novidade, aviso para meus clientes e quando eles pedem algo especial, também me mandam mensagem”, explica sorrindo.

Seu Jair Rodrigues, aposentado e frequentador da feira confirma a relação de companheirismo. “Ela tem o número da minha esposa. Venho aqui pelo menos umas três vezes por mês. Vir a essa feira é uma tradição da minha família. Quando não consigo vir comprar, vem a minha esposa. Acaba que a Vanda já é amiga da nossa família”.

Produtos mais vendidos

Questionadas sobre os produtos mais vendidos pelas feirantes, Ilda da Silva vice-presidente da Associação das Mulheres Terenas, revela que depende muito da época do ano. Mas segundo ela, há uma grande procura por guavira e pequi. “A guavira sai mais em novembro e o pequi em dezembro”, explica.

Sobre a faixa-etária e perfil de pessoas que frequentam a feira, Ilda lembra dos aposentados e pessoas que procuram levar uma vida saudável. “As pessoas vem à procura do que é natural, livre de agrotóxicos”.

As mercadorias vendidas na praça são cultivadas e trazidas de cada aldeia afiliada à associação. As barracas são organizadas de maneira simples e com muito companheirismo das mulheres indígenas da etnia Terena. A praça Oshiro Takimori abriga hoje cerca de 80 mulheres que tiram o sustento da venda dos seus produtos.

Henrique Arakaki, Midiamax
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