#CG120: Cidade de extremos e o sonho de duas meninas que querem se tornar médicas

Com oportunidades diferentes, meninas são o retrato da desigualdade social

Com pouco mais de uma década de vida, Maria Clara e Jhenyffer têm sonhos de gente grande: cursar medicina e cuidar das pessoas. Elas têm muito em comum, como mães corujas, orgulhosas das filhas de ouro que têm. Maria Clara e Jhenyffer cuidam e são referência para as irmãs mais novas. Enquanto Jhenyffer adora cantar no culto, Maria Clara curte dançar nas horas vagas. Elas são meninas doces, educadas e inteligentes. Falando assim, há quem diga que elas poderiam ser melhores amigas, mas as semelhanças param por aqui. Mesmo com um sonho em comum, uma delas tem um caminho mais longo para percorrer.

Jheniffer mora em uma favela no bairro Jardim Noroeste. (Foto: Leonardo de França)

As meninas são a prova viva de que, assim como todas as capitais do Brasil, a desigualdade social persiste em Campo Grande. É no barraco montado de ripas de madeira e forrado em lona que vive Jhenyffer Pereira, de 10 anos. Antes das seis da manhã, a primeira coisa que vê ao acordar é o teto de lona, com uma viga de madeira já torta, que poderia oferecer um risco para a família de seis pessoas – pai, mãe e quatro crianças. Neste mesmo teto, vez ou outra é possível ouvir um barulho, que chega a assustar quem não está acostumado. “É só um rato”, diz a mãe.

A menina se levanta da cama que divide com os irmãos, prepara a mochila, o café da manhã e vai andando com o irmão mais velho até a escola municipal mais próxima, a 1,5 km de casa. Pode parecer longe, mas para ela, o caminho é a parte mais fácil da vida na escola. Enquanto ela percorre o trajeto, a mãe reza para que nem ela, nem o irmão, sejam tentados pelo tráfico, tão comum entre adolescentes do bairro.

Maria Clara mora com a irmã mais nova e os pais. (Foto: Leonardo de França)

A menos de 9 km dali, Maria Clara Martinez, de 11 anos, também acorda cedo para cumprir uma rotina muito parecida. Com o mesmo sonho de se tornar uma médica, ela leva os estudos a sério junto com a dupla jornada de digital influencer. Mesmo nova, Maria Clara é referência para muitas meninas, são mais de 100 mil seguidores no Instagram e 180 mil no Youtube.

Mesmo com realidades distantes, a rotina de estudos nem sempre é fácil para as duas pré-adolescentes. Elas são importunadas pelos colegas e até já cogitaram trocar de escola. Para Maria Clara, por mais que alguns amigos adorem seu lado influenciadora, a fama online também tem um gosto amargo. A rivalidade entre meninas, tão comum nesta idade, fica ainda mais intensa com uma menina que tem parte da vida exposta na internet.

Priscila (à esquerda) é uma mãe coruja e está sempre disposta a defender os filhos. (Foto: Leonardo de França)

Do outro lado, Jhennyfer também sofre bullying, mas por motivos diferentes. Favelada é um adjetivo bastante usado pelas outras crianças para se referir a ela. Segundo a menina, todos sabem que ela mora na comunidade e, por isso, só tem uma amiga. “Eu tinha muito machucado na perna, começaram a me xingar. Eles ficavam me zoando, me chamavam de favelada”, chora.

(Foto: Leonardo de França)

A humilhação da menina expõe uma questão ainda mais profunda, é um reflexo da precariedade em que a família vive. A mãe de Jhenyffer, Priscila, explica que a menina tinha a perna machucada por conta do solo contaminado do barraco, que fica próximo ao lixão. “Ela chegava em casa chorando, eu fui na escola, conversei com a professora e a diretora. Falei que a gente é favelado e pobre sim, mas podem entrar dentro da minha casa e olhar, não falta nada para eles”, defende a mãe.

Depois de voltar da escola, Jhenyffer ajuda a mãe a preparar a refeição da família e faz a lição de casa. Apesar da pobreza, a família ressalta que não passa fome, já que o pai das crianças trabalha no Ceasa (Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul). A menina adora estudar matemática e exibe com orgulho a medalha que recebeu na escola, por ser melhor aluna. A vontade de Jhenyffer em estudar para dar uma casa para a família enche a mãe de alegria. “Eu tenho o sonho de ter uma casa pra gente morar”.

A influenciadora exibe a placa que ganhou após atingir 100 mil seguidores. (Foto: Leonardo de França)

As tardes de Maria Clara também são marcadas pelo estudo. Ela faz as tarefas da escola e em alguns dias da semana pratica o inglês, tanto que ela consegue manter uma conversa no idioma sem muita dificuldade. Além da rotina de estudante, a pré-adolescente ainda tem o lado de influencer digital. Há dois anos, ela começou a gravar vídeos porque se divertia e logo o hobby virou profissão.

“Eu sempre gostei de gravar vídeo, eu gravava só para brincar. Um dia, eu pedi para meu pai criar um canal no Youtube. Ele viu que eu gostava, deixou. Aí a minha mãe assumiu a responsabilidade de me levar para os lugares”, diz

Ela conta que começou a receber convites quando bateu a meta de 10 mil seguidores e que também surfou na onda das famosas slimes, quando era chamada para dar oficinas para crianças. Hoje em dia, a ‘blogueira’ mirim tem um trabalho de gente grande. É procurada para divulgação de lojas, cafés e restaurantes. Maria Clara também recebe convites para eventos, presentes, roupas e calçados, vale tudo para ser mencionada pela influenciadora nas redes sociais.

Com todo o seu carisma, ela conquistou milhares de seguidores. Maria Clara conta que só teve noção de como era conhecida quando passeava no shopping e foi parada por uma seguidora. “Eu estava no shopping, vi que uma menina começou a fazer caras e bocas, sorrir, ela veio em minha direção e pediu uma foto comigo. Eu não sei quem ficou mais envergonhada, mas foi muito legal e gratificante”.

Jeannicy cuida das carreiras das filhas influenciadoras. (Foto: Leonardo de França)

A mãe de Maria Clara diz que há um estigma sobre a profissão, fazendo com que muita gente acredite que a menina é mimada. Entretanto, ela ressalta que a filha trabalha, ganha o próprio dinheiro e, por isso, tem direito a algumas regalias, como um celular novo.

Mesmo com o grande sonho de se tornar médica – pediatra, como ela prefere ressaltar -, os outros objetivos de Jhenyffer são um pouco diferentes. Ela conta que gostaria de ganhar um calçado novo, para evitar ser motivo de chacota pelas outras crianças da escola. “Eu tenho um tênis, mas eles sempre comentam. Falam ‘você não tem outro não? Deve ser porque você é favelada’. Eu falo que pelo menos eu tenho algum, mas na verdade, seria legal ter outra opção”, diz. Outro desejo de Jhenyffer é ter um celular para assistir vídeos da atriz Larissa Manoela, sua maior inspiração.

Apesar do olhar triste, Jhenyfer muda de feição e escancara um sorriso ao falar sobre a atriz. Durantes as noites, ela assiste à novela protagonizada por Larissa. Na maioria das vezes a TV da casa não funciona e, por isso, Jhenyffer caminha até a casa da avó, que mora na mesma favela.

Jhenyffer não tem culpa de viver na pobreza da Comunidade da Esperança, assim como Maria Clara também não tem em morar em uma casa confortável. A menina da favela sabe que vai enfrentar dificuldades para alcançar seus sonhos, tanto que o caminho está cheio de pedras desde cedo. Maria Clara não é uma menina mimada, mas sim um exemplo das oportunidades que toda garota deveria ter. Juntas, elas são um exemplo da desigualdade em uma cidade como Campo Grande e comprovam que a meritocracia é um mito.

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Quer ajudar a Jhenyffer? Por mais que a família tenha alimentação em casa, a mãe pede a doação de uma TV usada para as crianças. Doações de roupas e calçados também são bem-vindas. Contato: 67 99174-2703.

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