#CG120: Comer, cantar e inventar: em um mix cultural, os hábitos em Campo Grande vão além do tereré

Campo Grande é berço de várias adaptações gastronômicas e um dos estilos musicais que recentemente mais fizeram sucesso no país, mas também é uma das primeiras cidades a 'chegar' à internet

Crescer é algo que nos torna mais fortes, mas com o decorrer do tempo também nos tira alguns hábitos com os quais nos identificamos e nos marcavam. E o que acontece conosco não deixa de se repetir com a cidade em que moramos – no caso, Campo Grande – conforme ela cresce, afinal, a cultura de um local quem faz somos nós, seus habitantes.

Ocorre com todos, e ocorre com todas as cidades que crescem. Aqui o ponto de encontro não é mais a Chattanooga, o Surian, nem o Topo Gigio (essa vai para a memória dos amigos jornalistas). O Horto Florestal não é mais o principal parque – e para a sorte dos servidores também não mais o local de pagamento, que chegava em carros fortes.

Ainda assim, mesmo algumas coisas que pareciam que iam acabar “à forceps” permaneceram vivas no cotidiano campo-grandense, que no alto dos seus 120 anos finalmente começa a experimentar uma fase de transição, mesmo sem perceber, para “gente grande”.

Transformar o hábito de comer em lazer é algo comum em vários lugares, mas na Capital os trailers que ficavam na avenida Afonso Pena trouxeram algo peculiar à gastronomia popular da cidade e que representa bem a nossa cultura: um mix de ingredientes e influências que, ao nosso modo, ganhou nossa cara: literalmente, um X-Campo Grande.

Nem mesmo a retirada desses trailers foi capaz de abalar esse costume, a ponto de até cachorro-quente e pizza ganharem formas de “lanchão”. Ainda na gastronomia, quem nunca teve que falar para um visitante que para comer a tal sopa paraguaia não precisa de colher? E explicar as diferenças do nosso sobá?

“Até onde sei, aqui se adaptou e colocamos carne bovina no lugar do peixe. Por ser uma cidade atrelada a pecuária, creio nesse direcionamento. Certamente foi para atender a demanda local e deixou o prato com a cara da cidade. Agora, tem até suíno, de frango, vegetariano”, opina Doralice Fernandes, do Silva Restaurante, na Feira Central.

Ela ainda conta que muitos visitantes chegam à feira e não conhecem o prato, apesar da forte presença japonesa pelo país. “Muita gente vem de São Paulo para cá e fala que, mesmo na Liberdade, não tem o sobá. Lá tem o lámen, que é parecido, mas o sobá só aqui”, frisa Doralice, se referindo ao bairro paulista que é reduto japonês.

A impressão é que, na verdade, o maior hábito do campo-grandense é adotar costumes de culturas que imigraram para a cidade, adaptar e, a partir daí, fazer e acontecer – nada que os romanos já não tenham feito há milhares de anos.

Na música, não foi muito diferente. Sertaneja de nascença, mas sem a mesma expressão que o interior de São Paulo e Goiânia, Campo Grande entrou em evidência ao virar um dos principais polos do estilo que estourou na década passada: o sertanejo universitário.

A cidade se tornou referência e foi o ponto de partida – ou um dos pontos – para muitos, como Munhoz & Mariano, Maria Cecília & Rodolfo, Michel Teló e Luan Santana. Também não há como esquecer de João Bosco & Vinicius.

Aqui também surgiu Eduardo Maluf como empresário musical e o produtor Dudu Borges, que já era conhecido no meio gospel em São Paulo, mas ganhou o Brasil a partir do sertanejo. O estilo arrefeceu, perdeu força e se adaptou em meio ao mercado musical, mas a Capital de Mato Grosso do Sul seguirá conhecida como um dos berços do sertanejo nacional.

“Diferente do que se comenta, o campo-grandense não é fechado. A explosão do sertanejo universitário se deu por encontro de amigos, que iam fazer trabalho da faculdade, tomar um tereré, e tudo aquilo acabava em roda de violão. As grandes duplas surgiram a partir disso daí”, comenta o produtor de eventos Wellington Moura, de 35 anos.

Ele também acredita que a cidade ainda está dentro do circuito musical sertanejo, mas não é mais reveladora como foi há meia década. “Mas não são só cantores. Daqui saem músicos que compõem as bandas de grandes duplas, como Maiara & Maraisa, Hugo & Guilherme. As duplas não são daqui, mas há músicos nas bandas que são”, frisa.

Afonso Pena e ele, o tereré

Não há como falar de Campo Grande e não se lembrar da avenida Afonso Pena (Marcos Ermínio, Midiamax)

A gente roda, roda, e existem lugares comuns impossíveis de fugir quando o assunto é Campo Grande. Um deles é a o hábito de frequentar a avenida Afonso Pena. Seja para ir ao shopping, ao Parque das Nações Indígenas, aos bares ali estabelecidos ou mesmo para ficar nas calçadas dos ‘Altos da Afonso Pena’.

Frequentar a via por lazer é algo marcante no campo-grandense, hábito antigo e daqueles que ainda dá ar de cidade interiorana, assim como as rodas de conversa com as boas e velhas conhecidas cadeiras de fio em frente ao portão de casa, costume muito comum ainda na periferia da cidade, principalmente nos fins de semana.

E aí é que surge o representante principal da cultura, não só campo-grandense, mas sul-mato-grossense e do poder da influência paraguaia aqui: o tereré. Vale lembrar também que, por muito tempo, a produção da erva-mate foi matriz econômica do então sul do Mato Grosso unificado, com a Companhia Matte Larangeira.

“Tereré faz tempo que eu tomo, desde a época que morava com meus tios na fazenda. Tinha uns 13 anos. Tomava por que ia trabalhar no campo, sob sol quente, e voltava morrendo de sede, aí peguei esse hábito”, conta o porteio de 39 anos, Rogério Siqueira, convicto apreciador dessa simples bebida que é ‘mania’ regional.

Hoje, já morando em Campo Grande, Rogério segue com hábito, tanto para o lazer como também um ‘truque’ no trabalho. “Além de eu já estar acostumado, levo para o serviço pois trabalho à noite e o tereré me ajuda a ficar acordado, não dá sono”.

“O período que tomei muito tereré mesmo foi no Ensino Médio. Estudava à noite, então quando acabava a aula eu saia da escola e ia para a casa dos amigos e ficava tomando tereré e jogando baralho. Tempo bom”, relembra Rogério.

Mas não só comida, música, Afonso Pena e água fresca para o tereré são peculiares a Campo Grande. Inovar, de certa forma, também é algo intrínseco à cidade. E a internet na década passada foi o local onde muita coisa aconteceu.

No jornalismo, por exemplo, o Jornal Midiamax foi um dos expoentes na transmissão de notícias exclusivamente pela internet, algo incomum na maioria das capitais do país, mas que aqui logo cedo se tornou natural e criou o hábito de se informar online.

“Significou uma alteração no jeito de fazer jornalismo, mas vou fazer uma relação também com o rádio. Na década de 90, por causa da agilidade do rádio, essa função de pautar outros veículos era exclusivo do rádio. Essa mesma velocidade a gente passou a encontrar no webjornalismo na década seguinte”, frisa o professor de Jornalismo, Oswaldo Ribeiro.

Ele ainda acrescenta que os sites de notícias acabaram se tornando mola propulsora de pautas. “O que se disse do rádio em 1920, que era revolucionário, democrático, se diz muito também da internet logo quando ela chega aqui”, explana Oswaldo, que completa.

“Acabou servindo de referencial. Hoje também passa por mudança, procura além de ter essa velocidade, também ter textos mais elaborados, mais aprofundados”, conta o professor da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) e que está encerrando um pós-doutorado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Houve também iniciativas na internet como o Reclame Aqui, ainda existente mas que migrou para São Paulo por questões comerciais, e o Portal Educação, especializado em EaD (Educação à Distância) e adquirido há alguns anos pelo portal de conteúdo UOL.

Mas e os visitantes, o que pensam?

Aos poucos a cidade vai se verticalizando, mas ela ainda é conhecida por ser “horizontal” (Marcos Ermínio, Midiamax)

Na perspectiva de quem é um mero visitante, alguns costumes são associados a Campo Grande, porém a paisagem da cidade, com rica fauna e flora, e a “vizinhança” no Estado, são mais marcantes e são o selo campo-grandense – só consolidando que, como capital, a cidade é referência do Mato Grosso do Sul.

“O que mais me marca aqui são as araras livres, voando, as seriemas que sempre aparecem perto do autódromo, esse arvoredo e esse cerrado que a gente consegue ver longe. Tem o poeirão quando venta muito, a gente vê bem a terra vermelha”, frisa o fotógrafo Vanderley Soares, que é de Cascavel (PR) e há 22 anos cobre automobilismo nacional.

Ele também comenta que, na área urbana, a avenida Afonso Pena é muito marcante. Tem também aquele negócio que vocês tomam em todos os lugares, tereré, né?”, completa Soares, que por causa da profissão, visita várias cidades todos os anos.

Já o piloto Thiago Camilo, campeão da corrida 1 da etapa campo-grandense da Stock Car, conta ter amigos na cidade e que o calor, além da carne, o fazem lembrar a cidade. “A churrascada, a carne de sol, tem bastante coisa aqui. O calor também, é quente e seco. Ouvi que fez 6ºC aqui na semana passada e pensei, como pode isso?”, ironiza.

Camilo disputou a etapa na Capital sul-mato-grossense no domingo retrasado (11) e ainda brincou sobre o tereré. “Fui jogar futevôlei com o pessoal e eles estavam tomando tereré, mas não tomei. Não sei o que tem nisso e não quis experimentar antes da corrida”.

Diretor de competição da Stock Car, comentarista de automobilismo do Grupo Globo e piloto da Copa Truck, Felipe Giaffone já associa a cidade aos municípios próximos e ao potencial turístico local, como Bonito.

“Adoro vir para Campo Grande e quando dá ainda dou uma esticadinha, aqui por perto está cheio de lugar bacana. No ano passado fui para Bonito com a família e gosto muito da região”, frisa o piloto e gestor, que em abril veio à Capital com a Copa Truck.

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