Após ordem para deixar área, 45 famílias relatam o desespero e a esperança em assentamento

Propriedade está em processo de reintegração de posse

Dezenas de famílias que ocupam uma área na zona rural da Capital alvo de uma ação de reintegração de posse, já concedida pela justiça (atualmente suspensa), alegam que possuem documentos de posse da terra, e relatam tensão e desespero, após a ameaça de ter que deixar suas casas e destruir o que construíram durante os anos de moradia na localidade conhecida como ‘acampamento Matinho’, na MS-010, saída para Rochedinho.

Segundo os moradores, o Batalhão de Choque da Polícia Militar, esteve no local na última terça-feira (8), com a determinação judicial para que os acampados deixassem a área, uma vez que a reintegração foi concedida, já que os proprietários alegam que a terra em questão não foi desapropriada pelo Incra, logo, não deveria ter sido ocupada pelos assentados.

“A gente ficou desesperado. Eu só chorava, e então ontem decidi quebrar tudo. Fui arrancando porta, janela, telha, o que podia salvar. Eles disseram que viriam entre segunda (14) e terça (15), e que não iam nem deixar a gente chegar perto da nossa casa. Iam barrar a gente mesmo”, conta Daiana Ribeiro, 31 anos, que está no local há 15 anos.

Daiana, relatou que foi para a área rural após o trauma de perder a filha de 1 ano. “A gente queria uma vida nova, longe da rotina da cidade, e veio para cá. Compramos a posse da terra e construímos nossa vida. Olha só, a gente tinha os bichos, vendemos tudo abaixo do valor para não perder o pouco que temos”.

“Nós não somos invasores”, afirmou com veemência. Enquanto conversávamos e andávamos pela casa completamente destruída, alguns vizinhos se ajuntaram para relatar suas histórias.

Há 21 anos, Milton Gonçalves da Silva, 54 anos, contou que passou 10 anos na beira da estrada até conseguir a área. “Moça eu passei 10 anos aqui na beira da estrada, e já tô há 11 aqui dentro da terra. Eu criei três filhos na área rural. A gente vive disso aqui. Nós temos documento, não estamos invadindo nada não”.

Milton, disse que há 11 anos quando viram nos jornais que o Incra teria conseguido desapropriar a terra, e depois da demora do processo, quem estava na beira da estrada decidiu entrar. “A gente soube da desapropriação, começou a demorar demais, a gente pensou se desapropriou é nossa, vamos entrar. Eu tenho até multa ambiental no meu nome. O Incra chegou a dar sacolão para gente, e vem dizer que agora não sabe de nada. Eu tenho documento de posse dessa terra, eles não podem botar a gente para fora”.

Morando com a esposa e 4 filhos, ele ainda disse que chegou a destelhar a casa, mas como não teria para onde ir, decidiu não continuar o serviço de destruição.

Para Milton, o que mais o abala é a tradicional festa a São Sebastião, realizada todo dia 20 de janeiro para agradecer a conquista e a prosperidade do local. “A gente faz essa festa todo ano, é um almoço beneficente, os fazendeiros da região também ajudam a gente. Não somos inimigos de ninguém. O almoço é feito por todo mundo nesse dia, a gente faz uma procissão e reza uma missa, é um dia de agradecimento, e agora está ameaçado”.

De acordo com eles, um grupo de sem-terras teria permanecido na beira da estrada ali por alguns dias, e então acreditam que a justiça está considerando que eles sejam do grupo. “A juíza acha que somos sem-terra, nós não somos. Eles não podem tirar a gente daqui assim. Eu tenho posse dessa terra. Isso aqui não tem nada de Fazenda Maracujá, aqui é Fazenda Matinha”, disse um deles.

Agitado, Valdeir Francisco Vieira, 50 anos, diz “eu vou ser o último a sair daqui. Eu não vou sair assim não. Mandaram um oficial de justiça com a cara lambida aqui, nem papel pra gente assinar deram, só mandaram a gente sair. Eles deviam fazer uma audiência, ver quem a gente é. Olha para essa terra, tem café, acha que isso é improdutivo? Eu tenho documento. Eu estou aqui há muitos anos, eles não podem tirar a gente assim”.

“Moça, os herdeiros da Matinha assinaram com a gente”, afirmou.

Ao todo são 45 famílias, alguns desesperados outros mais esperançosos como o 2º sargento aposentado do Corpo de Bombeiros, Cleumar Campos Paes. Com as muletas ele chega até nós e mostra orgulhoso a propriedade. “Eu tenho 30 patos, mais de 100 galinhas, tenho minhas cabrinhas, minhas vaquinhas, meus cachorros, meus porcos. Tudo aqui é meu, e do que eu vivo. Eu moro aqui, a casa é humilde? É, mas é minha moradia. Eu não me desesperei, não tirei nada. Tenho esperança de que vai ser resolver. Ninguém tá roubando”.

Cleumar, sofreu um aneurisma dissecante e perdeu uma das perdas, motivo pelo qual se aposentou do Corpo de Bombeiros há 2 anos. “Eu sofri esse acidente aqui, cuidando da minha terra. Estou há 9 anos aqui, pago minha luz, vem o CCZ vacinar os cachorros, tá tudo em ordem aqui”.

Mas emoção foi ver Estênio Rodrigues Chaves Filho, 61 e a esposa Estela Sueli da Silva Chaves, 65 anos. Divididos entre a esperança e o desespero, acabaram destruindo a casa e retirando alguns animais, porém não saíram da propriedade. O casal que vende pastel na feira para complementar a renda, está passando as noites dentro da Kombi utilizada no transporte.

“Moça, meu coração se entristece de entrar aqui agora”, conta Estela com os olhos cheios de lágrima. “O que eu tô vendo aqui é uma vida destruída por conta de uma ameaça sem fundamento”.

Também há 9 anos no local, o que sobrou além do veículo, foram os porcos que o casal cria para sobrevivência.

“Não tem nem 1 hectare aqui. A gente foi se ajeitando. Construindo nossa casa, e tudo tá destruído agora. Meus filhos querem que a gente saia daqui, mas nós vamos ficar aqui até o último momento. Essa é a nossa casa”, concluiu.

Reintegração de posse

De acordo com as informações, a briga na justiça já dura quase 12 anos. E após a reintegração de posse ser concedida pela Justiça em dezembro de 2018, mm plantão no fim de semana, o desembargador Vladimir Abreu da Silva suspendeu a reintegração.

Oton Nasser, advogado de um grupo dessas famílias que moram na área,  aponta que a Justiça entendeu que não seria justo colocar as famílias à beira da rodovia, já que eles não teriam para onde ir.

A fazenda Maracujá teria sido ocupada há anos por pequenos agricultores à espera de uma desapropriação do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Já o advogado dos proprietários da fazenda Maracujá, João Paulo Delmondes, afirma que a terra não foi desapropriada pelo Incra, já que não cumpria com os requisitos para fins de reforma agrária. Segundo ele, a fazenda Maracujá com cerca de 300 hectares é da família dos proprietários há mais de 70 anos.

Delmondes, ainda alega que a reintegração de posse teria sido concedida ainda em 2017, mas a Justiça concedeu um novo mandado agora em janeiro, quando o Choque passou a fazer a intervenção para tentar uma desocupação pacífica.

Jornal Midiamax procurou o Incra, mas não conseguiu contato até a publicação da matéria.

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