Setembro Amarelo: Jovens superam preconceito sobre depressão e relatam superação

Preconceito começa com os pais e até pacientes, que não aceitam diagnóstico

“Chega de frescura”, “para de fazer birra”, “vai procurar uma igreja”, “deixa de mimimi”.  Antes de acreditar que suicídio seria uma maneira de por fim ao sofrimento causado pela depressão, a advogada E.C.B, de 29 anos, e o músico C.B.R, de 34 anos, escutaram muitas vezes de seus familiares essas frases citadas acima.

Para as famílias dos dois personagens, a cura da depressão está na igreja, no trabalho ou em qualquer atividade que ocupe a cabeça, desconsiderando que o problema seja de fato uma doença e que tenha que ser tratada como tal.

A advogada de 29 anos enfrenta depressão desde a adolescência. A psicóloga da escola onde ela estudava, percebeu o comportamento retraído da estudante em sala de aula e na época chamou os pais para uma conversa. “A psicóloga alertou minha mãe sobre o meu comportamento, mas percebeu que minha família era religiosa e não acreditava em doenças psicológicas. Ela recomendou aulas de música e pintura, mas infelizmente não adiantou.”

A depressão persistiu na vida de E.C.B até a fase adulta. Aos 28 anos, a advogada pensou em cometer suicídio. “Eu cheguei a um ponto que não conseguia me olhar no espelho, já não saía de casa e fiquei quatro dias sem tomar banho. Foi quando questionei a razão pela qual estava viva”, relata a advogada.

Foto: Minamar Júnior

Mas foi durante a última crise de pânico que a advogada desistiu da ideia de suicídio. “Meu ex-marido disse que sozinha eu não venceria esse mal. Essas palavras ficaram gravadas em minha memória. Foi a partir daquele dia que comecei a aceitar a ideia de procurar um psicólogo. No início eu não acreditava no tratamento, mas com o tempo, fui percebendo que me escutava mais e conseguia raciocinar. A terapia ajudou a me conhecer melhor e lembrar que tenho uma família, razão pela qual ainda estou viva”, conta a advogada.

O músico C.B.R, de 34 anos, enfrenta depressão desde os dez anos. A família dele também não acreditava em doenças psicológicas. O músico enfrentava a doença na infância, mas não sabia do que se tratava. “Eu sentia uma tristeza profunda, um desânimo e vontade de desaparecer. Quando falei para os meus pais, eles pediram para que eu frequentasse uma igreja e arrumasse um serviço. Para eles a solução do problema era essa.”

C.B.R foi levado ao psiquiatra aos 19 anos, depois de procurar igreja, trabalho e realizar vários exames cardiológicos. “Minha família já havia sido orientada por um cardiologista para que procurasse um psiquiatra, mas minha mãe foi categórica em responder ao médico que eu não tinha motivos para ser doido.

Com o tempo, fui perdendo peso, não saia do quarto e percebi que minha mãe ficou preocupada, por isso me levou ao psiquiatra.”

Foto: Minamar Júnior

Durante a consulta com o psiquiatra, o músico relata que em poucos minutos ele chegou a um diagnóstico. “Falei que tinha crises de pânico, medo de ambiente cheio, medo de passar mal em público e ele me interrompeu dizendo: é síndrome do pânico e tem tratamento. Minha vida mudou naquele momento, porque eu realmente pensava que era louco.”

O músico começou o tratamento com remédios controlados e voltou a ter uma vida normal, mas a ideia de suicídio veio durante o tratamento. “Mesmo percebendo que estava melhorando, minha mãe continuou não aceitando que o filho dela tivesse problemas psicológicos, então resolveu esconder os remédios, para ver como eu ficaria. Foi terrível, meu organismo já estava acostumado com a medicação e a depressão voltou em escala muito maior. Eu não conseguia levantar da cama, até que cheguei à conclusão de que não valia a pena viver nesse sofrimento.”

Segundo o músico, a falta do remédio provocou uma crise muito forte, que deixou a mãe assustada e devolveu a medicação. “Eu realmente pensei em tomar uma overdose, quase cometi suicídio, mas mesmo naquele momento consegui raciocinar sobre razões que valiam a pena viver. Pensei no sofrimento que causaria à minha família e logo desisti do suicídio”, relata o músico.

 

DEPRESSÃO TEM TRATAMENTO

 

A psicóloga Karoline Vieira Mincarone afirma, que não só os pais tem preconceito em admitir que os filhos tenham algum tipo de doença psicológica, mas em alguns casos, os próprios pacientes não aceitam essa condição. “Para algumas pessoas, é muito difícil reconhecer que precisam de ajuda. Aceitar a doença é um grande passo durante o tratamento.”

Foto: Cleber Rabelo

Segundo a psicóloga, o tratamento a partir da terapia, promove questões de autoconhecimento e ensina o paciente a traçar estratégias para lidar com a depressão. “A depressão é uma doença que gera comportamentos negativos na vida da pessoa, e ela consequentemente sofre com aquilo. O objetivo da terapia é encontrar caminhos para que o paciente aprenda a lidar melhor com cada situação, no sentido da superação.”

A psicóloga ressalta que é importante os pais estarem atentos em relação ao comportamento dos filhos. “Mesmo em casos de pessoas alegres, que tenham depressão, é possível identificar sinais através de publicações em redes sociais, contato com amigos íntimos, é muito difícil o paciente não expressar nenhum tipo de sinal.  É preciso também tomar cuidado com quem avisa que vai cometer suicídio, porque existe um mito, de que pessoas que falam, não se matam. A pessoa pode avisar de outras maneiras, é questão de percepção. O familiar deve ficar atento, porque é possível evitar uma tragédia e tratar a depressão”, afirma a psicóloga.

 

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