Após flagra de F-250 gigante, donos listam dificuldades para legalizar rebaixados e modificados em MS

Burocracia e custo alto acabam incentivando ilegalidades no trânsito sul-mato-grossense

Enquanto programas de TV mostram facilidade para amantes de veículos customizarem os carros fora do Brasil, por aqui a burocracia transforma alterações simples, como elevar ou rebaixar a suspensão, em verdadeiro desafio com ar de ‘fora-da-lei’. Com as dificuldades, em MS aumenta a ilegalidade, que oferece riscos para todos.

No último dia 29 de agosto, a apreensão de uma camionete gigantesca, com a suspensão e rodas modificadas na Rodovia BR-262, em Campo Grande, levantou discussão sobre a irregularidade dos procedimentos de customização de veículos. Burocracia, demora, alto custo e o que seria uma certa falta de vontade dos órgãos responsáveis pela regularização foram alguns pontos apontados por quem entende do assunto.

O Jornal Midiamax conversou com dois especialistas no ramo, mecânicos que além de trabalharem com a modificação de veículos, têm na garagem carros customizados. Aos 28 anos, João Ota já passou pelo menos 12 anos trabalhando na oficina do pai, que fica na região do São Francisco.

João contou que naquela oficina a procura pelo serviço de rebaixamento dos carros têm diminuído, o que pode ter acontecido pela burocracia na legalização do procedimento para o proprietário do veículo ou pela dificuldade de andar nos carros rebaixados nas ruas da Capital. “A maioria dos clientes que procuram a oficina para fazerem modificações sabem que precisam ir até o Detran para regularizar, e mesmo assim quando não sabem eu oriento”, contou.

Toda modificação veicular, desde cor até alteração nas rodas ou na suspensão precisa do OK do Detran-MS (Departamento de Trânsito de Mato Grosso do Sul). O mecânico contou à reportagem que mesmo assim alguns acabam fazendo todo procedimento sem passar pelo órgão, já que a regularização não é um processo fácil nem barato.

Gol já recebeu mais de R$ 50 mil em investimento (Foto: Renata Portela)

A modificação do veículo é vista pelos amantes de carros como um investimento e pode pesar no bolso, mas tem quem goste. “Aqui para rebaixar e turbinar o carro, tem cliente que investe até R$ 30 mil, para fazer o básico com todas peças novas”, contou João. Estacionado na oficina, o Gol quadrado ano 93 do pai já teve mais de R$ 50 mil investidos pelo próprio mecânico.

João Ota revelou que usa o carro para correr na pista do autódromo, mas que o veículo está todo regularizado para também andar dentro da cidade. Do motor ao banco, vidros e suspensão, “de original só a carcaça”, brincou o mecânico. Já Henrique Lachi, de 24 anos, que há quatro trabalha com mecânica é especialista em suspensões de veículos.

Henrique conta que já chegou a modificar 20 carros em um mês, mas que a maior procura acontece no fim e no começo do ano, sendo que os veículos acabam voltando para manutenção no decorrer do ano. “Aqui a gente fala sobre a necessidade de regularizar no Detran, mas a maioria acaba preferindo fazer primeiro e deixa para resolver quando cai”, contou.

Camionete foi apreendida pela PRF (Foto: Divulgação)

Veículos modificados sem o CVS (Certificado de Segurança Veicular) emitido pelo Detran após vistoria, testes feitos por empresa autorizada pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial), podem acabar apreendidos pela polícia e o motorista ainda é sujeito à multa. Foi o caso da F-250 apreendida no último dia 29. O veículo tinha alterações nas rodas, suspensão, lanternas, para-choque, mas sem a regularização necessária.

Na oficina em que Henrique trabalha, que fica no Coronel Antonino, tem ocorrido uma procura pela suspensão a ar. Uma Hilux passava pela modificação no dia em que a reportagem foi ao local e o mecânico contou que o proprietário já tinha investido R$ 8 mil. Ele ainda revelou que para regularizar o veículo rebaixado o motorista vai desembolsar aproximadamente R$ 1,5 mil se for por conta própria e até R$ 2,5 mil se procurar um despachante.

No entanto, o presidente da Fenive (Federação Nacional de Inspeção Veicular), Ênio Ferreira, afirma que os valores para regularização dos veículos direto em uma ITL (Instituição Técnica Licenciada), sem o intermédio de um despachante, podem ser menores, variando entre R$ 350 a R$ 500.

Como regularizar

Conforme o site do Detran, o primeiro passo para fazer qualquer modificação no carro é levar o veículo ao órgão e informar sobre a mudança, fazendo uma vistoria. Após isso é emitida uma autorização para a modificação e o proprietário procura uma empresa especializada para fazer a customização do veículo.

Feito o procedimento, o proprietário deve então apresentar o carro à ITL (Instituição Técnica Licenciada) credenciada pelo Inmetro, onde são feitos os testes e inspeção para então ser aprovado. Após a aprovação o motorista volta ao Detran para ter o CSV, que é um registro nas observações do CRV (Certificado de Registro do Veículo) com as alterações feitas no carro.

Regularizar não dá total liberdade

Apesar de toda dificuldade encontrada e apontada pelos proprietários de veículos modificados, mesmo com o carro regularizado ele pode acabar apreendido. Conforme a PRF (Polícia Rodoviária Federal), no dia da apreensão da F-250 o condutor não tinha regularização e a altura do veículo chamou atenção dos policiais.

De acordo com a PRF, é regulamentado em lei que pode sim haver modificação no conjunto roda/pneu do veículo, porém a altura deve sempre permanecer conforme a original. Isso também vale para carros rebaixados, que mesmo regularizados pelo Detran não podem ter altura assoalho/chão menor do que 10 centímetros. A medida também vale como 50 centímetros do farol baixo até o chão ou 25 centímetros do farol de milha ao solo.

Fica esclarecido desta forma que ter a regularização feita no documento pelo Detran não dá ‘carta branca’ para os motoristas circularem com os veículos, que podem acabar apreendidos ou terem o documento recolhido.

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